Arte, substantivo feminino

“As mulheres precisam estar nuas para estar no museu?” A provocação, que parece absurda à primeira vista, foi feita pelo grupo de artistas feministas Guerrilla Girls em visita ao Museu de Arte de São Paulo em 2017. Porém, observando atentamente os dados que embasaram a pergunta, a ponderação faz sentido: o grupo, que viaja o mundo denunciando as gritantes disparidades sexistas na arte, apontou que apenas 6% do acervo do MASP era composto por obras de autoras, mas 60% das figuras retratadas nuas eram femininas.

Inspirado no trabalho das Guerrilla Girls, surgiu no Instituto de Artes (IA) da UFRGS o projeto Mulheres nos Acervos, que reúne informações sobre os quatro acervos públicos expostos em Porto Alegre: as pinacotecas Aldo Locatelli e Ruben Berta, mantidas pela prefeitura de Porto Alegre; a Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, de responsabilidade do IA; e o Museu de Arte do Rio Grande do Sul. As pesquisadoras Cristina Barros, Marina Roncatto, Mel Ferrari e Nina Sanmartin pretendem, a partir desse levantamento, promover ações de divulgação dos resultados quantitativos e qualitativos para visibilizar a produção feminina existente nestas instituições e incentivar a inclusão de mulheres nas coleções.

“É um grande momento de visibilidade de artistas que foram silenciadas na história […]”

Cristina Barros

Pesquisadora do projeto e estudante do Bacharelado de História da Arte, Cristina Barros aponta que o desequilíbrio, embora seja um grave problema a ser corrigido, também serve como uma aula de história em alguns casos. “O acervo da Pinacoteca Ruben Berta, de cerca de 130 obras, é uma coleção fechada, doada por Assis Chateaubriand. Então não sofre modificações, não recebe novas aquisições. Apenas 22% das obras são de mulheres, e isso diz muito sobre aquele período da arte, quando começa a existir abertura para mulheres, mas não muito. Já o MASP, quando as Guerrilla Girls chegaram, tinha 9% de obras femininas, agora são 16 ou 18%”, compara. O índice deve aumentar ainda em 2019, ano em que o MASP decidiu priorizar a reflexão sobre gênero. “É um grande momento de visibilidade de artistas que foram silenciadas na história: ano passado, tivemos a exposição Mulheres Radicais na Pinacoteca de São Paulo; no ano que vem, a Bienal do Mercosul vai tratar de emancipação feminina”, comemora.

Dos quatro acervos, o da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo é o que apresenta maior percentual de obras de autoras, mas ainda assim o índice é quase 20% inferior ao de autores. Os gráficos abaixo são resultado da pesquisa. Esses dados e outras informações estão disponíveis no site do projeto.

Pinacoteca Barão de Santo Ângelo
Museu de Arte do Rio Grande do Sul
Pinacoteca Aldo Locatelli
Pinacoteca Ruben Berta

Pesquisa

Embora tenha iniciado no Instituto de Artes, onde as pesquisadoras estudam, e conte com a colaboração de professoras, o trabalho é independente. Segundo Cristina, existe a possibilidade de estabelecê-lo como projeto de extensão, mas a ideia está sendo pensada com cuidado. “Estamos ainda em fase embrionária. Temos professoras apoiando o projeto, mas as consideramos ‘conselheiras’, não orientadoras, porque a ideia surgiu de um movimento de nós quatro, não foi como se alguém tivesse tido a ideia, olhado para a gente e dito: ‘Vamos executar’. Achamos importante que não exista hierarquia, que não haja alguém encabeçando o projeto. Fugimos desses títulos para deixar claro que é um processo horizontal, mas que está aberto para conversar com outras pesquisas e artistas”, reflete.

Os resultados obtidos pela pesquisa serão publicados, ainda em formato a ser decidido, e há planejamento de exposições de arte para divulgar o trabalho, com participação de pesquisadoras e artistas convidadas. Além disso, há diversas possibilidades de desdobramentos para a pesquisa. “Que há menos obras de mulheres que de homens é óbvio. Mas quando decidimos quantificar para ter dados, isso fortalece a argumentação. No meio disso, encontramos outras questões mais específicas, como: de onde vêm essas mulheres?; de que geração são?; Tarsila (do Amaral) e Anita Malfatti, artistas mais conhecidas e que estão nos acervos, aparecem meio que ‘voando’ na história da arte. Não havia outras artistas mulheres antes no Brasil? Que mídia usavam? Faziam uma arte feminina? Aliás, existe uma arte que se possa dizer feminina?”, conclui Cristina.

Emerson Trindade Acosta

Estudante de Jornalismo da UFRGS