Artistas refletem sobre a transversalidade nas artes da cena, tema do próximo Unimúsica

Cultura | Provocados pelo tema “Música da presença”, disparador da 40.ª edição do Unimúsica, que começa no próximo dia 27, artistas com trajetórias diversas compartilham suas perspectivas sobre o significado de ser “multilinguagens” hoje 

*Foto: AtoPerene_por Clarissa Lambert

Como as linguagens artísticas se contaminam e conversam entre si nas artes da cena é a pergunta-proposição da próxima edição do Unimúsica. No ano em que o projeto celebra seus 40 anos de existência, o tema da transversalidade entre as artes ocupa lugar central na cena. Pela segunda vez acontecendo online, o festival “Uni 40: música da presença” ocorre entre os dias 27 de setembro e 8 de outubro de 2021 nas plataformas do Departamento de Difusão Cultural da UFRGS. A programação se desdobra em quatro eixos, incluindo dez espetáculos virtuais com artistas de diferentes partes do Brasil, ciclo de conversas, Mostra Discente e série de podcasts.

Instigados pelo que significa e por como se expressa a transversalidade nas artes da cena hoje, conversamos com seis artistas sobre suas vivências no cruzamento de linguagens. 

Cláudia Nwabasili e Roges Doglas: “As artes como mecanismos vivos” 

Quando um músico está junto a um bailarino, é a música que é feita para a dança ou a dança para a música? Quem começa? Quem inspira quem? Movidos por essas provocações, os bailarinos e coreógrafos Cláudia Nwabasili e Roges Doglas decidiram reunir os que fazem música e dança em um mesmo espaço. A dupla, fundadora da companhia Pé no Mundo, sediada em São Paulo, que tem sua pesquisa toda fundamentada nas manifestações das culturas brasileiras e afro-brasileiras, é uma das convidadas da programação do 40.º Unimúsica.  

Instigados pelas relações simbióticas que as linguagens podem estabelecer entre si, os artistas criaram o espetáculo Arquivo Negro – Passos Largos em Caminhos Estreitos, baseado em histórias de personalidades negras que se destacaram e influenciaram a cultura nacional. Construído com a participação próxima dos músicos, que iam para a sala de ensaio e compunham ao vivo a trilha, Arquivo foi o abre-caminhos para as pesquisas que a companhia segue desenvolvendo desde então. 

Já durante a pandemia, lançaram Traduções simultâneas: corpo, música e pensamento complexo, uma pesquisa-projeto que se desdobrou em uma websérie de oito episódios. A websérie levou para a casa do público momentos de criação artística ao vivo propostos e instigados por Cláudia e Roges. Junto à direção estão outros seis bailarinos negros, seis músicos negros e seis críticos de artes e/ou artistas-comentaristas, a fim de interagirem e proporem suas traduções simultâneas entre as linguagens: dança, música e fala (oral, gestual ou escrita).

“Não era como se nós estivéssemos dançando para os músicos, ou eles tocando para nós. Em determinados momentos, acontecia um terceiro lugar – que não era mais um propondo, outro respondendo. As coisas começavam a acontecer simultaneamente, e a gente não sabia mais a origem daquele experimento”

Cláudia Nwabasili

A transversalidade entre as áreas é central para a companhia desde sua criação em 2011. Ela nasceu da vontade de expandir as referências tradicionais da dança – que, em geral, trazem uma base eurocêntrica, do ballet clássico e da dança moderna estadunidense.

Claudia, filha de uma brasileira e de um africano, e Roges, vindo da Bahia, tinham em si um repertório sobre o corpo-que-dança e que ia para além dessas técnicas. “Chegou o momento em que a gente sentiu a necessidade de olhar para os nossos corpos como não compartimentados, mas como seres integrais que somos”, explica Cláudia. “Se pensarmos em nossa ancestralidade tanto negra quanto indígena, entendemos que nada é separável. Em nós habita o corpo físico, o espiritual, o racional, e tudo isso está junto o tempo todo. A gente entende as artes como um mecanismo vivo.”

Roges lembra nossa dificuldade em visualizar essa simbiose entre essas linguagens. “Temos esse hábito de não compartilhar o ambiente de um com o do outro na produção artística, e quando se faz chamamos isso de ‘musical’”, explica. “Acredito que somos artistas fazendo, independentemente da linguagem. Eu me entendo a partir da dança, mas eu componho uma obra artística que é vida. Pode ser no audiovisual, na cena.” 

Quando se depararam com a impossibilidade do encontro, imposta pela pandemia, os artistas se viram um pouco resistentes a entrar na dinâmica das lives e das produções para a internet. “A gente precisava encontrar sentido nesse novo fazer”, conta Cláudia. O sentido, porém, acabou vindo também pela necessidade de manutenção do trabalho. 

A entrada mais intensa do audiovisual nas produções da Pé no Mundo abriram um outro campo de pesquisa importante para o grupo: como o lugar das tradições e da cultura, tão fortemente presente em seus trabalhos, pode ser assumido a partir da tecnologia? Audiovisual passa a ser não só um registro, mas uma camada importante que não os desloca da proximidade ancestral, mas que vem para fortalecer e disseminar no público o interesse e a necessidade de reconhecer as manifestações populares como partes da contemporaneidade.  

A Cia Pé no Mundo apresenta o espetáculo Ato Perene, um desdobramento de Traduções Simultâneas desenvolvido para o Unimúsica, no dia 29 de setembro, nos canais do DDC-Ufrgs. A apresentação conta com a participação do músico Neném Menezes, convocando o trânsito de linguagens e louvando o processo como obra.

Na imagem de capa e acima, Cláudia Nwabasili e Roges Doglas, bailarinos e diretores da Companhia Pé No Mundo, apresentam o espetáculo “Ato Perene: o processo como Obra” ao lado do músico Neném Menezes no dia 29 de setembro, durante o Uni40: Música da presença (Foto: AtoPerene_por Clarissa Lambert)
Lipsen: “Tem lugares do mundo em que não existe uma palavra diferente para dança e música” 

A cena acontece em roda. Encantados e intrigados pelo som de um gaiteiro tocando no parque da Redenção, os transeuntes param aos poucos para ouvir Lady Gaga vindo de um acordeão. Quem o toca é um músico conhecido pelo sorriso e pela alegria que desmontam os corpos indiferentes de quem tem pressa e que diz não poder parar para assistir à arte na rua. Lipsen, “o gaiteiro do brique”, é multiartista em Porto Alegre. Formado em Teatro pela UFRGS e doutorando na Universidade, o ator levou um tempo para construir esse número de rua pelo qual é conhecido por porto-alegrenses. 

Demorou porque nas primeiras tentativas de levar o acordeão para a rua, ele conta, “encasulava”. Fechava os olhos e tocava, concentrado no som. Até que, durante uma viagem, começou a abrir o olhar, tocar para fora, encarar as pessoas e interagir com elas. Depois, na volta a Porto Alegre, escolheu o Brique como lugar de experimentação. “O Brique me deu a receita do que eu tinha que fazer. Fui para a rua, fechei uma roda e ali começou a virar um número”, conta. “Ali passou a ter teatro. Não era mais um músico fechado no casulo, tocando, em que o som era o que importava. O que importava passou a ser meu olho, a brincadeira, a presença.”

A ideia de copresença, de dividir um aqui-agora, ganhou protagonismo. O artista percebeu também que, enquanto ator, muitos recursos estavam disponíveis em seu corpo para construir aquela apresentação: o senso de narrativa, “a chegança” (como o espetáculo começa), as formas de manter o público engajado e atento, o estudo das máscaras e do clown. Borrava-se ali “o Lipsen-ator”, “o Lipsen-músico”. Vive ali um artista transversal, que trabalha justamente na conversa entre as artes e linguagens.

“A gente tem uma Arte que se chama música, uma Arte que se chama teatro, uma Arte que se chama dança. Mas tem lugares do mundo em que não existe uma palavra diferente para dança e música. Porque, quando tu faz dança, tu te mexe. Não tem nome diferente para teatro e dança, porque tudo é cena” 

Lipsen

Quando se fala em transversalidade, um passo para trás é dado na divisão cultural que as palavras das artes criaram. O corpo em cena passa também a assumir uma proximidade maior com o que é da ordem do cotidiano das pessoas. 

Lipsen é ator, músico e multiartista. Recentemente lançou seu primeiro clipe autoral, “Ninguém” (Foto:  Philipe Philippsen – crédito Inez Gelatti)
Rui Moreira: “A transversalidade é ancestral”

O bailarino e coreógrafo Rui Moreira estava no Senegal para uma residência artística quando, durante uma das atividades do programa, foi ao encontro de um Baobá – árvore com o tronco de maior diâmetro do mundo. Foram necessários outros quinze artistas para que, juntos, pudessem dar a volta na árvore. A orientadora do exercício dizia ao grupo: “Escutem o som do Baobá”. Naquele instante, Rui percebeu que esse era um gesto ancestral. “A proposta nos fez refletir sobre quantos antes de nós escutaram esse mesmo som”, explica. 

A imagem dessa memória conversa com o que Rui entende por transversalidade nas artes da cena. Os sons, a música, as danças e os corpos estão ligados à vida de forma indissociável. A “música da presença” – temática trazida pelo Unimúsica neste ano – não fala apenas sobre estarmos juntos, enquanto público e artistas. Provoca também os diálogos que estabelecemos com outras presenças que nos cercam.

Rui, artista da dança com trajetória em importantes elencos nacionais e internacionais, é um dos curadores da 40.ª edição e explica que a ideia da transversalidade vem como um convite aos artistas para que se permitam ser afetados pelas diferentes linguagens. “Transverso é esse ato do perpassar – mas não no sentido de não afetar. Transverso é quando acontece algo que perpassa, mas que afeta e transforma pelo afeto – que às vezes é um conflito, confronto”, explica.

Para se dançar, em muitas expressões tradicionais, vemos as pessoas produzindo as próprias sonoridades. Cantam, batem palmas, batem os pés no chão. Isso é, para o coreógrafo, transversal – e ancestral – por natureza. 

“A ancestralidade é materialidade dos corpos. O meu corpo dançante, que se expressa pela dança, teve início muito antes dos tempos que a gente pode contar. Essa transversalidade de linguagens vem desse tempo. A transversalidade é ancestral”

Rui Moreira
Rui Moreira integra a equipe curatorial do Uni40. Artista da dança, Rui é ativista pelo direito de fruição e amplitude social das artes (Foto: RUI POR RUI/Arquivo Pessoal)
Paola Barreto LeBlanc: “Impossível pensar artes como um campo que está sozinho e isolado” 

Talvez nas imagens mais clássicas de se estudar artes na Universidade esteja a ideia do prédio de “belas artes” – onde estão e estudam os artistas. Mas e se esse lugar fosse outro? E se esse lugar estivesse junto às áreas de ciências e humanidades? O sonho da interdisciplinaridade ganhou corpo em 2010 na Universidade Federal da Bahia, quando foi criado o “BI” – como é carinhosamente chamado o Bacharelado Interdisciplinar em Artes. 

Com uma estrutura curricular aberta, em que o estudante pode construir o percurso em diálogo com outras áreas do conhecimento, o curso fica fora do prédio “das artes” e é situado no Instituto Milton Santos de Artes, Ciências e Humanidades. O curso assume o entrelaçamento dos campos, explica a professora Paola Barreto LeBlanc. “Muitas vezes, quando pensamos transdisciplinaridade, tendemos a pensar apenas no trânsito de linguagem entre as artes”, pontua. Por isso, o transdisciplinar do BI é “nas” e “das” artes. 

A professora explica que os diálogos acontecem com colegas da física, da química, da música para que pensem juntos a produção de conhecimento, tendo a arte como um eixo e buscando as reverberações em outros saberes. Apesar de ter “interdisciplinar” no nome, Paola explica que não é algo que está dado. Pelo contrário: muito movimento constante é necessário (reuniões, conversas, trocas entre as áreas) para entender se estão, de fato, trabalhando no lugar do transdisciplinar. “Enquanto professores, nossas formações, trajetórias, matrizes curriculares tendem todas à especialização. Então, o transversal não é dado. Precisamos estar sempre lutando para que aconteça.” 

Graduada em Cinema pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com doutorado na Linha de Pesquisa Poéticas Interdisciplinares pela UFRJ, Paola é uma artista-educadora. Entende que essa costura, esse diálogo entre as linguagens e diferentes maneiras de produzir conhecimento é uma urgência do nosso tempo. Na época em que as escolas de belas artes foram fundadas, podia-se dividir escultura, pintura, música, dança, teatro; hoje, cada vez mais, ela pontua, a gente tem formas de arte que não têm nem nome. “Tem arte conceitual, relacional, processual, proposições entre arte-vida, arte como pesquisa, apresentação de caderno de artista.”

“Vejo como uma impossibilidade nossa, contemporânea mesmo, de categorizar os campos da arte, de dizer que tipos de arte há. É interdisciplinar entre o quê? A gente está fazendo coisas que não têm nome, que estão atravessadas por nossas urgências do agora”

Paola Barreto LeBlanc

A pesquisadora lembra do conceito do “artista-etc”, proposto por Ricardo Basbaum, quando o artista questiona a natureza e a função de seu papel como artista – uma expansão da ideia de ‘artista-multimídia’ que emergiu nos anos 1970. Para Paola, a urgência de se pensar e exercitar, cada vez mais, o transversal dentro das artes parte de uma reivindicação de sujeitos e grupos que foram historicamente inviabilizados no campo e que chegam com força e potência para questionar esse sistema. “Como artista e educadora, eu vejo que estamos em um momento em que é impossível pensar as artes com algo que está sozinho, isolado no ateliê do artista. A gente está no mundo, disputando imaginários, produzindo visões de mundo”, sintetiza. 

Gabriel Faryas: “Trânsito de linguagens é desejo de brincar”

“O corpo que transita é o corpo que vive”, acredita Gabriel Faryas. “Atroz”- como se nomeia -, performer, educador, Gabriel estuda Teatro na UFRGS e enxerga na transversalidade das artes uma possibilidade de ir ao encontro do que deseja comunicar – seja por meio de uma instalação, de uma peça de teatro só com corpo e luz, de um texto dramático ou de uma poesia.   

“Vejo no trânsito de linguagens o desejo de brincar, algo da infância. De fazer perguntas para si mesmo diante do mundo, fazendo do mundo um lugar laboratorial. Tu vai transitando e lidando com o que tem: às vezes uma tela, às vezes um estúdio, às vezes um espelho achado na rua” 

Gabriel Faryas

Entre os projetos propostos por Gabriel está o Laboratório escutas do corpo: sonhos, memórias e território, criado em colaboração com Carolina Kneipp. A ideia foi produzir encontros, durante cinco semanas, em que os participantes pudessem se experimentar nas linguagens em que se sentissem à vontade. A proposta não era converter o gesto em obra ou trabalho, mas entender o próprio processo e ato de fazer-se disponível ao que afeta, ao que faz vibrar o corpo a cada momento. Em agosto, o laboratório foi indicado ao Prêmio Açorianos na categoria de artes visuais – a materialização de uma transversalidade. 

“Cada vez mais faz menos sentido dizer: ‘Eu sou do teatro’. Vejo ele como um trampolim”, explica. O artista também se vê nesse trânsito de linguagens junto ao Espiralar-Encruza, coletivo que cocria com outros “atrozes” da UFRGS.

Uma indagação que Gabriel traz para o centro da reflexão sobre o artista híbrido e as multilinguagens é sobre como ele é amparado para criar. Incide na discussão da transversalidade o debate sobre a precarização do trabalho do artista. Como ela, ele, elu é remunerado por esse ser e fazer múltiplo? O que é demandado do artista e o que é a ele oferecido? “Esse transitar pelo mundo usando o que se tem é o próprio instinto de estar vivo, estar se comunicando, apesar da e com a precariedade. É um impulso que o precário te obriga [a lançar mão] para tu não afundar, pra que tu siga em movimento”, aponta Gabriel. 

Olhar para o transversal é também perceber o disciplinar, o fragmentado que constitui e está nas formações e expressões artísticas. Para o artista, o exercício de borrar e de transitar, desmontando a educação com base eurocêntrica, parte da vontade do corpo de acessar – não resgatar – outras ancestralidades. “Olhar para a historicidade colonial em que a gente viveu um exercício de colonização do corpo de um Deus que não dança. O Deus mais acreditado na sociedade ocidental, cristã, evangélica, não dança.”

“As sociedades não ocidentais engajam tudo. Sonho com a vida, a terra consigo, Deus com o mar. Iemanjá é o próprio mar. Dividir não faz sentido. Somos artistas em 2021. Tem aí nas costas pelo menos 500 anos de colonização, e a gente é fruto disso. Estamos indo na contramão da colonização, acessando essa dimensão holística, não fragmentada das potencialidades do corpo. E arte é isto: potência.”