Avanço da variante ômicron provoca adiamento do retorno presencial na UFRGS

Pandemia | Universidade se preparava para o retorno presencial restrito a partir desta segunda-feira, 17, mas aumento do número de casos de covid-19 adiou o retorno para 7 de fevereiro. Professores que tinham previsto atividades presenciais seguirão, agora, planejamento alternativo

*Foto: Flávio Dutra/JU

Estava tudo organizado para a UFRGS retomar as atividades presenciais nesta semana, mas o recrudescimento da pandemia no estado fez a Universidade colocar o pé no freio: uma portaria publicada na terça-feira, 11, adiou pelo menos até 7 de fevereiro o retorno presencial. Dessa forma, os professores que ministram disciplinas previstas para retornar aos espaços da Universidade tiveram que alterar seus cronogramas e seguir em formato remoto por mais um tempo. O Vestibular, por outro lado, segue confirmado para os dias 12 e 13 de fevereiro.

Desde outubro, quando o Comitê Responsável pelo Plano de Contingenciamento Frente ao Risco de Disseminação do Novo Coronavírus – conhecido como Comitê Covid UFRGS – divulgou as diretrizes que deveriam guiar a volta gradual ao presencial, professores, coordenadores de curso e diretores de Unidades planejavam maneiras de se adaptar à nova realidade. Até o início do mês, o clima com o retorno era de esperança, mas rapidamente a nova realidade se impôs. Segundo Leandro Raizer, vice-pró-reitor de Graduação da UFRGS, este adiamento não deve causar grandes transtornos para os professores, já que apenas 40% das disciplinas previam algum tipo de atividade presencial. Além disso, a orientação da Prograd aos professores, em outubro, foi de que os docentes já elaborassem um planejamento alternativo em caso de inviabilidade do formato semipresencial.

O adiamento também afetou o funcionamento dos Restaurantes Universitários. A Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae) informou que, devido à portaria, a reabertura dos Restaurantes está adiada até 7 de fevereiro. O único restaurante que reabrirá é o RU2, do Campus Saúde, em razão dos cursos da Saúde que estão com atividades presenciais desde 2021.

Para a edição especial de retorno, o JU preparava uma reportagem contando um pouco da experiência de professores com o planejamento e a expectativa para o formato semipresencial. Com a notícia do adiamento, voltamos a falar com alguns deles para entender como a decisão impactou suas programações.

Uma das áreas bastante prejudicada pelo ensino remoto é a dos cursos que demandam atividades em campo ou em laboratório. O professor do Instituto de Biociências Gerhard Overbeck relata que a possibilidade de atividades presenciais alegrava a comunidade, porque a adaptação para o remoto foi bastante complicada. 

“A botânica vive de atividades práticas. Não em todas as disciplinas mas em muitas. Então a gente tentou da melhor maneira possível desenvolver atividades que podem ser administradas de forma remota. Essas atividades fornecem ao aluno um conhecimento das estruturas das plantas, mas a gente sabe que isso é limitado.”

Gerhard Overbeck

O adiamento do retorno presencial, segundo ele, é um obstáculo, mas já era esperado para quem acompanhava o comportamento da ômicron em outros países. Ele conta que seu planejamento já incluía a possibilidade de um recrudescimento da pandemia e a necessidade de voltarem a ter aulas exclusivamente virtuais. “É um desafio para todos [retornar ao ensino remoto], mas vamos lá”, diz Gerhard.

Flavia do Valle, professora de Análise do Movimento 2, cadeira do curso de Dança, também estava ansiosa para o retorno presencial. As demonstrações e a realização dos exercícios pelos alunos têm um peso muito grande em sua disciplina. Nos semestres anteriores, ela improvisou com o uso de vídeos seus e dos estudantes. Esse formato, porém, explicou ela antes do adiamento, prejudicou muito a experiência dos alunos. “Muitos vídeos vinham num pequeno espaço entre a cama e o armário, então os movimentos ficavam mais restritos e com menos qualidade pela questão espacial”.

Neste semestre, seu planejamento incluía uma divisão da turma em dois grupos, que se revezariam nas atividades presenciais. Mas o plano também levava em consideração as condições sanitárias para a volta. “Vamos monitorando como está a pandemia, o que está dando certo, e o que não está dando certo”, afirmou. Infelizmente, o retorno esperado terá que aguardar mais um pouco, pelo menos.

Sentindo o invisível

O epidemiologista e professor do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da UFRGS Ricardo Kuchenbecker já alertava sobre o pouco que se sabia a respeito da proteção que as vacinas ofereceriam contra a variante ômicron e a insegurança em relação aos planos da Universidade. “A grande dificuldade da ômicron é ela passando a ser a variante dominante. A gente pode ver um aumento muito grande de infecções, que, mesmo que sejam menos graves, proporcionalmente também vão representar alguma sobrecarga para o sistema de saúde e para as internações”, afirmou. O aumento desmedido de casos foi o que levou o Comitê Covid a acender um sinal e recomendar o adiamento do retorno.

Um dos motivos para a demora em se perceber o que de fato estava ocorrendo com a pandemia foi a ausência de dados do Ministério da Saúde. Desde os ataques cibernéticos ao ministério ocorridos em dezembro, o tamanho real da nova onda de infecções permaneceu um mistério. Isso em um momento crítico da evolução da doença, com uma nova variante mais transmissível circulando e num período de festas de fim de ano.

A impressão que se tinha de que os casos estariam aumentando só pôde ser confirmada dias depois. Foram a subida na procura por testes de covid e a alta taxa de positividade no começo de janeiro que acenderam um alerta na comunidade acadêmica. “A gente passou a sentir o que o apagão não nos deixava ver”, sintetizou o vice-pró-reitor de Graduação da UFRGS. Para se ter uma dimensão do aumento: o número de casos de covid-19 nas duas primeiras semanas de janeiro já é maior que a soma dos casos dos três últimos meses de 2021, segundo dados da Secretaria Estadual da Saúde divulgados na última sexta-feira, 14. Outubro, novembro e dezembro de 2021 somaram 61.967 casos de covid-19, enquanto as duas primeiras semanas de janeiro registraram 74.295 casos confirmados.

Leandro também relata que a Universidade observava a situação da pandemia em outros países e imaginava uma suspensão das atividades presenciais. “Só não esperava que seria antes do semestre começar”, afirma.  Os relatos vindos do Instituto de Ciências Básicas da Saúde (ICBS) da UFRGS – centro de testagem, sequenciamento e genotipagem que faz a detecção do vírus para diversos laboratórios públicos e privados do estado – já davam uma dimensão do problema. “O Instituto viu a taxa de positividade crescer e chegar 30% [dos 500 testes diários que o ICBS realiza]”, afirma o vice-pró-reitor.

Medidas sanitárias

Apesar da alteração na data, o Comitê Covid UFRGS manteve as outras orientações a respeito das medidas sanitárias. Marilia Hackmann, superintendente de Gestão de Pessoas e presidente do Comitê, afirma que, por enquanto, “as orientações [do Comitê] sobre as medidas de proteção não mudam em nada”. Antes do adiamento, ela resumiu as orientações em cinco pontos: uso de máscara, distanciamento, ventilação das salas, higiene pessoal e passaporte sanitário. 

A questão do passaporte vacinal acompanhou todo o planejamento, mas segue indefinida. Nas diretrizes publicadas em outubro, o Comitê Covid recomendou a exigência do comprovante de vacinação como condicionante para os alunos participarem de atividades presenciais. Contudo, apoiado num parecer da Consultoria Jurídica junto ao Ministério da Educação, órgão vinculado à Advocacia-Geral da União, o Ministério da Educação (MEC) publicou um despacho em 29 de dezembro, afirmando que a exigência do passaporte só pode ser estabelecida por lei federal. No dia 31, porém, o ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski suspendeu a medida do MEC. Dessa forma, até o julgamento pelos outros ministros, que podem manter ou derrubar a liminar de Lewandowski, cada universidade tem a discricionariedade para decidir sobre a adoção da medida.

A portaria de adiamento do retorno editada pela Reitoria da UFRGS manteve, no entanto, a posição de que a exigência não poderia ser implementada. Até o momento, o entendimento na Universidade é de que cabe a cada Unidade e a cada professor a decisão de exigir, ou não, a medida para as suas aulas. De qualquer forma, até que o retorno presencial se efetive, ainda pode haver atualizações no tema.

Apesar de ser fortemente favorável ao passaporte, Pedro Ivo, médico do trabalho da Divisão de Segurança e Medicina do Trabalho do Departamento de Atenção à Saúde (DAS-UFRGS), sugere que a expressiva cobertura vacinal atual possa reduzir a centralidade da medida. “Eu acredito que o passaporte vacinal seja uma grande medida no esforço de proteção da sociedade e da comunidade acadêmica. Porém nós estamos chegando num grau de cobertura vacinal em que isso tem deixado de ser tão decisivo. O que eu posso falar é que decisivo hoje é que as pessoas mantenham as medidas de proteção, de uso de máscara, de distanciamento”, afirma.