Brenda dos Santos: aulas presenciais e amigos

Câmpus Saúde | Estudante de Odontologia descreve a falta que sente da convivência com os colegas e da dinâmica em sala de aula

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

“Sinto falta de ter um professor dando aula na minha frente, ver as pessoas passando no corredor carregando os seus materiais e de poder ter a rotina da faculdade. No ERE é bem diferente”, comenta Brenda dos Santos, aluna do 4.º semestre de Odontologia da UFRGS.

Para ela, que passa a maior parte do tempo em seu quarto assistindo às aulas, ainda é estranho estudar no mesmo ambiente em que dorme, ainda assim se orgulha de estar bem organizada entre um trabalho e outro. Com a rotina modificada, a estudante tem conseguido reservar os fins de semanas para o descanso, diferente de antes, quando sempre acabava ficando com algumas tarefas para esses dias.

“Antes aquele ‘peso’ do trabalho ficava no ambiente da faculdade; agora que acontece tudo no mesmo lugar, é um pouco diferente”

Brenda dos Santos

Entre as principais dificuldades encontradas durante o isolamento social está a falta da dinâmica da sala de aula. “Lá é só a gente fazer uma expressão mais estranha e, mesmo sem perguntarmos, o professor já percebe que não entendemos algo. Essa dinâmica foi um pouco prejudicada para mim”, explica.

A estudante ressalta a importância dos amigos de curso durante esse período: “No meu grupo de amizade cada um mora numa cidade. Sempre estivemos longe uns dos outros, então sempre é complicado reunir todo mundo. A gente vem conseguindo contornar muito bem a saudade através das redes sociais”.

Vivência e desafios na Universidade

Durante boa parte de sua vida, Brenda teve vontade de cursar Direito e, segundo ela, embora sempre tenha gostado de Odontologia, não teve um motivo tão especial para seguir na profissão. A estudante ingressou no curso no primeiro semestre de 2018. No vestibular conquistou uma das vagas para os candidatos egressos de escola pública e autodeclarados pretos, pardos ou indígenas.

Sobre as questões de raça, Brenda considera importante o debate dentro do seu curso e na UFRGS em geral. Ela relembra que o seu primeiro contato com alunos da Universidade foi com amigos de sua irmã Aretha que faziam parte do Coletivo Dandara – uma frente militante de negros e negras que luta pela construção de uma sociedade com igualdade e justiça. “Fiquei um pouco mal-acostumada porque muitos amigos dela eram negros e acabei achando que era um pouco mais comum [a presença de negros] dentro da UFRGS”, conta ela, que logo nos primeiros dias de Universidade percebeu a ausência de colegas negros no curso. “A Odontologia é muito conhecida por haver muitas pessoas brancas. Os alunos negros na odonto são muito engajados nas questões do curso e da universidade, mas ainda não estamos em grande número”, explica.

A dificuldade de encontrar seus iguais e de fazer amigos no início foi o motivo que a levou a cogitar trocar de curso durante o segundo semestre. Foi então que conheceu alguns amigos na odonto e os dias passaram a ser melhores. Com isso, ela decidiu se matricular no terceiro semestre. “Me apaixonei de novo pelo curso”, afirma. Aliás, ela considera como um dos seus melhores momentos na Universidade essa época em que conheceu os amigos com os quais passou a conviver mais tempo durante as aulas e nos intervalos, quando, às vezes, faziam o trajeto juntos do Câmpus Saúde para o Câmpus Centro. Quando questionada sobre o seu lugar favorito na UFRGS, a convivência com os amigos foi crucial para a escolha: um local cheio de árvores com alguns bancos no entorno da Faculdade de Medicina, próximo à Faculdade de Odontologia. “Ali é um espaço ótimo, é meu lugar favorito. Eu e os meus amigos ficamos ali conversando, estudando e rindo”, explica.

“Tenho amigos incríveis, que fazem minha temporada na UFRGS muito mais tranquila e leve”

Brenda dos Santos

Outro evento marcante foi quando assistiu a uma palestra e conheceu duas profissionais negras da Odontologia. “Foi um dos melhores momentos da faculdade; consegui me ver dentro do curso que eu faço”, ressalta. Ela também guarda com muito carinho uma conversa que teve com uma tia na época em que pensava em desistir do curso. Segundo Brenda, o diálogo a fez sentir o peso de sua responsabilidade: ser uma mulher negra na Odontologia.

Entre um semestre e outro, ela aguarda ansiosa pela volta das aulas práticas no Hospital de Ensino Odontológico. Após o retorno presencial, ainda sem data prevista, espera ter um contato mais próximo com projetos de extensão e iniciação científica, além de reencontrar os amigos de outros cursos.


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto do JU e da UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: