Bugre Lucena promove inclusão por meio do esporte

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Inclusão | Projeto de artes marciais da ESEFID tem turmas inclusivas para pessoas com deficiência

A imagem mostra duas pessoas em pé à frente de um fundo azul. A judoca Thais Furtado sorri enquanto segura, em direção à câmera, sua medalha de ouro do Grand Prix de Judô. Com a outra mão, segura a faixa roxa de seu quimono. À sua esquerda, o sensei Gustavo Schumacher sorri e aponta para a judoca, enquanto a abraça com o outro braço.
Thais Furtado e Gustavo Schumacher (Foto: Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais- CBDV/ Divulgação)

“É como se fosse uma dança”. É assim que a atleta Bruna Domingos descreve a sensação de lutar judô sem enxergar. “A gente vai acompanhando o movimento que o adversário usa para nos controlar, então a gente vai ver se aquilo tá a nosso favor ou não.” A atleta cega é faixa amarela no judô e treina no projeto Bugre Lucena, atividade de extensão da UFRGS que oferece aulas de artes marciais à comunidade e conta com uma turma inclusiva para pessoas com deficiência.

O Bugre Lucena foi criado em 1991 pelo professor Alexandre Nunes para oferecer aulas de artes marciais às crianças da rede pública estadual. A partir de 2005, os professores viram a possibilidade de abrir uma turma para pessoas com deficiências visuais, inicialmente em parceria com o Instituto Luiz Braille. A primeira turma tinha quatro alunos, que treinavam separados do restante dos atletas. 

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Com o tempo, os professores perceberam que a inclusão era fundamental para melhorar a qualidade do treino e unificaram as turmas. Hoje, todos os alunos lutam de igual para igual. Para Bruna, a inclusão no esporte foi transformadora: “[O judô] me deu oportunidade de poder me misturar com o pessoal que enxerga”.

O sensei Gustavo Schumacher, responsável pela equipe de atletas com deficiência e voluntário do projeto há 15 anos, faz adaptações nas aulas para incluir pessoas com deficiência – “A gente se acostuma a fazer uma audiodescrição da aula”. Para os alunos com deficiência auditiva, também atendidos pelo projeto, ele indica os movimentos através de demonstrações e de correções individuais. Mas Gustavo não é o único que atende esses alunos: “À medida que eles vão se conhecendo, os próprios colegas vão ajudando”, relata.

“[Com] essa necessidade de estar sempre pensando em como corrigir, como trabalhar, a gente vai sempre aprendendo.”

Gustavo Schumacher
A imagem mostra um grupo de homens e mulheres usando quimonos de judô, com faixas de diferentes cores. O grupo está enfileirado em pé sobre o tatame de um ginásio. Ao fundo, há prateleiras com vários troféus, dois quadros com símbolos de letras orientais e o retrato de um homem entre eles. Em uma placa grande está escrito "Núcleo de Esporte de Base - Ginástica Olímpica" e, abaixo, "Ministério do Esporte". Também há o logo da UFRGS e o da ESEF.
Equipe Bugre Lucena (Foto: Julia Provenzi/ JU)

Na prática, o judô paralímpico não é diferente da modalidade original, o que permite que pessoas com e sem deficiência lutem juntas. “A única diferença é o início da luta, que a gente já começa com a pegada no paralímpico, e não se disputa a pegada como habitualmente. Mas o treino é normal. O que eles fazem, a gente faz também”, conta Thais Furtado Gonçalves, atleta paralímpica de faixa roxa do Bugre Lucena. A “pegada” consiste em segurar o quimono do adversário pela gola e pela manga. No judô paralímpico, o contato constante é fundamental para que os atletas consigam sentir os movimentos do oponente.

Sincronia do movimento

Bruna e Thais começaram no esporte após o processo de perda da visão. Para elas, sincronizar os movimentos com os do adversário e ter noção de tempo são aspectos fundamentais na hora da luta. Para deduzir o que o adversário vai fazer em seguida é necessário ter pensamento rápido. 

Conhecer o adversário facilita no esforço de Thais de controlar o nervosismo de não saber o que vem em seguida. Para isso, ela e Bruna costumam treinar juntas.

“A diferença entre quem enxerga e quem não enxerga é só a agilidade mesmo, porque, numa luta paralímpica entre dois cegos, é difícil para os dois.”

Thais Furtado Gonçalves

Depois de pegar a prática, os deficientes visuais conseguem lutar também contra pessoas que enxergam. A ausência de visão, às vezes, pode inclusive ser uma vantagem, como relata Bruna: “De vez em quando, de tanto que eles cuidam, acabam caindo pra nós. Porque se distraem. A gente aproveita o que eles não estão cuidando. Como a gente faz isso? Não tem explicação. A gente só sabe.”

Entretanto, isso não reduz as dificuldades de aprender a lutar sem usar um dos sentidos, principalmente no início. “Um deficiente visual passa o tempo inteiro cuidando para não se bater nas coisas na rua, para não tropeçar, cair, se machucar. E uma das primeiras coisas que a gente aprende no judô é a cair. Esse processo de cair pra eles [os atletas cegos], no começo, é muito difícil”, destaca o professor Gustavo.

O aprendizado do esporte se estende para outras áreas de suas vidas, sobretudo reduzindo a insegurança que elas sentem em alguns espaços. Segundo Thais, “o judô proporciona isto: noção de espaço e confiança em nós mesmos”.

Parceria com a ACERGS

Em 2009, o projeto firmou uma parceria com a Associação de Cegos do Rio Grande do Sul (ACERGS) e montou uma equipe para competir em campeonatos nacionais. Desde então, a ACERGS/UFRGS  é a única equipe de judô paralímpico do estado vinculada à Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais e uma das únicas a ter participado de todas as competições nacionais, ao lado da equipe do Instuto Benjamin Constant, do Rio de Janeiro. Segundo o professor Gustavo, dos 30 judocas gaúchos que participaram de campeonatos nacionais, ao menos 27 estavam vinculados ao Bugre Lucena. Nos últimos quatro anos, a equipe contabilizou mais de 70 medalhas.

Gustavo enfatiza que é um dever dos profissionais de educação física promover esporte de qualidade para todos – para isso, devem estar prontos para atender pessoas com deficiência. “Todos nós temos as nossas dificuldades. Quando passamos a entender e a perceber a dificuldade do outro – para coisas simples, básicas –, começamos a refletir”, conclui.


Júlia Provenzi

Estudante de Jornalismo da UFRGS