Caminhos para a igualdade de gênero na ciência

Jessica Wade | Pesquisadora britânica enfatiza que a participação das mulheres na ciência precisa estar mais em evidência
Foto: Gustavo Diehl/Secom

Em entrevista ao JU, Jessica Wade, pesquisadora britânica do Imperial College London, aponta que a melhor forma de promover a igualdade de gênero e de suscitar a curiosidade das meninas pela ciência é investindo em professores de qualidade no ensino médio. “O que uma física faz? O que uma astrofísica faz? O que uma engenheira faz? Isso precisa estar no radar das mulheres, o que começa com professores competentes na área da física”, ressalta.

A britânica trabalha no Blackett Laboratory, onde pesquisa sobre LEDs baseados em polímeros. Além disso, é uma referência quando se trata da divulgação de cientistas mulheres por criar perfis de figuras femininas na Wikipédia. Por sua atuação, Wade conquistou os prêmios Institute of Physics’s Jocelyn Bell-Burnell Award for Women in Physics (2016), Institute of Physics Early Career Physics Communicator Prize (2015) e Julia Higgins Medal (2017). A pesquisadora também foi escolhida pela revista científica Nature como uma das dez pessoas que fizeram a diferença na ciência mundial em 2018.

Qual a importância de discutir o papel da mulher e a igualdade de gênero na ciência hoje?
Eu acho que é importante não apenas para os jovens – especialmente as mulheres – ouvirem e saberem que há pessoas como eles que têm aspirações semelhantes, mas também para que os homens, os pais, os maridos saibam que sempre existiram mulheres fazendo ciência, não é uma novidade. Não é porque não se escuta ou porque não se fala das cientistas que elas não estão fazendo ciência e outras coisas incríveis ao longo do tempo. Além disso, acredito que precisamos continuar falando em  igualdade de gênero e igualdade no gênero, pois no momento temos vários movimentos – aqui no Brasil vocês têm esses políticos e essas ideologias de extrema-direita – tentando tirar todos os grandes sucessos que obtivemos nos últimos cem anos na questão da igualdade. Precisamos manter esse debate vivo. Muitas das liberdades que conquistamos estão ameaçadas para os jovens.

Você criou vários perfis de cientistas mulheres na Wikipédia. Qual a razão dessa ação? 
A Wikipédia é acessada por todo mundo, certo? O site é usado por consumidores, por universitários, por jornalistas, etc. Mas o conteúdo que está no Wikipédia é muito enviesado, logo, se você estiver procurando mulheres ou pessoas negras, existe a chance de não encontrar perfis na Wikipédia, porque a maioria dos artigos em inglês é sobre homens brancos dos Estados Unidos. Eu acho que esse viés contra as minorias significa que menos pessoas vão saber o que elas estão produzindo. Isso significa que as crianças vão falar menos sobre os assuntos desses pesquisadores quando tiverem curiosidade sobre algo. O desconhecimento faz com que as minorias sejam menos representadas nas mídias, então não ouvimos muito sobre as suas produções. Essa é a razão.

Você já sofreu algum preconceito por ser uma mulher na ciência? 
Eu sempre estive rodeada por pessoas que me apoiam. Mas algumas mulheres, especialmente mulheres negras, com certeza sofrem com situações constrangedoras na ciência por terem escolhido esse caminho. Eu e meus colegas homens saímos, fazemos a nossa pesquisa e voltamos para casa, terminamos o trabalho. Mas algumas mulheres precisam sempre estar falando sobre isso, sobre como é representar mulheres na ciência. Parece que as mulheres precisam provar que podem estar onde estão. Essas mulheres precisam incorporar o melhor comportamento esperado delas. Isso suga a energia e as oportunidades de fazer pesquisa. Vejo mulheres darem suporte para todos ao seu redor e deixarem de encorajar seu próprio desenvolvimento. Também vejo que mulheres na universidade estão mais propensas a atuar em outras áreas do que a participarem de grandes pesquisas.

A ciência brasileira tem sofrido muitos ataques ultimamente. Na sua visão, qual o impacto disso para as próximas gerações, especialmente para as mulheres?
É terrível. Vocês estão sofrendo vários cortes na ciência. Recentemente vimos os seus políticos dizendo que os homens são melhores ou qualquer coisa do tipo.  Eu acho que isso vai fazer com que cada vez menos mulheres estejam na ciência. E, se isso acontecer, menos mulheres irão querer fazer doutorado, por exemplo, pois elas não encontrarão referências nesses lugares de destaque. Claro que não posso prever o futuro, mas acho que não investir em ciência é acabar com os avanços da pesquisa brasileira. O Brasil, por conta dos programas e do investimento que teve nos últimos anos, está mais bem representado na ciência do que era antigamente. Além disso, vemos pessoas com contextos sociais e econômicos diferentes, o que representa melhor a realidade de vocês. Cortar esses incentivos vai baixar a qualidade da pesquisa. Vocês vão voltar à posição de uns 25 anos atrás. Acho que isso é triste para o Brasil, mas também para o mundo. 


Bárbara Lima

Estudante de Jornalismo da UFRGS