Carlos Júnior Borges: colegas e debates

Câmpus Centro | Egresso de Pedagogia sente falta das conversas que aconteciam durante os intervalos e dos amigos que fez durante a sua formação na Universidade

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

Quem caminha pelo Câmpus Centro da UFRGS talvez nem imagine quantas histórias aqueles prédios guardam. Carlos Júnior Borges, o Júnior, como era conhecido na Faculdade de Educação da UFRGS (Faced), por sorte, conhece algumas delas. 

O egresso de Pedagogia tem uma relação com a UFRGS que começou antes mesmo de Júnior ingressar em Pedagogia, curso em que se formou em 2018. Afinal, foram cinco vestibulares para conquistar uma vaga em 2013. 

Dois anos depois de formado, Júnior conta que do que mais sente saudade na Universidade é das escapadas prolongadas entre as aulas.

“Muitas vezes a gente se sentava ali perto dos muros baixinhos da FACED e conversava por horas. Às vezes o tempo do intervalo passava e a gente continuava lá. Sempre tinha um assunto para ser debatido. Eram conversas que agregavam muito.”

– Júnior Borges

Nessa trajetória, Júnior fez amizades e adquiriu novos conhecimentos que o ajudaram a ser o que é hoje. O ex-aluno lembra que entrou na Universidade muito jovem, sem muito entendimento de diversos temas, mas que esses momentos de compartilhamento de saberes e afeições entre as aulas o ajudaram a formá-lo não só enquanto pedagogo, mas também enquanto pessoa. “Quando eu vi colegas assim, as informações e os debates que eles traziam nos intervalos, consegui compreender mais. Acho que essa é uma das coisas de que eu mais sinto falta”, conclui.

Júnior ainda conta que essa relação nem sempre foi fácil. As aulas começavam às sete e meia da manhã e geralmente acabavam às 12h10. E, para ele, que sempre morou em Eldorado do Sul, era um desafio chegar pontualmente à faculdade. “Então eu tinha que sair de casa muito mais cedo, umas seis, seis e meia, para chegar em tempo, o que era raro, porque eu costumava chegar atrasado”, explica. 

Apesar dos percalços, o ex-aluno diz guardar consigo mais histórias boas do que ruins: “A Universidade me transformou. Digo que entrei um guri e saí um homem”. Sendo um dos poucos homens da turma, aprendeu a amar a pedagogia, curso com pouca participação masculina e que foi sugerido pela mãe. Além disso, Júnior conta ainda que aprendeu a escutar e ser escutado. 

“Eu era muito cabeça dura, mas, nessa humanidade dos professores e colegas, eles me faziam entender um outro ponto de vista. Então acho que deixei alguns professores um pouco mais pacientes, mas eles também me mudaram e me marcaram demais. Eu sou uma outra pessoa depois que passei pela faculdade. Eu tenho um outro olhar, não só para a educação, mas um olhar geral para a sociedade.”

– Júnior Borges
Foto: Flávio Dutra/JU
Rupturas e crescimentos

Não bastassem todas essas histórias, o pedagogo ainda narra ter presenciado momentos de rupturas e de mudança na Universidade, como as ocupações e a instituição das cotas raciais.

Em 2016, estudantes de mais de 20 cursos diferentes da UFRGS ocuparam os prédios da Universidade em protesto contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que pretendia congelar os gastos públicos por 20 anos. Um dos estopins da manifestação aconteceu na Faced. E, ao contrário do que os setores mais conservadores pensam, as ocupações foram um espaço de reivindicação, conversa e debate.

Apesar de não estar presente durante as ocupações na UFRGS, por morar em Eldorado do Sul, Júnior lembra como o movimento foi importante tanto para ele quanto para formar o que é a Universidade atualmente. “Foi um aprendizado muito forte estar na Faced durante as ocupações. Tinham muitos alunos que não eram a favor, queriam seguir o cronograma à risca, cuidar do ordenamento. E a verdade é que não era nada disso; tratava-se de um problema maior. Eu procurava participar dos debates, das rodas de conversas e aprender. Foi um aprendizado muito grande. Eu acho que foi um divisor de águas na faculdade e que ajudou a constituir o que é a UFRGS hoje”, analisa.

Além disso, Júnior ainda ingressou na Universidade quando a política afirmativa de cotas raciais foi instituída. Como único homem negro na turma até a formatura, ele conta que sempre sentiu empatia e respeito por parte de colegas e professores. Ele entende que isso acontece porque a Faced é um lugar de constante diálogo sobre questões raciais. “Eu sempre me senti muito acolhido pelas colegas. Nunca senti nenhum tipo de preconceito, nenhum tipo de olhar. A pauta racial sempre foi discutida e levavam em consideração o que a gente estava sentindo. O Diretório Acadêmico também sempre acolheu, ajudou”, afirma.

Em Eldorado do Sul, cidade do ex-aluno, costumam ocorrer enchentes que param a cidade. Foi isso o que aconteceu durante o estágio obrigatório de Júnior.  Impossibilitado o pedagogo de ir para a escola onde estagiava, o ex-estudante não tinha material para apresentar para os professores. “Naquela semana do trabalho choveu muito. Eu estava apavorado porque eu não tinha material para apresentar. Eu conversei com a professora, e ela disse para eu apresentar o que eu tinha. Mas eu não conseguia apresentar, porque eu chorava. Eu tinha me esforçado muito e não tinha conseguido levar esse material para os alunos e muito menos para a apresentação”, conta.

“Quando eu parei para ver”, relembra, “todas as professoras estavam chorando. Todos os professores estavam sentido o que eu estava sentido. Eles captaram o que eu sentia.” É por isso que, para ele, a Faced se constituiu um espaço de acolhimento, empatia e compartilhamento de saberes, mesmo em cenários de mudanças significativas. Não foi diferente durante a formatura.

O ex-estudante participou da comissão de formatura. Por esse motivo, Júnior estava em constante contato com os professores da coordenação, colegas e terceirizados. Foi nesse processo que ele se viu saudoso, relembrando todas as memórias, vivências  e histórias. “O último semestre da faculdade foi muito nostálgico. De tudo eu acabava sentindo saudade; a gente se apegava muito mais aos professores, aos colegas e aos funcionários. Eles tinham um carinho muito grande por nós, e nós por eles. Têm professores que marcam muito a nossa trajetória, que a gente segue no Facebook porque não quer perder o contato. Então eu carrego um carinho muito grande até hoje”, revela.

“Eu tenho muitas experiências, boas histórias e boas lembranças que eu vou levar da UFRGS. Eu espero muito que as pessoas possam ter experiências boas assim como eu”, conclui.


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto do JU e da UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: