Carta aos leitores | Edição 223

Quando se fala em educação, o senso comum tende a compartimentar o processo e separar o ensino superior do restante do sistema. Esse foi um importante componente da plataforma que elegeu o atual ocupante do executivo nacional e agora justifica cortes assustadores nos recursos destinados às universidades federais. Essa falácia, no entanto, esconde o papel do ambiente acadêmico de nível superior como principal articulador da educação brasileira: onde, afinal, são formados os professores? Onde se geram as ciências, as letras, as humanidades e as artes que depois serão ensinadas por esses docentes? De onde provém o conhecimento pedagógico aplicado nas salas de aula? Onde se conduzem estudos que permitem aferir os resultados da educação em todos os níveis? É por isso que o JU traz, neste número, um acento nas questões ligadas à educação básica.

Ora, qualquer um que conviva com uma instituição como a UFRGS sabe que, neste espaço acadêmico, acontece o principal processo gerador da educação: a formação em licenciaturas. Em reportagem, buscamos entender o quanto a carreira docente é marcada por uma desvalorização. A formação oferecida pela Universidade, ainda, tem sido incrementada por programas como o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), que busca a inserção dos estudantes nas escolas desde muito cedo na graduação. O Programa de Educação Tutorial (PET) também é retratado em matéria: aproxima futuros profissionais da comunidade e contribui para que a população compreenda melhor o que significa uma universidade.

Coordenado pela UFRGS, o Centro de Formação Continuada de Professores (Forprof) também se mostra uma iniciativa importante: entre 2012 e 2014, impactou, por meio de suas atividades, 12 mil docentes de 198 municípios do Rio Grande do Sul. No ano passado, devido a cortes de verbas, apenas 442 professores foram beneficiados. O impacto e a drástica redução no alcance nos levaram a buscar entender essa iniciativa e sua participação na qualificação da educação básica. Reduzir propostas como essa – oriundas do investimento no ensino superior, mas com impacto na educação básica – é diminuir um investimento naqueles que são os agentes centrais do processo educacional, os professores.

Para complementar o debate, um artigo do professor Fernando Becker apresenta a obra, a trajetória e a importância de Paulo Freire. A docente Sandra Mara Corazza, por sua vez, defende a articulação entre a experiência do ensino superior e a da educação básica como fundante da escola brasileira.

Neste mês, acontece a Semana da África na Universidade e, por isso, abordamos o desafio da inserção de temáticas africanas, afro-brasileiras e indígenas nas salas de aula. Apresentamos, ainda, o material didático com obras de artistas negros desenvolvido pelo Departamento de Desenvolvimento Social (Deds/UFRGS) e destacado no Prêmio Açorianos de Artes Plásticas.

Além disso, a Universidade instala, neste ano, um processo que culminará com a organização de uma política cultural. O JU, então, se insere neste movimento com uma série de matérias sobre o tema. Nesta primeira, Antônio Albino Canellas Rubim e Teixeira Coelho – ambos referências no assunto – falam sobre a cultura, seus condicionantes e suas possibilidades no ambiente universitário.

Trazemos também um especial com a vida e a obra de Marcelo Rubens Paiva, Adélia Prado, Lygia Fagundes Telles e Graciliano Ramos, autores cujas obras foram incluídas entre as leituras obrigatórias para o vestibular 2020. Completam a edição uma reportagem sobre carros elétricos como possibilidade de um transporte menos poluente; o perfil da servidora da Creche da UFRGS Isabel Cristiane Nepomuceno Carvalho; e as impressões do estudante de Letras Vinicius Fernandes sobre a Sala de Convivência do ILEA.

Everton Cardoso

Editor-chefe