Muitas vezes somos levados a crer que o questionamento ao papel da universidade é um projeto do atual governo federal, mas é preciso olhar para o contexto social mais amplo: vêm sendo postos em xeque os sistemas peritos – aqueles que têm autoridade socialmente estabelecida para nos dizer como são as coisas no mundo, como aponta o sociólogo britânico Anthony Giddens. Nesse sentido, o que ora ocupa o poder, no Brasil, é essa lógica que deslegitima a investigação, a abstração e a teorização em detrimento da experiência individual e direta. Mas, afinal, que impacto tem a instituição universitária na vida das pessoas?

A estudante de Museologia da UFRGS Maria José dos Santos Alves – Perfil desta edição – é um exemplo de quanto conhecimento gerado pela academia é transformador: ela foi compreendendo o quanto o racismo é elemento estruturante no Brasil. A história mostra o papel que a política de cotas e as ações afirmativas têm tido para redefinir o debate ao redor dessas questões. No Ensaio, a outorga do título de Doutora Honoris Causa a Elza Soares também realça essa mudança social: mulher, negra, cantora de música popular, ela representa um conjunto de categorias que, confluentes, tornam a concessão da honraria ainda mais potente. A história da aposentada Zeli Pinheiro da Cruz contada no Meu Lugar narra o quanto o conhecimento, para ela, é uma forma de se relacionar mais plenamente com o mundo: aos 80 anos, estuda no Colégio de Aplicação e projeta logo partir para se graduar em Pedagogia.

Ao encontrar-se desafiada em seu lugar de poder, a academia busca se rever e se posicionar. Para contribuir com esse debate, trazemos uma entrevista com o reitor Rui Vicente Opperman. Ele analisa questões referentes à autonomia universitária – que considera limitada – e discute o modo de designação orçamentária pela União. O artigo da professora do Instituto de Física Márcia Barbosa se soma a essa análise com uma reflexão sobre o conhecimento como meio para se trazer à luz o que muitas vezes preferimos negar. Para ela, um diálogo mais próximo com a sociedade pode ser uma saída para se construir essa credibilidade junto à população. As Marias Josés, as Elzas e as Zelis estão aí para nos dizer o quanto isso é verdade.

A instituição universitária, ao ser ameaçada por cortes que o governo se esforça para atenuar com divisões equivocadas de bombons, deixaria de cumprir diversos de seus objetivos, já que é um bem social pertencente à sociedade brasileira e que a ela presta serviços de uma relevância difícil de mensurar. Para pensar sobre isso, fizemos um levantamento da redução nas bolsas de pós-graduação na UFRGS. Pesquisa científica, afinal, é investimento, e qualquer nação que se pretenda desenvolvida deve buscar produzi-la em vez de comprá-la. 

Na mesma linha, seguimos com a série de matérias sobre políticas culturais: ao mapearmos em que situação se encontram as 63 instituições federais de ensino superior do país, percebemos o papel fundamental que elas têm como lugares de discussão e transformação. Situada na cidade onde ocorreu um dos mais eloquentes episódios de censura à arte – o fechamento da exposição QueerMuseu, no Santander Cultural, em 2017 – a UFRGS ingressa nessa discussão nacional e se posiciona mais uma vez como local de intervenção sobre o mundo.

Trazemos, ainda, uma reportagem na qual pensadores da instituição analisam a flexibilização de leis ambientais e um artigo que discute as perspectivas para as eleições argentinas. Finalmente, olhamos para questões referentes à organização social por meio de instâncias de coletivização: os conselhos ligados à administração pública que o governo pretende extinguir; e os agrupamentos independentes que se formam na UFRGS de modo a organizar redes de cooperação e proteção.

Boa leitura!