Carta aos leitores | Edição 227

Neste ano, o Salão UFRGS nos provoca olhar para a Universidade e sua presença na sociedade. Sendo este um evento de relevância para o calendário acadêmico e um momento de reflexão sobre si para a instituição, é propício e oportuno um balanço do impacto das atividades aqui desenvolvidas. Mas como, afinal, se pode mensurar ou dimensionar isso? Ao pensar sobre o tema, entendemos que era preciso nos contrapor aos ataques às instituições federais de ensino superior de um modo bastante contundente. A opção, então, foi por uma linha cuja angulação representasse uma virada na perspectiva: uma universidade deve ser pensada também a partir das pessoas que a formam e que com ela convivem.

Nesse sentido, é marcante a relação da comunidade porto-alegrense com a Esefid, a Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança. O Câmpus Olímpico, onde está situada a unidade, é um espaço para que as pessoas pratiquem atividades físicas de forma espontânea. No local, também são oferecidas atividades orientadas tanto de cunho desportivo quanto terapêutico. No conjunto de ações que extrapolam as atividades de graduação e pós, alia-se a formação de futuros profissionais com a prestação de serviço à comunidade acadêmica e externa. Nos relatos que coletamos para a reportagem, então, há uma amostra do quanto a UFRGS é espaço de vivências que derivam de suas atividades-fim e que a tornam um centro articulador das vidas de muita gente em Porto Alegre. É, pois, um equipamento urbano fundamental para a existência plena.

No mesmo sentido, buscamos entender o impacto da atuação da UFRGS na cultura. A Universidade, desde muito cedo em sua história atuante na organização dos primeiros cursos na área, tem sido um agente importante na formação, dinamização, organização e institucionalização do campo da produção cultural no estado. A partir disso, trazemos histórias de agentes relevantes em diferentes expressões artísticas – literatura, música, artes cênicas e artes visuais – para realçar esse papel e para buscar entender como as atividades acadêmicas têm, depois, uma repercussão na cena local e nacional.

Esse lugar da UFRGS se reflete também na seção Ensaio, na qual a trajetória de Teresa Poester é sintetizada em sua mais recente intervenção para o projeto Percurso do Artista. Os resultados do processo de produção foram registrados em fotografias e depoimentos. A artista – professora aposentada da UFRGS – é, pois, representativa da potência criadora e articuladora do campo acadêmico em sua relação com o mundo. No Perfil, a estudante Júlia Pianta também é exemplar dessa intervenção da academia sobre as dinâmicas externas: é a primeira e única mulher que se dedica a estudar bateria na formação em música popular oferecida pelo Instituto de Artes. Como esse é um instrumento normalmente associado à masculinidade, a presença da graduanda já sinaliza mais um entre os pequenos mas significativos avanços no sentido de tornar o mundo mais plural.

Além disso, trazemos um conjunto de outros temas que contribuem para dimensionar esse impacto da UFRGS. A Universidade extrapola suas fronteiras ao ter a internacionalização como um de seus ideais: a vinda de estrangeiros e o envio de brasileiros para outras instituições areja a academia e traz a ela mais diversidade. Esse debate também ganha, nesta edição, contornos mais opinativos: dois artigos de professores da casa discutem, a partir de diferentes perspectivas, a necessidade do conhecimento e o papel das universidades diante disso. Para pensarmos sobre a diversidade de saberes que hoje chega à academia, realizamos a entrevista com Santiago Franco, cacique guarani. É uma voz implicada nas disputas simbólicas, sociais, econômicas e territoriais que envolvem a questão indígena no país.

E, finalmente, o cultivo dos jardins por Fátima Ávila Cardoso e Rosane de Lima Rodrigues, no Câmpus Centro, sinaliza o quanto estar na UFRGS pode ser manifestação de afeto e cuidado com este ambiente que tanto contém e que tantos congrega. Ainda que a história delas sinalize para limitações da instituição pública, serve de inspiração para tempos em que é da força coletiva e da criatividade que podemos gerar o que pode ser o rumo das universidades federais brasileiras.