Carta aos leitores | Edição 229

Há muito tempo, uma frase de Arabela Oliven está escrita no muro colorido que fica entre a Faced e o Bar do Antônio, no Câmpus Centro – ainda que hoje praticamente coberta pela vegetação do jardim em frente. Ela diz que as diferenças são enriquecedoras e que as desigualdades devem ser combatidas. Essa diferenciação conceitual serve para pensarmos sobre muitas dimensões das relações de poder e das dinâmicas sociais vigentes ao nosso redor. A questão está no cerne da ideia de democracia, que, para além do ideal da inclusão, envolve também a busca incessante por uma convivência entre os princípios da liberdade e da igualdade.

E se uma instituição de ensino superior – sobretudo se for pública – é um espaço privilegiado para o debate e o desenvolvimento do pensamento crítico, resta-nos a certeza de que o jornalismo produzido por essa instituição deve não só observar como contribuir para a produção desse conhecimento. Isso, no entanto, sem jamais abrir mão dos preceitos do campo jornalístico e da ética que rege a prática profissional.

O compromisso do JU, que pretendemos renovar cotidianamente em 2020, é trabalhar a partir da veiculação da informação precisa, correta e verídica e da opinião analítica, qualificada e plural. Assim é que, a nosso ver, o bom jornalismo pode contribuir para que as estruturas sejam constantemente objeto de análise para que, mantidas ou transformadas, nos permitam viver numa sociedade mais justa e igualitária.

Na UFRGS, essa questão das estruturas sociais vem à luz, por exemplo, quando há debates sobre o sistema eleitoral para a reitoria, como o ocorrido em dezembro no Salão de Atos. Situação esta que se tornou ainda mais complexa com a Medida Provisória 914, editada no dia 24 de dezembro. Para pensar sobre autonomia universitária e o impacto dessa medida, trazemos uma entrevista exclusiva com João Carlos Salles, presidente da Associação dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) e reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Complementa a reflexão uma matéria que apresenta algumas das discussões contempladas no ciclo de painéis alusivos aos 85 anos da UFRGS e das atividades do Grupo de Trabalho destinado a acompanhar e avaliar o sistema universitário brasileiro na Câmara dos Deputados. Resta, a partir disso, uma certeza: há uma série de questões referentes às Universidade para as quais é preciso haver debate constante, aberto, profundo e amplo.

Com relação a outras estruturas geradoras de desigualdade no tecido social, elaboramos reportagem que trata do quanto o esporte deve ser pensado para que todo e qualquer cidadão ou cidadã possa dele participar e, assim, desfrutar dos benefícios físicos, mentais, sociais e emocionais que essas práticas podem oferecer. Também a questão do HIV/Aids nos serve para refletir sobre o quanto esta é uma questão de saúde pública que carrega um estigma negativo advindo de uma moralidade altamente conservadora – e ligada diretamente à discriminação em razão da orientação e do comportamento sexual. No Ensaio, uma proposta de visibilização das pessoas que convivem com a soropositividade.

Também, na busca por entender nosso tempo, a edição traz uma matéria sobre a masculinidade e um artigo sobre a situação da América Latina. No Meu Lugar, a trajetória do servidor Paulo da Silva Eckert e suas vivências no Centro de Processamento de Dados (CPD) e, no Perfil, a vida de mestrando e músico nativista de Pedro Guerra Pimentel no Câmpus Litoral Norte.

Boa leitura!

Everton Cardoso

Editor-chefe