Célio Golin: a convivência na CEU

Câmpus Centro | Coordenador do grupo Nuances e ex-estudante da UFRGS, Célio Golin relembra com nostalgia os momentos vividos na Casa do Estudante Universitário

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

A saudade de Célio Golin mora na Porto Alegre dos anos 1990, marcada por uma juventude de muitas liberdades enquanto frequentava a Universidade. O empoderamento pelo conhecimento, mas também pela socialização, diversão e festa foi fundamental para que ele iniciasse sua trajetória na militância LGBT+. Fundador e coordenador do grupo Nuances, um dos pioneiros em prol da causa no Brasil, ele relembra com carinho os momentos que passou na Casa do Estudante Universitário (CEU) da UFRGS.

Após a graduação na Escola de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas, Célio iniciou uma especialização em Ciências do Esporte na UFRGS. De família humilde, vindo da cidade de Nonoai, ele dependia do Restaurante Universitário para fazer as refeições e da CEU para seguir morando na capital. “Foi, talvez, uma das experiências mais interessantes da minha vida, porque ela realmente norteou meu processo de vivência, de militância, de atuação na sociedade”, conta.

A adaptação à nova rotina e o desafio de dividir espaço com outros estudantes passaram longe de ser dificuldades. Célio considera, de fato, uma de suas vivências mais ricas. Para ele, a casa do estudante possibilitava muitas relações sociais e o contato direto com a Universidade.

“Na época, as regras não eram tão rígidas, as pessoas entravam e saíam com muito mais liberdade. Lá eu acabei conhecendo muitas pessoas, amigos que até hoje eu mantenho – uns moravam na casa, outros não. Muita festa, futebol, lazer, refeições com outros estudantes”

Célio Golin
Surgimento do Nuances

Fundado há 30 anos no processo de reorganização dos movimentos sociais e identitários após a ditadura militar, o Nuances – Grupo pela Livre Expressão Sexual surgiu da convivência e da troca de ideias entre alunos na CEU e nos diretórios acadêmicos. Durante uma palestra do Grupo de Apoio à Prevenção da Aids (Gapa), Célio conheceu Glademir Antonio Lorensi, estudante de Biologia na época, que tinha mais experiência com a militância LGBT+.

Glademir já havia participado de encontros nacionais em defesa da liberdade sexual e contou suas experiências a Célio. O encontro entre os dois rendeu uma longa conversa nas mesas do bar Xirú, ponto de encontro dos universitários, próximo ao câmpus central da UFRGS. Naquele dia, eles decidiram formar o primeiro grupo do movimento LGBT+ de Porto Alegre. Inicialmente chamado de Movimento Homossexual Gaúcho (MHG), o grupo decidiu trocar de nome para fugir dos rótulos, já que havia participantes de diferentes orientações sexuais. Assim surgiu o Nuances, movimento que organizou, em 1997, a primeira parada livre da capital.

Envolvido com a militância e o ativismo, após a especialização em Educação Física, Célio iniciou uma nova graduação em Ciências Sociais, o que lhe rendeu mais tempo de convivência na Casa do Estudante. Como coordenador do grupo Nuances, surgiram muitas parcerias entre a organização e a Universidade. “Acredito que nós, enquanto movimento político, acabamos interferindo na Universidade”, sustenta.

“As homossexualidades, se você pensar há 30 anos, ainda estava sendo estudada pela psiquiatria, psicologia, medicina, naquela lógica da doença. Nós conseguimos fazer com que essa perspectiva fosse perdendo espaço e os próprios cursos fossem revendo e reelaborando suas ações sobre essas questões”

Célio Golin

Pessoa com opiniões bem definidas, Célio brinca e diz ser uma “bicha antiquada”: não tem redes sociais e se recusa a aceitar que a vida, daqui para a frente, será pela tela dos celulares. Ele sente falta do contato, do ato de pegar o ônibus e ir para o câmpus encontrar os amigos e das discussões calorosas em que se pode observar e ouvir o outro.


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto entre o JU e a UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: