Ciclo de leituras aborda as literaturas ameríndias

Cultura | Primeiro módulo de ação promovida pelo DEDS, o evento terá a participação de três autores de diferentes etnias indígenas

*Foto de capa: Jerônimo Franco

Com início no dia 23 de abril, o primeiro módulo da ação de extensão Da Margem ao Centro: Leituras para Transformação Social, evento virtual organizado pelo Departamento de Educação e Desenvolvimento Social (DEDS) da Pró-reitoria de Extensão da UFRGS, aborda o “Percurso das Literaturas Ameríndias”. O enfoque será sobre temas como invisibilidade, direitos humanos, preservação ambiental e o apagamento da cultura indígena no Brasil. Esse primeiro módulo terá um segundo encontro no dia 30.

A ideia do DEDS é que a ação perdure até o final de 2021, trazendo outros temas também importantes para debate, segundo afirma a coordenadora Rita de Cássia Camisolão.

Da Margem ao Centro é um ciclo de leituras que vai trazer temas variados, ainda marginalizados dentro da academia, como as literaturas do cárcere, das questões de saúde mental, de gênero e sexualidade, e outros assuntos. Produções literárias desses sujeitos, literatura de periferia, literatura negra, são temas que estamos arrolando para manter o projeto para além do ano. O ciclo de leituras ameríndias então inaugura esse percurso, da margem ao centro”

Rita Camisolão

Assim como os outros setores da Universidade, o DEDS também precisou fazer diversas inovações forçadas desde o ano passado. O primeiro momento foi de maior incerteza, mas depois, ao longo dos meses, e mais adaptados às novas tecnologias, os servidores do departamento conseguiram realizar suas atividades com êxito.

“Quando as atividades presenciais foram suspensas, nosso primeiro movimento foi de analisar os projetos que tínhamos previstos para 2020, observando quais poderiam ser feitos de forma remota. O segundo foi de se apropriar de ferramentas para realizar esse trabalho remoto. Nem tudo previsto foi realizado, mas também tivemos oportunidade de inovar e realizar atividades novas. Aprendemos muito experimentando plataformas diferentes, para preservar o jeito que o DEDS faz extensão, na costura coletiva, conversando com pessoas de dentro e de fora da academia”, relata Rita.

Importância da literatura nativa

O primeiro módulo terá quatro palestrantes. Na abertura, a palestra Falas à espera de escuta será ministrada por Ana Tettamanzy, professora do Instituto de Letras da UFRGS, e Jerônimo Wherá Tupã Franco, professor Mbya Guarani e pesquisador do idioma e da cultura Guarani. No dia 30, haverá duas palestras: Literatura Nativa, uma arma de conscientizar, ministrada por Olívio Jekupé, escritor Guarani, e A forma como compomos a literatura que escrevemos, apresentada por Luciana Vãngri Kaingáng, educadora, escritora e ativista pelo direito dos indígenas no Brasil.

O objetivo dessa primeira sessão é debater e conhecer um pouco mais sobre a literatura produzida por indígenas no Brasil. “Estamos abrindo dentro da Universidade um espaço para que essas vozes tenham prioridade nesse momento de fala. No caso do primeiro encontro, a gente não pode desconsiderar a presença dos indígenas, e fazer junto com eles as discussões que lhes dizem respeito e que estão na nossa agenda”, afirma Rita.

Foto: Jerônimo Franco

Um dos palestrantes do segundo dia, Olívio Jekupé criou um termo que ele acha adequado para denominar este tipo de produção: literatura nativa. Escritor de poesias, contos e romances, publicando seu primeiro livro em 1993, ele é um dos escritores indígenas mais produtivos e publicados do Brasil.

“Criei o termo ‘Literatura Nativa’ para mostrar para a sociedade que os povos indígenas são os nativos, e como somos nativos, a literatura também é nativa. Dentro de cada aldeia existem povos diferentes. No Brasil são mais de 250 distintos, cada um com seus costumes, idioma, cultura e modos de vida. São os povos nativos desta terra, e por isso a literatura produzida por esses povos é a literatura nativa”

Olívio Jekupé

Ele se tornou escritor para expressar suas vivências e também para relatar as aflições dos povos indígenas no Brasil. Em seus livros, o autor conta a história de pessoas de diferentes povos nativos, comentando também temas como invasões, demarcação de terras, violência e outros problemas sociais que ocorrem com os indígenas no Brasil. Por essa razão, e também para combater preconceitos, Olívio destaca a importância de fortalecer a produção da literatura produzida por povos nativos.

“Quando a gente escreve uma história, a gente escreve de acordo com o pensamento indígena, do nosso povo. O surgimento dos escritores indígenas é importante por causa disso, para que as histórias sejam escritas também pelos nativos, e que esses livros cheguem às aldeias e escolas. Assim as crianças vão crescer com uma mentalidade diferente, irão respeitar e valorizar os povos indígenas, e não ler uma literatura que faz com que a criança cresça com pensamento racista ou com medo”, explica o escritor.


Percurso das Literaturas Ameríndias

O evento

O evento é gratuito e acontece ao vivo, em plataforma de webconferência restrita aos inscritos. As inscrições para o primeiro módulo estão abertas até dia 21 de abril no seguinte link. Para servidores da UFRGS, é possível se inscrever pelo Portal do Servidor até 18 de abril, já que a atividade é uma ação de aperfeiçoamento oferecida pela Edufrgs.

A programação

23 de abril, 19h Falas à espera de escuta, com Ana Tettamanzy e Jerônimo Wherá Tupã Franco

30 de abril, 19hLiteratura nativa, uma arma de conscientizar, com Olívio Jekupé, e A forma como compomos a literatura que escrevemos, com Luciana Vãngri Kaingáng.