Ciência e negritude no Brasil

Artigo | Alan Alves-Brito, professor no Departamento de Astronomia, examina a subrepresentação de pessoas negras no ambiente científico e tecnológico

*Por: Alan Alves-Brito
*Foto de capa: Flávio Dutra/Arquivo JU, 17 mai. 2020

Um dos grandes objetivos das ciências modernas e contemporâneas — alicerçadas no que significaram as revoluções de ideias que culminaram em mudanças de paradigmas na Física e na Astronomia do século XVII — é construir cosmologias, realidades, representações de mundo. No entanto, embora negado, as ciências como construção humana não são neutras, puras, ingênuas, ateóricas e ahistóricas, desconectadas da ação (cosmo)política. Essas cosmologias científicas estão imbricadas na organização de sistemas globais do pensamento ocidental — colonialismo, capitalismo e patriarcado — no âmbito do que se caracteriza como Modernidade, que, em última instância, está atrelada à razão branca, à máxima eurocêntrica do “penso, logo existo”, em que o racismo tem sido o amálgama e o operador fundamental.

Nesse sentido e na relação dialética com a construção histórica das ciências, a negritude, termo cunhado por Aimé Césaire em 1939, tem sido desconsiderada, inferiorizada, invisibilizada, silenciada, exterminada das ciências, e os corpos negros, destituídos de pensamento, do lugar de protagonismo de produção do conhecimento científico e tecnológico no Brasil e no mundo. O epistemicídio (Sueli Carneiro), que se constitui um grande desafio para pensar ciência e negritude no Brasil do século XXI, tem sido uma tecnologia do racismo epistêmico, justificado e ancorado no racismo científico, que é, paradoxalmente, uma pseudociência.

Se levarmos em conta que vivemos num país majoritariamente negro — 56% da população, de acordo com o IBGE —, somente o racismo subjetivo, institucional e estrutural é capaz de explicar, como parte do ethos da (necro)política elitista, falocêntrica e brancocêntrica nacional, o completo descaso do Estado brasileiro com a educação básica pública, frequentada majoritariamente por pessoas negras – descaso que contribui para que o País apresente perturbadora sub-representação de pessoas negras nas ciências, em todas as áreas de conhecimento e, marcadamente, nas ciências exatas, engenharias e carreiras tecnológicas.

Nessa lógica colonial e de colonialidade do pensamento, o racismo estrutural à brasileira surge como um delírio e uma arma de manipulação do sistema supremacista branco para sufocar, sequestrar e exterminar corpos negros de lugares fundamentais da vida social brasileira, retirando-lhes cidadania. E como a ciência é também um lugar importante de disputa de poder por meio do conhecimento, a tomada de consciência da especificidade do ser e tornar-se negro — o que está no cerne da negritude como afirmação subjetiva e movimentação política antirracista — é crucial para questionarmos a triste realidade racializada da ciência brasileira, que não tem sido fomentada nem colocada como perspectiva ou possibilidade material e simbólica nos horizontes de realização profissional de pessoas negras. 

Numa flagrante distopia, apesar de a maioria da população brasileira se autodeclarar negra e o país apresentar objetivamente a segunda maior população negra fora do continente africano, não podemos naturalizar que, em média, 90% dos/as docentes/pesquisadores/as em universidades e centros de pesquisas do Brasil sejam brancos(as) e menos de 2,5%, em média, de cientistas negros/as estejam ligados/as a programas de pós-graduação (Censos da Educação Superior). Esses dados revelam que, historicamente, o Estado brasileiro tem sistematicamente negado às pessoas negras o acesso à educação e à cultura e, portanto, à ciência; as pessoas negras têm tido suas contribuições históricas apagadas de livros de ciências, das epistemologias e metodologias científicas vigentes ou mesmo das narrativas apresentadas em centros e em outras mídias de comunicação e divulgação de ciências.

Sendo assim, admitir que as cosmologias científicas são racializadas em todas as áreas do conhecimento é entender como a linguagem, um dos maiores fetiches da Modernidade, opera o tempo inteiro, definindo, a partir da Europa (e de suas filiais globais), quem é “negro” e “indígena”, tratados sempre como (epistemologicamente) inferiores em relação aos denominados “brancos”. É nesse processo de construção política antirracista que ciência e negritude são aqui pensadas: cada um/a, numa viagem subjetiva, precisa compreender, por meio da ciência, de que forma os processos históricos, sociais e epistêmicos têm fomentado o domínio de pessoas brancas nas ciências, garantindo e distribuindo privilégios, no fortalecimento de poderosas redes de conhecimentos, únicos reconhecidos como “válidos”.

Pensar ciência e negritude é se dar conta, de forma objetiva e sem mimimi, que as ciências e as tecnologias têm sido historicamente, sobretudo no Brasil, uma ação afirmativa para pessoas brancas, homens em sua maioria, cis, heterossexuais, bem nascidas a certas latitudes do norte e sul global. Essas “ações afirmativas” têm se articulado no âmbito do “pacto narcísico da branquitude” (Cida Bento), o qual explica em grande parte a ausência e/ou sub-representação de pessoas negras nas ciências. 

O pretoguês, de Lélia Gonzalez, precisa nos ajudar a re(escrever) e a recuperar as histórias negras na ciência brasileira, cuja negritude potencializada e ressignificada na cultura africana e afro-brasileira, bem como na pedagogia dos povos originários, nos alerta sobre o perigo das “histórias únicas”, nos impõe novos marcos ontoepistemológicos e nos apresenta outras cosmopercepções que não são excludentes, cosmofóbicas (Nêgo Bispo) e medrosas de outras existências. Discutir negritude na ciência é sobretudo desvelar e posicionar a branquitude, contribuindo para a des(construção) subjetiva, institucional e estrutural dos nossos sistemas opressores de produção de conhecimento. Pensar ciência e negritude nos permite fomentar a diversidade, a igualdade e a equidade no ambiente científico e tecnológico para promovermos a educação antirracista como verdadeira marca de inovação, sinônimo de transformação social e de democracia no Brasil.   

Escultura representando Lupicínio Rodrigues, no pátio do Centro Municipal de Cultura que leva seu nome, em Porto Alegre, em imagens realizadas em maio (capa), no começo da pandemia e em novembro de 2020. Obra coletiva, cujos autores são Ana Petinini, Claudio Martins Costa e Dione Grecca Moraes (Foto: Flávio Dutra/JU)

Alan Alves-Brito é astrofísico, doutor em ciências pela USP, professor no Departamento de Astronomia, nos Programas de Pós-graduação em Física e Ensino de Física da UFRGS. Coordenador do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros, Indígenas e Africanos da UFRGS, é idealizador e coordenador do Projeto Zumbi-Dandara dos Palmares. Autor de “Astrofísica Básica: a origem dos elementos químicos no Universo” (Editora Appris, 2019; finalista do prêmio Jabuti 2020) e “Antônia e a Caça ao Tesouro Cósmico” (Editora Appris, 2020).