Como vai o letramento em saúde no Brasil?

Artigo | Para Patricia Romualdo de Jesus e Tatiane da Silva Dal Pizzol, pesquisadoras do PPG Epidemiologia, identificar a capacidade das pessoas de compreender e usar serviços e informações é essencial para elaborar estratégias adequadas de educação em saúde

Você já teve dificuldade em compreender informações sobre questões relacionadas à saúde? Seja um exame médico ou uma bula de medicamento, ter dúvidas ou dificuldade em entender esse tipo de informação é comum. Geralmente o nível de escolaridade é a forma mais utilizada para medir a capacidade de compreensão das pessoas quando recebem informações relacionadas à saúde. Espera-se que aquelas com maior escolaridade possuam maior habilidade em compreender essas informações, porém não é sempre que isso ocorre. Para avaliar e entender essa capacidade, existe um campo de estudo denominado ‘letramento em saúde’.

O indivíduo com adequado letramento em saúde possui conhecimento e capacidade para acessar, compreender e usar serviços e informações de saúde. Possuir essas habilidades contribui para o empoderamento do indivíduo, já que ele terá maior confiança para cuidar de – e gerenciar – sua saúde.

Por outro lado, pessoas com baixo letramento em saúde possuem baixa adesão medicamentosa, maiores taxas de hospitalização e decisões em saúde mais arriscadas. Grupos populacionais vulneráveis estão mais propensos a apresentarem baixo letramento, dentre eles idosos, analfabetos ou com baixa escolaridade, pessoas com baixa renda, doenças crônicas ou piores condições de saúde. 

Muitas vezes, a pessoa com baixo letramento esconde sua condição por constrangimento de fazer perguntas ou vergonha de falar que não compreendeu as orientações dos profissionais da saúde. Devido ao estigma social, identificar estes indivíduos nem sempre é fácil. 

Em países como Estados Unidos e Canadá, pesquisas de base populacional constataram que 36 e 60% da população, respectivamente, apresentavam baixo letramento em saúde. Na Europa, um estudo realizado em oito países (Áustria, Bulgária, Alemanha, Grécia, Irlanda, Holanda, Polônia e Espanha) revelou que uma em cada duas pessoas possuía letramento em saúde limitado. Dados considerados alarmantes, tanto que em alguns governos, como o norte-americano, uma das metas nacionais para a melhoria da saúde e do bem-estar na próxima década está relacionada ao aumento do letramento em saúde da população.

Foto: Flávio Dutra/JU

Para medir o nível de letramento em saúde, diversos instrumentos foram desenvolvidos. Nesse ponto, encontramos outro desafio: saber qual é o melhor instrumento para avaliar o letramento em saúde. Considerando a complexidade do tema, não podemos esperar uma ferramenta única e específica que o avalie como um todo. Há diversos instrumentos com abordagens diferentes. Alguns medem exclusivamente a compreensão de termos técnicos, outros incorporam a capacidade de realizar cálculos matemáticos simples. Também há instrumentos que enfocam uma área da saúde, como a saúde bucal, e outros utilizam rótulos nutricionais para a aferição do letramento.

Para a prática clínica, é mais conveniente o uso de instrumentos rápidos e de fácil aplicação, enquanto, na pesquisa, ferramentas que façam uma avaliação mais completa podem ser as preferidas. Um desses instrumentos é o Rapid Estimate of Adult Literacy in Medicine (REALM), o qual consiste em uma lista com termos médicos comuns, e a avaliação é feita por meio da pronúncia e do reconhecimento das palavras. 

O Test of Functional Health Literacy in Adults (TOFHLA) contém uma parte de compreensão de leitura e outra de numeramento. A primeira possui passagens de texto comuns em serviços de saúde com alguns trechos omitidos, e o participante deve selecionar uma de quatro possíveis alternativas para preencher a lacuna corretamente. Na parte de numeramento, são entregues cartões com instruções de exames e rótulos de medicamentos e, então, são solicitadas informações sobre o conteúdo dos cartões. Esse teste foi adaptado e validado para o Brasil, e pode ser acessado livremente.

Foto: Flávio Dutra/JU

Não há dados de pesquisa ou avaliação do letramento em saúde de âmbito nacional ou regional com amostra representativa da população brasileira. No entanto, os estudos publicados até o momento revelam números preocupantes e que devem ser considerados nas estratégias de promoção da equidade em saúde. 

Nesse cenário, pesquisadores vinculados ao Programa de Pós-graduação em Epidemiologia e ao Programa de Pós-graduação em Assistência Farmacêutica da UFRGS, com a colaboração de pesquisadores vinculados a UFPEL, UFSM, UEMS e UNESC, desenvolveram um projeto para avaliar o nível de letramento em saúde de brasileiros residentes em municípios das regiões Sul e Centro-Oeste. Intitulado “Letramento em saúde no Brasil: prevalência e fatores associados”, o projeto foi aprovado na Chamada CNPq/MCTI/FNDCT 18/2021 e será executado nos próximos meses a partir de um inquérito domiciliar em três municípios do Rio Grande do Sul e dois municípios do Mato Grosso do Sul. Além disso, uma revisão sistemática com estudos avaliando a prevalência do baixo letramento em saúde na América Latina e no Caribe está em execução. Alguns dos resultados dessas pesquisas irão compor tese em andamento junto ao Programa de Pós-graduação em Epidemiologia.

Ao avaliar a prevalência do baixo letramento em saúde dos brasileiros e identificar as principais características dessa população, o grupo de pesquisa pretende contribuir para o conhecimento na área e fomentar práticas de educação em saúde. Divulgar o que é o letramento em saúde e sua importância na Saúde Coletiva é um ponto de partida para futuras implementações de estratégias e políticas públicas voltadas a essa temática. Essas ações são necessárias para auxiliar na garantia do acesso, do cuidado e da informação em saúde da comunidade.

Foto: Flávio Dutra/JU

Patricia Romualdo de Jesus é doutoranda do Programa de Pós-graduação em Epidemiologia da UFRGS.
Tatiane da Silva Dal Pizzol é professora do departamento de Produção e Controle de Medicamentos da Faculdade de Farmácia da UFRGS e pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Epidemiologia e do Programa de Pós-graduação em Assistência Farmacêutica, ambos da UFRGS.


“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”