Conexões entre desequilíbrios ambientais e o surgimento de doenças infecciosas na Amazônia

*Foto de capa: Arquivo pessoal

Desmatamento, queimadas e doenças respiratórias são uma tríade fatalmente conectada. A floresta Amazônica está sendo desmatada com uma intensidade superior a das taxas observadas nos últimos anos, além de ter sido atingida por diversas queimadas provocadas pela ação humana, criando um círculo de destruição florestal. O papel regulador exercido pela Amazônia sobre o clima da Terra está cada vez mais abalado e, como consequência, a incidência de doenças causadas pela fumaça das queimadas e pelos eventos climáticos extremos está cada vez maior. As doenças respiratórias são geralmente as mais lembradas quando se pensa nos efeitos nocivos do desmatamento e das mudanças climáticas sobre a saúde humana, afinal os pulmões são facilmente afetados pela poluição, fumaça de queimadas e temperaturas extremas. Existe, entretanto, uma grande e intrincada relação entre o desmatamento e diversos outros problemas de saúde, principalmente as doenças infecciosas.

A Amazônia é provavelmente o bioma com a maior diversidade de espécies de seres vivos do planeta, sejam estes animais ou vegetais. Tais espécies interagem de forma complexa em um ecossistema autorregulável e saudável. A interferência dos seres humanos nas relações entre os animais e as plantas pode causar a extinção de espécies por meio de diferentes mecanismos, sendo comuns aqueles mediados pela degradação de habitats em decorrência do desmatamento de áreas florestais para o plantio de monoculturas e a criação de gado. Porém, o desmatamento e a perda da biodiversidade apresentam outras consequências pouco ressaltadas, como o distúrbio nas relações entre microrganismos e espécies hospedeiras.

Cada espécie animal que habita a Amazônia hospeda diversos microrganismos (vírus, bactérias, protozoários) que utilizam os animais para sobrevivência e multiplicação, geralmente sem causar doença no hospedeiro. Ao longo da evolução, microrganismos e espécies hospedeiras desenvolveram relações de convivência relativamente harmônicas. Porém, quando uma espécie entra em contato com um microrganismo ao qual não está adaptada, poderá eventualmente ser infectada, e uma nova doença terá a chance de emergir na população (humana ou de outro ser vivo). 

O surgimento do HIV ilustra bem esse processo. É muito provável que os primeiros casos de infecção humana pelo HIV tenham ocorrido na República Democrática do Congo, o antigo Zaire, no início do século XX. Esse vírus surgiu em humanos após o contato com sangue de primatas não humanos infectados com espécies virais precursoras do HIV. Após um período de adaptação nos humanos, o vírus se disseminou por todo o mundo. Considerando a diversidade de microrganismos existentes na Amazônia, as atividades de desmatamento da floresta e a crescente interação dos humanos com espécies selvagens, novas doenças também podem emergir entre os humanos por processos similares ao do surgimento do HIV.

As ações de desmatamento na Amazônia aproximam os humanos de animais selvagens (e seus microrganismos) de diferentes maneiras, sendo algumas delas muito interessantes de serem mencionadas. A perda de habitat pode forçar os animais a se deslocarem, ocupando novos nichos, incluindo ambientes urbanos. Tal aproximação facilita o “salto” de microrganismos dos animais selvagens para humanos ou animais domésticos.  

Ainda, indivíduos que ingressam nas florestas para desmatar entram em contato com diferentes espécies animais e, muito frequentemente, também realizam a caça de diferentes espécies. A caça e a comercialização de carne de animais selvagens são atividades muito comuns na região da Amazônica, sendo precariamente fiscalizadas.  

Essa caça e a manipulação de carne de animais selvagens são atividades altamente facilitadoras da transmissão de novos microrganismos para os humanos. Por exemplo, um caçador em uma floresta tropical sentirá calor, usará poucas roupas e poderá ter cortes na pele causados pela vegetação. O contato com fluidos, principalmente sangue, da carcaça dos animais com os ferimentos do caçador pode ser a porta de entrada no corpo humano para diferentes microrganismos, incluindo aqueles com potencial patogênico. A manipulação de carne e vísceras da caça para consumo, portanto, é uma ótima oportunidade para novos patógenos infetarem os humanos. 

Apesar da transferência, ou salto, de microrganismos de espécies selvagens para os humanos ser um evento frequente na natureza, é relativamente raro que o salto ocorra com um microrganismo potencialmente patogênico. Esse evento raro, no entanto, em uma longa escala de tempo, pode ter consequências dramáticas: aproximadamente 75% das doenças infecciosas que afetam humanos têm origem zoonótica

Também é raro um patógeno que cruzou a barreira entre espécies encontrar ambiente favorável para a sua proliferação na população humana, pois isso dependerá de fatores dos humanos, do ambiente e dos patógenos. Caso isso ocorra, entretanto, as consequências podem ser graves, como aconteceu com a pandemia de HIV e com a atual pandemia de covid-19

A urbanização desordenada, as crescentes taxas de desmatamento e outros distúrbios ecológicos são facilitadores da emergência e disseminação de doenças infecciosas entre humanos. As chances de surgimento de novas doenças aumentam conforme esses eventos se tornam mais frequentes e intensos

Outro impacto importante do desmatamento da Amazônia sobre as doenças infecciosas ocorre pela modificação da dinâmica ecológica de insetos vetores. Na floresta, mosquitos, carrapatos e outros vetores de diferentes doenças encontram uma ampla variedade de animais para se alimentar e dispõem de um vasto habitat para viver. Além disso, as populações de vetores são controladas por espécies que se alimentam desses insetos. 

O desmatamento altera de forma robusta a dinâmica dos vetores pela redução de habitat e pela interferência nas populações de espécies que controlam a proliferação desses animais. Mudanças na paisagem, como a construção de usinas hidroelétricas, que alagam grandes áreas de floresta, facilitam a proliferação de mosquitos. Ainda, as mudanças climáticas decorrentes do desmatamento alteram os padrões de chuva e temperatura, eventos também associados com a disseminação de vetores de doenças, mesmo em áreas distantes das florestas desmatadas.

Já existe um corpo robusto de evidências indicando que a perda da biodiversidade e outros desequilíbrios ambientais facilitam o surgimento de novas doenças. No entanto, é necessário que a sociedade transforme esses conhecimentos em ações práticas. Em primeiro lugar, é essencial fortalecer as políticas de preservação ambiental e aumentar a fiscalização sobre atividades ilegais de caça e comercialização de espécies silvestres. Hoje temos consciência de que, além de serem importantes para a preservação da Amazônia e outros biomas, essas ações são essenciais para a preservação da saúde de toda a sociedade. Também é necessário fortalecer os sistemas de vigilância da circulação de patógenos em humanos e outros animais. Sistemas robustos de vigilância de patógenos permitirão a detecção precoce do surgimento de uma nova doença, o que é fundamental para controlar rapidamente o “nascimento” de um surto ou de uma epidemia. 

Nem o surgimento nem a disseminação de novas doenças podem ser completamente evitados, mas é possível diminuir as chances dessas emergências em saúde pública acontecerem de forma frequente. Está cada vez mais evidente que o entendimento e a prevenção das doenças infecciosas emergentes precisam levar em consideração os humanos, os outros animais e o ambiente compartilhado entre as espécies, a partir de uma perspectiva conhecida como One Health (Saúde Única). Somente com essa visão integrada será efetivamente possível prevenir o surgimento de novos surtos, epidemias e pandemias.


Dr. Joel Henrique Ellwanger é Pesquisador em nível de pós-doutorado (PNPD/CAPES) do Programa de Pós-graduação em Genética e Biologia Molecular (PPGBM) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
E-mail: joel.ellwanger@gmail.com

Dr. José Artur Bogo Chies é Professor do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 
E-mail: jabchies@terra.com.br