Covid, cidade, arte e a universidade

Crítica | Observatório da Comunicação Pública analisa nas edições de março do JU o cruzamento entre o retorno progressivo ao presencial e o que resta da pandemia

*Foto: Flávio Dutra/Arquivo JU 22 abr. 2020 – Nos primeiros meses de 2020, o Hospital Conceição montou uma Unidade de Triagem para pacientes que buscavam diagnóstico para Covid-19, que teve pouco procura no início da pandemia. O quadro de contaminações se agravou a partir do inverno daquele ano, chegando, no estado, a cerca de 2 milhões e trezentos mil casos, com mais de 39 mil mortes

Dois anos após o início da pandemia da covid-19, começa o retorno de atividades presenciais em diferentes universidades em todo o Brasil. Em um processo repleto de disputas entre a saúde pública, a política e a economia, relacionadas ao enfrentamento do vírus durante o tempo em que o país foi atingido pelo Sars-Cov-2, a retomada não acontece de modo pacífico. Ainda há mortes e casos espalhados pelo país, e as histórias precisam ser contadas para que o tema não seja invisibilizado diante da premência e do desejo de uma vida “normal”. Essa volta às atividades presenciais na Universidade tem sido objeto de debates relacionados ao desenvolvimento do trabalho e aos processos de aprendizagem.

O Jornal da Universidade, nas edições #91, #92, #93 e #94, se situa nesse movimento com a exaltação que esta retomada merece, considerando o momento de consolidar mudanças por que o próprio JU passou durante o período pandêmico. Mudanças – ressaltam – que vêm para “ampliar o alcance do conhecimento produzido na UFRGS, acolhendo essas mutações que nos tornam vivos, sem descuidar do compromisso com a comunicação pública”.

Avançar nesse compromisso implica, para além do tom de satisfação, a reflexão sobre como o problema da covid-19 ainda acontece pelo Brasil, e assim a pandemia é mencionada como mais um dos aspectos que pressionam a economia nacional, assim como a guerra na Ucrânia. Nessa direção, a pandemia acaba por ser, nas edições de março de 2022, uma espécie de “tema associado”, presente nas associações com a guerra ou com as campanhas de vacinação em geral. Fica a dúvida: acabou a covid-19 ou está sendo progressivamente abandonada como assunto?

Nessas edições identifica-se importante movimento do JU associado a outros jornais, visando ampliar seu alcance diante da impossibilidade técnica de alcançar o país como um todo. Em colaboração com o Jornal da Universidade Federal de Goiás e o Beira do Rio (Universidade Federal do Pará), foi realizada reportagem para compreender como Porto Alegre, Goiânia e Belém lidam com o lixo reciclável. O intercâmbio entre as realidades das três cidades demonstra a possibilidade de reflexões conjuntas e a ampliação do valor jornalístico para todos os parceiros envolvidos. Nesse sentido, também, as edições em análise poderiam apresentar reportagem colaborativa sobre a retomada presencial nas universidades, a exemplo da referida matéria.

O olhar do JU para as questões locais é crucial para o diálogo com os diferentes públicos que acessam o jornal, como os que são beneficiados pela participação da UFRGS em campanhas de vacinação. Importante registro textual e fotográfico foi realizado ao documentar o trabalho interdisciplinar entre os cursos de Enfermagem, Medicina e Políticas Públicas relacionado à vacinação. Também a campanha de “Vacinação Extramuros” é um ótimo exemplo relacionado ao compromisso social da Universidade. Com esses registros, o JU amplia seu potencial para estimular debates públicos e aprofundar temas em pauta, como a vacinação no Brasil que ainda é trôpega, por mais que estudantes estejam participando ativamente da aplicação de doses. Dar retorno à comunidade é acolher as demandas e também promover o interesse público.

Diante dessa temática, um dos aspectos a ressaltar é a matéria do JU sobre o acolhimento aos estudantes no processo de retorno presencial desenvolvido pelo Núcleo de Apoio ao Estudante (NAE), como espaço de escuta que envolve os universitários de diferentes estados. Esse acolhimento, contudo, não é a única face do retorno presencial, e o próprio processo de retomada de atividades mostra isso com as disputas sobre uso ou não de máscara ou sobre a adoção do comprovante vacinal para o acesso a espaços comuns. São questões que transitam entre os espaços interno e externo da cidade de Porto Alegre, muito bem lembrada em seus 250 anos com matérias sobre geografia, arquitetura e meio ambiente elaboradas pelo jornal.

É possível correlacionar os temas que permeiam o mês de março nas publicações do Jornal da Universidade. Essa análise se constituiu num desafio devido às escolhas realizadas diante da diversidade de temas importantes, em meio à pandemia, relacionados à arte, cultura (destaque à foto da peça “Incidente em Antares”, de Flávio Dutra), questões de gênero, guerra da Ucrânia, e outros. Optamos pela retomada presencial na UFRGS, ainda relacionada à pandemia e à referência à cidade, que são temas relacionados ao modo como encaramos os espaços nos quais nos colocamos. Refletir em profundidade sobre essa temática não pode prescindir do reconhecimento de que a covid-19 ainda está presente e nos afeta individual e coletivamente em relação a decisões sobre como vamos voltar a ocupar os espaços públicos, como vamos nos comunicar.


Observatório de Comunicação Pública é mantido por doutorandos, mestrandos e pesquisadores que integram o Nucop – Núcleo de Pesquisa em Comunicação Pública e Política, grupo de pesquisa coordenado por Maria Helena Weber e vinculado ao PPGCom/UFRGS.


“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”