Curricularização leva cultura para a sala de aula

*Publicado na Edição 225 do JU

Políticas culturais | Movimento incentiva que universidades deixem de trabalhar com a cultura apenas como atividade extracurricular e levem o tema para dentro da sala de aula
Disciplina oferecida pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Biológicas busca sensibilizar a prática científica através da arte (Foto: Regina Guaragna/ Arquivo pessoal)

As crescentes discussões sobre as formas de fazer e fomentar a cultura dentro das instituições de ensino motivaram a criação de um movimento com o objetivo de levar o tema cada vez mais para o interior das salas de aula. Nas universidades federais, a mudança significa também deixar de pensar a cultura apenas como extensão, como atividade extracurricular. Nesta terceira reportagem da série sobre políticas culturais, o JU mostrará como professores e alunos trabalham a curricularização da cultura.

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Ainda novo no país, o conceito parte de uma análise crítica sobre a visão tradicional de currículo, debate já iniciado na Universidade Federal do Cariri, no Ceará. José Robson Maia de Almeida, autor do artigo As políticas e a curricularização da cultura na UFCA: o horizonte do plano de cultura, explica que, durante muito tempo, predominou uma noção de currículo que “associava as disciplinas a um ensino puramente técnico e mecanicista, uma vez que o sistema industrial, as regras de produção em massa e o trabalho repetitivo estavam atrelados ao sistema de ensino”. Consequentemente, segundo ele, “o currículo se elaborava a partir de um viés burocrático, centrado na figura do professor e desprovido de qualquer reflexão”.

A partir das teorias críticas que se opunham à lógica técnica do currículo, que, conforme Almeida, baseavam-se em concepções marxistas, na Escola de Frankfurt e em estudos de autores importantes da década de 1960, como Bourdieu e Althusser, pesquisadores propuseram uma elaboração curricular que levasse em conta as concepções multiculturais e tivesse foco principal no sujeito. Chamadas de teorias pós-críticas, essas ideias incitaram um debate sobre a criação de currículos “com olhar para as questões étnicas, culturais, de gênero e demais elementos que tornam os indivíduos diferentes”, completa Almeida.

Para o autor, tais noções “nasceram a partir de movimentos advindos das inquietações, insatisfações e questionamentos realativos às ideias tecnicistas da lógica estabelecida pelo currículo tradicional, pois viam nesse contexto mecanismos de reprodução e legitimação do poder simbólico, que consequentemente geravam a reprodução das desigualdades sociais e educacionais”. Nesse contexto, Almeida explica que a curricularização da cultura emerge como uma proposta no cenário das universidades brasileiras.

Em edital que propôs para incentivar os docentes a pensarem projetos a partir do conceito, a UFCA definiu a curricularização da cultura como “o processo pelo qual se busca a formação de estudantes e professores por meio da relação entre uma área do conhecimento e a cultura no seu sentido mais amplo”. Segundo Almeida, mesmo se configurando como uma ideia nova, algumas universidades já realizam ações que dialogam com a concepção.

Experiência prática

Na  UFRGS, um exemplo da aplicação prática da curricularização da cultura é a disciplina Fundamentos de Filosofia e História da Ciência para a Educação Científica, oferecida pelo Programa de Pós-graduação em Ciência Biológicas – Bioquímica, em dois módulos. O primeiro, chamado de Ciência e Arte: o Elo Perdido na Educação, ocorreu entre janeiro e fevereiro deste ano e atraiu cerca de 40 alunos. Entre eles, estavam acadêmicos de diferentes programas de pós-graduação, principalmente das áreas de saúde e educação, servidores técnico-administrativos da Universidade e estudantes de outras instituições de ensino superior.

Responsável pelas aulas, a professora Regina Guaragna afirma que vinha se questionando sobre o caráter excessivamente técnico e pouco humanista da formação acadêmica. Por isso, o objetivo ao propor a disciplina foi provocar a construção de uma visão mais questionadora da responsabilidade social do fazer científico. “A ciência se baseia em métodos rígidos que enrijecem o olhar do pesquisador, que acaba percebendo só aquilo que é semelhante.
A ciência busca um consenso, uma unidade, algo universal, enquanto a arte estimula os alunos a ver o mundo de forma mais crítica”, resume.

As aulas foram desenvolvidas especialmente na Biblioteca do Instituto de Psicologia, no Câmpus Saúde, com atividades como a leitura de poesias. A turma também realizou visitas ao Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) e a exposições fotográficas. Formada em Farmácia e mestre em Farmacologia de Produtos Naturais pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Gislaine Alves de Oliveira é doutoranda do PPG em Bioquímica e se inscreveu para a disciplina em busca de temáticas que fujam de sua formação farmacêutica. “Queria trazer para a minha prática o cruzamento da arte e da ciência”, justifica. Com tese voltada à área de ensino, afirma que a disciplina “cumpriu o propósito de despertar para uma relação entre filosofia da arte e filosofia da ciência”. O segundo e último módulo da disciplina eletiva, intitulado A Educação Científica na Pós-modernidade, deverá ocorrer até o final do ano, completando as 60 horas-aula.

Ensino com cultura

A curricularização da cultura é uma das propostas do Plano de Cultura que a UFCA está elaborando. “É um termo novo, mas não é necessariamente uma prática nova. Um professor do curso de Engenharia de Materiais, por exemplo, dava aula de ligas metálicas com cutelaria, um aspecto cultural. É isso que a gente quer, reconhecer que algumas práticas tradicionais, populares e das artes são possíveis ferramentas em sala de aula”, explica Gustavo Ramos, pró-reitor adjunto de Cultura da instituição.

Para incentivar o ensino com cultura, a universidade criou um programa de fomento à curricularização, que fornece bolsa aos professores. Um dos projetos que integram a iniciativa é do curso de Medicina e tem o objetivo de mapear todas as mesinheiras da região do Cariri, mulheres que trabalham com plantas medicinais. A proposta do projeto, conforme Ramos, é pensar a saúde comunitária a partir do conhecimento tradicional dessas mesinheiras, figuras tradicionais da cultura popular cearense. 

Outra ação que faz parte do programa é do curso de Agronomia. A ideia do projeto é trabalhar os conhecimentos da área a partir da gastronomia e do turismo local. “Os alunos saem da sala de aula para conhecer a produção gastronômica com os produtos locais. Não do chefe de cozinha, mas da dona de casa que faz galinha caipira e usa o frango da agricultura familiar”, conta Ramos.