Curso da UFRGS viabiliza que ideias sustentáveis se tornem empreendimentos

Empreendedorismo | Alunos do curso expõem os desafios de empreender a fim de tornar a sociobiodiversidade algo rentável e comentam suas visões sobre esse nicho no Brasil

*Foto de capa: Produtos cosméticos da Yatay, desenvolvidos por Bettina Rubin e Erik Leyen a partir do conceito de sociobiocotidiano (Bianca Costa/Arquivo pessoal)

Muito se discute de que forma é possível tornar o mundo mais sustentável. De modo menos sonhador, é possível imaginar algumas atitudes concretas com esse objetivo, como o incentivo à reciclagem e a educação ambiental nas escolas. Ainda assim, essa desejada mudança — e necessária, frente às alterações climáticas — ainda parece um tanto utópica e distante da realidade.

O Brasil é um país com uma biodiversidade imensa a qual proporciona muitas possibilidades de uso sustentável; ainda faltam, no entanto, iniciativas para que essas possibilidades se concretizem. Para Gabriela Coelho Souza, coordenadora do Círculo de Referência em Agroecologia, Sociobiodiversidade, Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (AsSsAN Círculo) da UFRGS, as pessoas têm interesse em produtos e negócios sustentáveis, mas esse interesse acaba não tendo muita concretude. A partir disso, nasceu a ideia do Curso Sociobiodiversidade e Empreendedorismo para a Sustentabilidade do Cotidiano,  juntamente com uma chamada do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações para o incentivo à tecnologia e ao empreendedorismo. De acordo com a professora, esse curso é uma realização que se insere no “guarda-chuva” de órgãos e políticas que envolvem a conservação de espécies da flora e fauna do Brasil – e mais especificamente do Rio Grande do Sul – a fim de incentivar o uso sustentável da sociobiodiversidade.

Gabriela explica que “sociobiodiversidade” é um termo construído no contexto brasileiro que considera a diversidade cultural e diversidade biológica como indissociáveis. “O Brasil é muito biodiverso, e esses ecossistemas existem porque populações tradicionais souberam manejar tudo isso ao longo do tempo”, pontua a professora. Ela acrescenta que o conceito foi criado na década de 90, muito em função dos movimentos sociais de Chico Mendes, e reapareceu em 2009 no Plano de Promoção das cadeias de produtos da sociobiodiversidade.

O cerne do curso, assim, é criar propostas que considerem as três dimensões: a ambiental, a social e a econômica. 

“[O conceito de] Sociobiodiversidade tem um olhar especial para os ecossistemas naturais, para a conservação da biodiversidade e para a questão da mudança climática. Há um apelo para os consumidores estarem atentos e conscientes dessas redes de abastecimento. A sociobiodiversidade conserva, gera renda e cria desenvolvimento econômico.”

Gabriela Coelho Souza

O curso é uma tentativa de articular empreendedorismo e sustentabilidade de uma forma rentável de negócio. Ele tem como parcerias o Parque Zenit da UFRGS, a incubadora multissetorial Germina e o projeto UFRGS Sustentável. Na primeira etapa, finalizada em novembro, doze ideias de negócio foram desenvolvidas, dentre as quais quatro receberam mentoria para entrar no mercado.

Encontro remoto entre participantes cujas propostas tiveram destaque no curso de Sociobiodiversidade e Empreendedorismo para a Sustentabilidade do Cotidiano, em novembro de 2021 (Foto: Gabriela Coelho Souza/Arquivo Pessoal)
A cosmética natural

Um dos destaques do curso foi a Yatay, marca de Bettina Rubin e Erik Leyen, que já comercializava alguns produtos antes de participar do curso do AsSsAN. Concluinte do curso de Ciências Biológicas na UFRGS, Bettina conta que já tinha vontade de empreender para que pudesse aproximar seus conhecimentos da sociedade. “Talvez por ter feito curso técnico, eu já tinha vontade de causar algum impacto na vida das pessoas sobre conservação e pensei que essa [a marca Yatay] seria uma boa forma”, pontua. 

A estudante conta que a ideia nasceu de um desejo dela de parar de comprar cosméticos da indústria e de produzir os próprios produtos. Com o retorno positivo de pessoas próximas que experimentaram os cosméticos, Bettina começou a pensar em investir nesse nicho e iniciar um negócio. Ela também conta que já se alimentava de produtos naturais e que, idealmente, gostaria de ter todo o seu “abastecimento” (alimento, produtos de limpeza/higiene e itens de lazer) de maneira sustentável, dentro de um conceito chamado “sociobiocotidiano”.

“Eu já tinha a vontade de empreender porque fui vendo que a pesquisa no Brasil está muito desvalorizada, são poucas oportunidades e, no campo da Biologia, não há muitos caminhos possíveis. [Podemos fazer] Um concurso público ou seguir um mestrado, tudo com perspectiva baixa e não tão promissora de impacto real.”

Bettina Rubin 

Bettina conta que o negócio começou já na pandemia, por volta de maio de 2020. Esse foi um período de aprendizado sobre lista de pedidos, gestão, uso do Instagram para as vendas e também sobre como desenvolver as formulações de seus produtos. Um dos desejos da empreendedora era o uso de matéria-prima local e que viesse de cadeias curtas de produção, com o objetivo de gerar menos impactos ambientais. Encontrá-las foi um dos desafios nessa jornada. Ela acrescenta que ainda há pouca opção e que formular um sabonete inteiramente de espécies próximas e nativas ainda é um sonho.

Como alternativa para conseguir usar as espécies nativas, Bettina se aproximou da Cadeia Solidária de Frutas Nativas, uma rede de produção de produtos alimentícios e cosméticos. “A ideia é saber a origem dos produtos, quem plantou, quem colheu, quem processa e quem transportou. E há valores agregados a isso, por exemplo, a Cadeia Solidária das Frutas Nativas é curta e conhecemos todos os atores, além dos valores de conservação ambiental atrelados a ela. Existe uma rastreabilidade e um processo de geração de credibilidade em cima disso. Temos certeza de que os elos são coerentes com os valores da própria marca até, enfim, chegar na credibilidade buscada pelo cliente final”, destaca a empreendedora sobre a importância dessa prática. A Yatay utiliza polpa de plantas como o butiá, a laranja, o dendê, a juçara e a guabiroba nas suas formulações e atualmente faz parte da Cadeia Solidária. 

Os aspectos de gestão foram outro desafio para a estudante – até porque é um assunto tipicamente pouco abordado no curso de Ciências Biológicas. Nesse e em outros aspectos, ela destaca que os aprendizados do curso do AsSsAN foram fundamentais.

“Esse curso da UFRGS é fundamental para a construção de uma nova realidade possível na nossa sociedade e para incentivar que os empreendimentos que vão surgir a partir da UFRGS sejam realmente sustentáveis, baseados na economia solidária, em cadeias curtas. Para que possamos vislumbrar um mundo diferente, é fundamental que ele siga existindo. Eu sou muito grata por ter participado do curso e quero que continue, para que outras iniciativas nasçam dele.”

Bettina Rubin

Também no ramo de cosméticos, mas focando em embalagens, Naieth Baggio da Silva e o seu empreendimento chamado Embalagem Nativa foram outro destaque no curso. Bióloga, professora e mãe, Naieth conta que nunca havia pensado em empreender, mas a atividade surgiu como uma opção de ampliar a renda com a chegada do primeiro filho, o que a motivou a criar uma marca de cosméticos, a Artemísia.

Durante o curso, conta, percebeu a necessidade também de se criarem embalagens sustentáveis para os produtos.

“Buscamos os óleos, as manteigas, os hidrolatos, tudo dentro da cadeia nativa preferencialmente, como hidrolatos de pitanga, guabiroba e guaçatonga. Tudo do RS; senão, do Brasil, pelo menos. Dentro dessa série de cuidados, usar uma embalagem pouco biodegradável ou plástica ou que não seja reciclável é uma dor. De que adianta eu cuidar tudo na produção se lá no final eu entrego algo com plástico ao meu cliente? Destoa da ideia de um produto de acordo com o meio ambiente.”

Naieth Baggio da Silva

Ela ressalta que o curso foi fundamental para que esse problema fosse notado e a ideia fosse amadurecida até virar um negócio. A biológa não imaginava que a ideia seria relevante a ponto de receber a mentoria: “mas dizem que os grandes empreendedores nascem de uma ideia, né?”, brinca.

Naieth conta que, para este ano, está em busca de fomentos, como o da incubadora Germina, para poder dar início ao projeto. Ela explica que tem tudo pronto para os editais, justamente por ter participado do curso, no qual aprendeu a realizar apresentações e fazer trâmites administrativos necessários para os pedidos de fomento.

A ideia é que as embalagens sejam de fibra do butiá – provavelmente a melhor opção em função da facilidade de aquisição e da rentabilidade – ou de açaí. “Isso é nativo do Rio Grande do Sul e vem ao encontro da Cadeia Solidária de Frutas Nativas. Tenho a ideia de incorporar o uso dessa fibra, já que hoje eles apenas compostam isso, o que não gera renda”, explica.  Além do setor de cosméticos, Naieth também considera o segmento alimentício como um bom nicho de mercado para as embalagens, já que a sustentabilidade costuma ser uma preocupação de consumidores de produtos naturais, veganos e vegetarianos.

Projeto científico e o mundo do empreendedorismo

Elisa Ilha é bióloga por formação e realizou mestrado na área de biologia marinha. A pesquisadora chegou ao curso do AsSsAN em função do projeto Botos da Barra, do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar) da UFRGS. A necessidade de buscar meios de fomento para o projeto, que visa salvaguardar uma cultura imaterial de cooperação entre os botos e os pescadores de tarrafa (um tipo de rede circular) na barra de Tramandaí, foi o que levou Elisa a buscar o curso de empreendedorismo. “Essa espécie de golfinhos é ameaçada de extinção, e os pescadores são nossos maiores aliados para preservá-las. Nós trabalhamos para manter de alguma forma que isso siga acontecendo”, ressalta.

Ela conta que, no curso, apresentou o conceito de “tainha sustentável” – em que a tainha é proveniente dessa pesca cooperativa como produto da sociobiodiversidade. No entanto, esse é apenas um dos possíveis eixos para trabalhar a preservação dessas espécies envolvidas. A ideia seria convencer restaurantes locais a comprarem esse pescado como uma forma de impulsionar o turismo de base comunitária, mantendo a ideia de cadeias curtas. Além disso, circular localmente o produto por pessoas que podem pagar por ele (já que o preço é maior do que pescados congelados de supermercado) e, com o tempo, pleitear subsídios para melhorar a situação dos pescadores como trabalhadores, uma vez que a condição deles envolve muita vulnerabilidade social. 

Um desafio é como fazer o consumidor valorizar esse produto a ponto de pagar mais por ele. Nesse sentido, entra a história de poder conservar uma espécie ameaçada de extinção, associada ao trabalho dos pescadores locais.

“[Queremos] Salvaguardar um patrimônio cultural imaterial que é a pesca cooperativa e explicar que essa pesca não afeta a fauna marinha. Nosso projeto traz esses valores para o consumo da tainha, garantindo a continuação da existência dessa prática cultural e, também, respeitando o espaço desses pescadores e sua soberania e segurança alimentar.”

Elisa Ilha

O projeto, entretanto, demanda financiamento. “E se nós conseguirmos fazer esse projeto de conscientização também ser entendido como uma estrutura que precisa de financiamento para fazer seu trabalho e pagar bem seus funcionários alunos e pesquisadores? Afinal, sabemos que na pesquisa há cada vez menos verba para cumprir com o que precisamos e queremos”, lamenta a pesquisadora. Ela destaca que, felizmente, o curso foi uma grande oportunidade nesse sentido: “O curso veio como um prato cheio para conciliar essa forma de trabalhar com produtos da sociobiodiversidade, alinhados ao empreendedorismo. Ele nos possibilitou a propulsão do projeto nessa via empreendedora, nos permitindo a apropriação desse novo mundo e da linguagem de negócios”, comemora Elisa.

“A busca do curso, da parte do empreendedorismo, na verdade, é por algumas demandas do projeto dos Botos da Barra. Tem muitas mãos trabalhando nele, e uma dessas vias nos faz de alguma forma chegar ao empreendedorismo, mas mais no sentido de: como podemos atingir mais pessoas? Talvez mudar um pouco a forma clássica de fazer ciência, de chegar a outros lugares.”

Elisa Ilha

Por outro lado, Elisa relata que foi um caminho bastante desafiador chegar a essa ideia de produto e aprender uma linguagem mais comercial. “É um desafio pensar como, saindo do mundo acadêmico, nós transformamos nossa comunicação. Como eu transformo todo conhecimento adquirido ao longo dos anos no sentido de poder conversar com a população de uma forma que isso seja incorporado em intenção pelas pessoas?”, pontua. Ela explica que, para convencer restaurantes a comprar o pescado, é preciso capacitá-los e identificá-los como amigos da pesca local, por exemplo.

Além disso, é preciso formular os fluxos e processos: como os pescadores vão entregar, quanto cobrar, quantos quilogramas eles podem entregar, qual a periodicidade de entrega, qual embalagem utilizar – é toda uma estrutura de empreendedorismo que precisa ser planejada. “O curso foi o espaço para pensarmos todos esses aspectos que, como a nossa base se dá pela educação ambiental e pela pesquisa acadêmica, não são o nosso chão”, complementa. Recentemente selecionado em um edital de fomento, o projeto está começando a colocar em prática o que foi trabalhado no curso.

Legislação brasileira

“Infelizmente, em termos legais, o que eu faço é ilegal, porque não existe uma legislação que compreenda uma produção tão pequena. Não é uma microprodução, é uma nanoprodução, e em casa”, lamenta Naieth, falando sobre sua produção na Artemísia. Bettina ainda observa que a legislação brasileira não contempla a cosmética natural artesanal – logo, a mesma legislação que regulamenta grandes empresas vale também para os pequenos negócios.

O problema é que, conforme essa legislação, a produção necessita de uma infraestrutura nos conformes da RDC 48 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Ela esclarece que essa resolução é fundamental e serve de base para que as produções mantenham boas práticas — como realizar operações-padrão de cada um dos produtos, como armazenar matérias-primas, dentre outras —, mas que não é possível obter total regularização. “Isso [a regularização] pode ser feito por duas vias: construir um laboratório do zero ou terceirizar a produção para um local que já tenha essa estrutura física e que possa processar os produtos. A legalização, então, acontece por produto, cada um tendo seu procedimento operacional padrão, o qual é escrito para regularizá-lo”, explica Bettina. O problema é que não é possível parar toda a produção para ter o dinheiro e o tempo de investir em toda essa estrutura — além do fato de algo artesanal supostamente não precisar de tamanho investimento, conclui.

Felizmente, a estudante também conta que está acontecendo uma articulação nacional para a regularização da saboaria e da cosmética natural. Essa iniciativa tem analisado legislações de outros países e está levando uma proposta para a Anvisa e um projeto de lei para o Congresso. “Talvez em breve tenhamos uma adaptação desse RDC 48 à realidade dos pequenos produtores”, conclui Bettina.