Demarcação de terra é a principal luta entre guaranis

Santiago Franco | Liderança guarani relata sua experiência na conquista do território onde hoje vivem 17 famílias na região de Barra do Ribeiro
(Foto: Flávio Dutra/JU)

“São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições”, diz a Constituição brasileira. Ou seja, constitucionalmente, os povos indígenas são reconhecidos como os primeiros e naturais donos desse território. Entretanto, a efetivação desse direito tem sido fruto de muita luta, embate que tem se intensificado com a nova “política indigenista” adotada pelo atual governo.

Santiago Franco, cacique guarani, está casado há quase 40 anos, teve oito filhos, três homens e cinco mulheres, todos casados. Desde 2014, ele e sua família, que compreende também 12 netos e quatro bisnetos, vivem na aldeia Yvy Poty, na região de Barra do Ribeiro, a 60 km de Porto Alegre, pela BR 116. Flor da terra, a tradução do nome da aldeia, vem de forma imediata quando Santiago fala da área que conquistaram depois de muito embate e sofrimento. À época, por acamparem próximo à rodovia, foram muitos os atropelamentos fatais que vitimaram os integrantes de sua comunidade. Atualmente, vivem na aldeia 17 famílias que somam 59 indivíduos, entre adultos e crianças.

Santiago, podes contar um pouco sobre a luta de tua comunidade pelo direito à terra?
Faz 20 anos comecei a trabalhar, a lutar pelo direito indígena. Na verdade eu sou (do) Conselho de Articulação que faz parte da luta pela terra, principalmente pela demarcação. Essa terra veio como uma compensação da duplicação da BR-116. Houve essa compra de terra porque aqui na região tinha muito acampamento guarani – Passo Grande, Peti. Nós morávamos na Coxilha da Cruz, acampados. A aldeia fica numa área de 100 hectares, tem bastante mata, e tem bastante recurso natural. Essa já é uma comunidade guarani.

(Foto: Flávio Dutra/JU)

Nesse tempo que estás na liderança, quais as principais lutas?
Mais demarcação da terra e também educação e saúde. Pra povo indígena, conseguir uma terra já é um avanço, é uma tranquilidade, mais segurança na comunidade, porque houve muito atropelamento naquele tempo de acampados. Não se tinha condição de trabalhar pra manter nossa cultura, a língua, a tradição. Depois que a gente conseguiu (a terra), já deu muita melhorada, porque a gente já tem um espaço pra plantar milho, melancia, ter uma casa tradicional, continuar praticando a nossa religião, nossa língua e o respeito que a gente tem pela natureza.

Como está o movimento no estado?
Nós temos uma organização, uma comissão de luta pela terra que tem abrangência em todo o Brasil e cada região, cada estado tem seu representante. E eu estou acompanhando isso – saúde, educação e demarcação de terra, que é a principal luta hoje, porque a área que a gente tem é muito pouca, muito pequena, então tem muitas famílias que continuam tendo falta da terra. Cultura guarani significa também espalhar, não ficar só num lugar. Cada um tem que ter o seu grupo, e cada um tem que conseguir uma área.

Tens alguma atividade por esses dias como liderança?
Eu tenho uma que vai complicar para nós, que é a mina Guaíba, que vai afetar a comunidade guarani aqui na região de forma direta e indireta. Estou acompanhando essa luta pra não sair essa mina. Vai afetar pelo ar, pelo rio, pela poluição de tudo. Vai afetar a nossa vida porque o vento vem trazendo a poluição pra nossa região, e aí vai causar muita doença.

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Tu dirias que a causa indígena não é só uma questão de terra, é também uma luta pelo meio ambiente?
Com certeza, porque o indígena vive principalmente com a natureza, ele não vive separado dela, então é muito importante que o ambiente seja limpo. É muito importante pra todo ser humano, não só pra índio. Seja branco, pra todo mundo, é importante que tenha esse ambiente melhor.

Como é o convívio de vocês com os vizinhos não indígenas?
É difícil, porque cada vez mais está se aproximando, porque o branco cresce muito rápido. E também vem se aproximando a cidade, mas mesmo assim a gente continua mantendo a nossa religião, a nossa língua. A gente não vai perder. Mas vai vir muita pressão, o crescimento da população, e tem que saber lidar com outra cultura. A gente convive com isso.

Qual foi o principal enfrentamento do qual participaste?
Eu tive uma luta muito forte aqui pra conseguir essa terra: muita reunião, muita conversa. Tive que ir a Brasília pra comprometer o governo pra que se conseguisse uma área. Foi uma luta muito forte, com muito cacique, não só liderança, mas também cacique espiritual. Isso foi em 2000, 2001, 2002. Eu ía em Brasília, reclamava da duplicação e que não foi conversado com a comunidade. Então a gente pressionava porque o DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) já mandava o pessoal pra dizer que tínhamos que sair. A gente estava muito preocupado com isso, nos mobilizamos e fomos até Brasília pra reclamar. Com muita luta, sofrimento. A gente não tem condição de pagar passagem. O único que dava apoio pra nós era o Cimi (Conselho Indigenista Missionário).

(Foto: Flávio Dutra/JU)

Disseste que, além das lideranças que fazem as negociações, têm também os caciques espirituais. Qual o trabalho do cacique espiritual?
Na verdade, eles fazem um ritual que acompanha essa luta pra que a gente consiga os resultados com muita paz, com muita conversa, não com violência. É uma palavra muito bonita pra que tenha consciência dos dois lados, do guarani e do juruá (os não indígenas). É muito importante isso. Também trabalha pela saúde pra que toda criança tenha saúde, alegria, felicidade. Por isso que a religião espiritual acompanha essa luta. Também acompanha na viagem, mas ele fica na comunidade,
faz ritual.

E as lideranças femininas? Hoje existem duas caciques mulheres no estado, não é?
Tem uma guarani e uma charrua. É muito importante isso porque hoje também a mulher acompanha na luta. Na verdade, a mulher e o homem são iguais na luta, é o mesmo sentimento que a gente tem. É muito importante ter cacique mulher.

A mulher é diferente na busca dos direitos indígenas?
Não, mas a fala é muito mais forte que a do homem, porque tem mais coragem, porque é ela que entende a vida, não é? Nós, os guarani, acreditamos muito na nossa mãe, principalmente na nossa avó.

Além da questão da terra, como estão as outras reivindicações?
Essa luta de saúde e educação tá mais complicada hoje. O Estado não reconhece como atendimento diferenciado, cada vez mais se afasta disso. Saúde, por exemplo: hoje não tem médico, faz três meses que foi demitido e não foi contratado mais (o atendimento é oferecido no posto de saúde na cidade). E na educação também é complicado porque o Estado não reconhece como área demarcada e aí não quer fazer um prédio pra escola. A gente vai ao ministério público e leva o problema, reclama, só que muitas vezes dizem que não tem recurso, não tem como fazer. É complicado.

(Foto: Flávio Dutra/JU)