Eleonir Fidelis: a rotina intensa das aulas e encontros na CEU e no RU

Câmpus Saúde | Estudante de Enfermagem descreve sua adaptação na Universidade e a troca com outros estudantes indígenas

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

Acordar cedo, sair da Casa do Estudante, no Câmpus Central, pegar a bicicleta e em minutos estar na Escola de Enfermagem. O estudante do 4.º semestre de Enfermagem Eleonir dos Santos Fidelis não esconde o quanto gostava da rotina intensa de aulas, mesmo contando os dias para o fim de semana e com isso o merecido descanso.

Lembra também dos almoços no Restaurante Universitário (RU) em que só tinha 10 minutos para comer antes da aula seguinte. O RU era o momento com os amigos no meio do dia, o encontro entre os desencontros das aulas, horários e câmpus diferentes que dificultavam essas conversas.

Eleonir sorri ao recordar das trocas com estudantes indígenas que moram na Casa do Estudante (CEU). Natural de Nonoai, a 409,5 km de Porto Alegre, e de etnia Kaingang, precisou se mudar para a capital. Conta que sente falta de quando alunos de diferentes etnias se reuniam na CEU para conversar, falar de suas experiências e dar apoio uns aos outros.

“A gente vem sem querer muito essa rotina, mas depois que cria vínculos a gente sente falta.”

Eleonir dos Santos Fidelis, estudante de Enfermagem.
Encontro de culturas

O estudante precisou de uma pequena pausa antes de falar do evento que mais o marcou dentro da Universidade: o VII Encontro Nacional de Estudantes Indígenas, que aconteceu entre os dias 21 e 24 de outubro de 2019 na Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança (Esefid). “Reuniram-se vários povos, foi o momento mais marcante aqui dentro. Os rituais, as culturas diferentes”, sorri.

A presença da natureza faz do Câmpus Olímpico o favorito de Eleonir. Sentar à sombra de uma árvore, olhar os quero-queros que já não são meros visitantes, mas moradores. E disso ele já sentia falta antes do isolamento social, quando trocou de curso e de câmpus também.

Eleonir dos Santos Fidelis – Katoin, em seu nome Kaingang – permanece a maior parte de seus dias em sua aldeia, a Vãn Ká, localizada entre o Lami e Itapuã, na região metropolitana (Foto: Flávio Dutra/JU)
Começar, recomeçar e se adaptar

A primeira vez que tentou ingressar na UFRGS foi para Enfermagem, porém não conseguiu atingir a nota necessária para a única vaga. Na segunda tentativa, em 2013, optou por outro curso: “A minha prima queria fazer Enfermagem também e, como era uma vaga só, eu escolhi Educação Física”, conta. O incentivo para estudar na Universidade veio dos tios, egressos da instituição.

O início, além de não ser no curso que queria, foi conturbado. Eleonir não tinha computador para acessar o conteúdo disponibilizado pelos professores. Não conhecia as plataformas utilizadas pela UFRGS, como o Moodle. E, por ser um dos primeiros estudantes indígenas no curso de Educação Física, sentiu a ausência de um acolhimento.

Perto de se formar, já no sétimo semestre, quando começou o estágio obrigatório viu que não queria ser um profissional de Educação Física. “Eu falei com meu pai e minha mãe que tinha medo de não dar conta, porque é bem mais puxado [que o curso de Enfermagem]. Eles me falaram para trocar e não ficar em um curso que eu não queria”, lembra.

Com o Ensino Remoto Emergencial, o estudante precisou se adaptar às demandas online. Colocou internet em casa e com um computador “velhinho”, como ele mesmo diz, está acompanhando as aulas. “Eu não sabia trabalhar muito bem com esse método, mas tive que acabar me adequando para não precisar trancar o semestre”, relata. “Não sabia nem selecionar a qualidade da internet, tive que aprender.”

Expectativas para o início do estágio

O estágio que seria feito no início do semestre, em março, precisou ser adiado. Depois de meses de espera, a turma de Eleonir vai retornar esta semana à prática do estágio em Enfermagem. Serão divididos em grupos de dois ou três com horários alternados e atividades intercaladas entre o Hospital de Clínicas de Porto Alegre e o laboratório.

Um misto de ansiedade, alegria e temor borbulha dentro do estudante. “Medo de chegar lá e esquecer os procedimentos. Vou chegar com a mão suando”, brinca. Mas ainda sim não vê a hora de colocar em prática o que aprendeu em teoria. “Quero que comece logo até pra ver como é.”


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto do JU e da UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: