Elisa Lucas: facetas de um mesmo rosto

Câmpus Centro | Diretora de Artes Cênicas do Instituto de Artes relembra com carinho seus vínculos com a UFRGS

Talvez Elisa Martins Lucas, atriz, pesquisadora e doutora em Ciências do Espetáculo, não tenha nascido com os olhos de ressaca, os olhos de cigana oblíqua e dissimulada que Machado de Assis descreveu, mas certamente trouxe consigo, desde a infância, a vocação que um dia lhe permitiu encarnar Capitu em mais de vinte e cinco cidades gaúchas.

Nascida em Rio Grande, no litoral sul do estado, Elisa pode ser definida por quem ela não é: a verborrágica boneca de pano Emília, em seus primeiros espetáculos no Centro Cultural Águia Branca; a inquieta protagonista de Acordei Aposentada, intervenção teatral que fez para os servidores recém-aposentados da UFRGS; ou mesmo a feminina e sacroprofana figura bíblica de Maria Madalena, que interpretou em A Dama dos Evangelhos, peça que é resultado de suas pesquisas em processos de criação dramatúrgica do ator. 

A Universidade entrecruza a vida de Elisa como as predestinadas voltas de uma história enlaçam os personagens: em visitas à capital com a mãe, que à época passava por tratamento de saúde na Santa Casa de Misericórdia, acabou encontrando, em um almoço, professores do Instituto de Artes que a ensinaram o caminho até o Departamento de Arte Dramática (DAD), espaço que viria a ocupar primeiramente como estudante e depois como servidora técnica-administrativa no cargo de Diretora de Artes Cênicas.

“Quando entrei lá, encontrei tudo o que eu queria e não sabia: a questão do trabalho corporal, o trabalho vocal, o jogo, a improvisação, o autocuidado – se o ator não se percebe, não se aceita e não se cuida, ele não vai conseguir ser um veículo para aquilo que a obra ou a performance quer passar, porque tudo é um ato de comunicação”

Elisa Martins Lucas
Uma hóspede da Universidade

“Porto Alegre e a UFRGS me mostraram um outro mundo possível, tanto pelos benefícios – que fui extremamente privilegiada de ter recebido e por que sou grata – quanto pelos vínculos”, conta ao lembrar-se das vivências na graduação. 

Elisa ingressou no bacharelado em Artes Cênicas em 2000 e logo se tornou parte da comunidade estudantil. Morou e trabalhou na Casa do Estudante, passou a frequentar o ambiente acadêmico e dedicou-se a promover arte e cultura na Universidade. Hoje, à frente de diversas ações de extensão no Instituto de Artes, a pesquisadora-atriz reflete sobre o que significa trabalhar num espaço em que antes estudava: “Eu me percebo com uma sensação de muito pertencimento e um comprometimento muito grande […] Trabalhar na UFRGS é uma possibilidade de retribuir tudo o que a Universidade fez por mim e de fazer parte dessa vida tão colorida, tão múltipla, tão diversa com a arte.”

Como projeto de graduação, Elisa Lucas decidiu valer-se do desejo pessoal para experimentar a intersecção entre arte e literatura. Assim nasceu Confesso que Capitu, espetáculo dirigido por Roberto Birindelli que procura desvendar o desejo da enigmática personagem de Dom Casmurro. Ao mesmo tempo, a peça também é um exercício de atuação criativa, em que os atores viram autores, tema este posteriormente explorado por Elisa em mestrado e doutorado.  

“A Capitu, para mim, marca o meu ingresso no teatro profissional em Porto Alegre. É um espetáculo que iniciou na Universidade, integrou a programação do Teatro, Pesquisa e Extensão (TPE), fez uma apresentação no Portas Abertas, participou de eventos da Letras”, conta. Elisa encena o espetáculo há 17 anos, tendo circulado com a apresentação por várias cidades, inclusive com uma montagem na Universidade de Sevilha, na Espanha. O sucesso de crítica do espetáculo permitiu que surgisse o Grupo Capitu, ação que realiza projetos teatrais com foco na relação espectador-ator. 

Os holofotes de casa

Sem espetáculos, sem plateia, sem ensaios. Nada de reuniões em cafés, bares ou em sala de aula. Essas foram as limitações que a pandemia de covid-19 reservou para quem outrora aproveitava uma vida expansiva e abarrotada de encontros e pessoas. 

Para Elisa, a casa transformou-se em palco, e as atividades não pararam: utilizando iluminação caseira, a atriz, influenciada por diretores ao redor do mundo, se aventurou em trabalhos audiovisuais. “A rotina da pandemia foi começar a aprender esses elementos [da produção audiovisual], questões operacionais que eu nunca tinha feito, e de dialogar e aprender para levar essa experiência ao espectador”, pontua. 


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto entre o JU e a UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: