Empreendedorismo de startups tem terreno fértil no ambiente acadêmico e na área tecnológica

Inovação | Estudantes que desejam desenvolver seus produtos ou serviços têm nas universidades e no uso da tecnologia importantes apoios para os primeiros passos. Além disso, as startups são um dos poucos segmentos do mercado que cresceu nos últimos anos, especialmente no período pandêmico

*Foto: Flávio Dutra/JU

Ainda no 3.º semestre do curso de Fisioterapia da UFRGS, em julho de 2020, o acadêmico José Adolfo Montenegro Laurito já havia experienciado o empreendedorismo social dentro da Universidade, mas sem o direcionamento à temática da saúde e da prática fisioterapêutica. O interesse pela tecnologia, pela inovação e o gosto da primeira experiência foram fundamentais para o estudante ingressar na startup que criou a plataforma PRAVC, um aplicativo que permite ao profissional de fisioterapia acompanhar na palma da mão o tratamento de pacientes com Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Hoje com 21 anos e no 6.º semestre do curso, José lembra que tudo começou em uma reunião com os professores Alexandre Simões e Luciano Palmeiro em 2020, momento em que eles buscavam interessados para formar a equipe que pleitearia a participação no programa de Iniciação Empreendedora daquele ano. Esse programa objetivava o desenvolvimento de propostas de negócio por equipes de alunos de graduação e mentores, com apoio da Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico (Sedetec). Nesse encontro, os alunos puderam apresentar aos professores os projetos dos quais fizeram parte, bem como as motivações em participar de tal iniciativa em que as habilidades empreendedoras seriam instigadas e necessárias.

Com o time composto por dois professores e três acadêmicos, o nome da startup foi criado ainda nos primeiros meses e, em meio à pandemia de covid-19, iniciou-se a construção do app. O objetivo era melhorar a relação entre as milhares de pessoas com AVC – a principal causa de incapacidade no Brasil, conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS), com uma incidência anual de 108 para cada 100 mil habitantes – e os profissionais de fisioterapia.

“O nome PRAVC brinca com a ambiguidade de sentido ‘para você’ e ‘para AVC’, sintetizando muito nosso objetivo: construir uma solução personalizada capaz de atender às demandas da pessoa com AVC e do fisioterapeuta”

José Adolfo Montenegro Laurito

Beneficiando-se das oportunidades empreendedoras garantidas pelo ambiente universitário – áreas em comum como pesquisa científica, tecnologia, inovação e uma rede de networking relevante, ou seja, clientes, fornecedores, professores, colegas de trabalho e amigos – nesses dois anos, o aplicativo PRAVC está atualmente em fase de programação. O próximo passo, agora, é ingressar em uma incubadora do Parque Científico e Tecnológico (Zenit) da UFRGS a fim de inserir a startup no mercado efetivamente. A incubadora pretendida é a do Centro de Empreendimento em Informática (CEI), porque, segundo os empreendedores, oferece grande suporte técnico a projetos de inovação tecnológica.

Com isso, a PRAVC se tornou um novo embrião de negócio no RS, no último ano, somando-se às quase mil startups existentes no estado, de acordo com a Associação Brasileira de Startups. Conforme dados gerais da Associação, de 2015 até 2019, o número saltou de uma média de 4.100 para 12.700 empresas criadas no país, representando um aumento de 207%. Hoje, o Brasil tem 14.065 startups distribuídas em 78 comunidades e 710 cidades brasileiras. No ranking de estados com mais startups no Brasil, lidera São Paulo, com 4.027 empresas, seguido de Minas Gerais, com 1.240, Rio Grande do Sul, com 976, e Rio de Janeiro, com 880. Em reportagem publicada pelo JU em 2016, o número de empresas desse tipo cadastradas na entidade era de 4.200.

Perfil do novo empreendedorismo  

Entre os alunos de graduação que iniciaram suas startups, observa-se, predominantemente, um perfil de empreendedores jovens, sobretudo os chamados millennials e pós-millennials – nascidos a partir de 1996 e que cresceram com a internet, sendo que a maioria costuma ganhar um celular por volta dos 11 anos e usa as redes sociais já na adolescência. Segundo o doutor em Sociologia Felipe Neves, autor da tese “A cooperação interfirmas na perspectiva das startups: uma análise dos ambientes de inovação do Rio Grande do Sul“, a média de idade dos empreendedores é de 33 anos (chamados nativos digitais). Na área de moda, por exemplo, a maioria só tem 18 anos – a chamada geração Z. “Esta tendência confirma o perfil de empreendedor jovem, com conhecimento em tecnologia e inovação, que estabelece empresas entrantes nesses ambientes”, observa o pesquisador.

Outro dado que indica que as startups são empresas em recente ascensão é o fato de que cerca de 70% delas ingressam nos ambientes de Inovação a partir de 2017. “Tanto a data de início de operação das startups analisadas como o começo das Relações de Cooperação Interfirmas (RCIs) se referem a fenômenos recentes. Do total das principais RCIs avaliadas, 75% se estabeleceram a partir de 2018 e o maior número delas, 39%, foi estabelecido no ano de 2019”, destaca Neves.

Além disso, segundo Neves, quase 60% das empresas avaliadas no seu trabalho de doutorado têm origem como empresa incubada em parques ou incubadoras, classificadas como iniciantes, pertencentes a um dos principais tipos de mecanismos de geração de empreendimentos inovadores. “Apesar de a maior parte da amostra estar no estágio inicial, as startups não se limitam ao mercado local, a exemplo de micro e pequenas empresas tradicionais. Elas estão no cenário nacional (39%), estadual (19%), na região Sul do país (17%) e chegam inclusive ao mercado internacional (13,5%), não se restringindo ao mercado sul-americano (2,1%)”, radiografa o doutor em Sociologia a partir dos dados de sua pesquisa.

Com base nisso, Neves analisa que a estrutura local pode até ser uma característica desse novo tipo de empresa, porém ela também está atrelada a um novo formato de estratégia de mercado, de formação de parcerias e de modelo de negócio inovador. Conforme sua pesquisa, as firmas podem até ser regionalizadas, mas esse modelo vem sendo substituído por novos tipos de redes, como as redes high-tech.

Também devido à situação econômica do país e à falta de incentivos à Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), essas empresas tendem a explorar o cenário internacional. “Muitas vezes são procuradas por conta do capital humano, não só em razão de questões econômicas ou financeiras. As grandes empresas multinacionais ou firmas superespecializadas levam do cenário nacional empreendedores e cientistas com alta capacidade de atuação em suas áreas para dentro de suas superestruturas no exterior”, ressalta o cientista. Por outro lado, há ainda a busca das empresas estrangeiras por tecnologias e ideias “made in Brazil”, o que, frequentemente, é um benefício às organizações em relação ao valor agregado de baixo custo tanto de matéria-prima quanto da produção de pesquisa e desenvolvimento no Brasil.

Nativos digitais

Dentro dessas características e faixa etária, José e a acadêmica de Contábeis da UFRGS Natália Portela, 26 anos, estão perfilados. Ela e o sócio Deivid Bastos, aluno de Administração da UFRGS, desenvolveram uma startup na área da educação, pensada de forma prática para o meio universitário. “Buscamos centralizar nela diversas atividades práticas extracurriculares voltadas para o desenvolvimento do aluno, proporcionando a oportunidade de aplicação dos conhecimentos teóricos aprendidos na sala de aula”, conta a estudante.  A ideia acabou sendo amadurecida durante o AcelerEA, programa de aceleração de startups e negócios inovadores, pensado pelo Parque Zenit e pela Escola de Administração (EA-UFRGS).

Batizado de Praxi, o empreendimento facilita o encontro do aluno com projetos de extensão de diversas instituições de ensino superior, possibilita a interdisciplinaridade e a amplia o networking. Conforme os autores, a ideia é dar uma resposta a estas indagações: você sabe como e onde procurar atividades de capacitação? Já se viu procurando atividades de extensão por inúmeras horas? Sabe das atividades da nossa própria instituição de ensino? Segundo Natália, a razão da iniciativa surgiu após participarem de projetos acadêmicos com universitários e perceberem a necessidade do mercado. “Vimos as dores que tantos alunos enfrentavam [ao buscar esses cursos] e optamos por montar uma empresa”, destaca.

A plataforma é gratuita, ou seja, o negócio ainda não foi monetizado. “Claro, [monetizar] está como prioridade nos próximos passos, pois, para continuar ajudando os alunos, precisamos gerar receita”, projeta Natália. Como próximos passos, além de avançar nos editais nos quais estão participando, o objetivo é lançar a nova startup, já que, durante quase um ano, as premissas e o teste de funcionalidade foram validados com os estudantes.

Nosso foco agora é dar suporte extracurricular ao universitário, ajudando-o a chegar mais preparado ao mercado de trabalho, mostrando o caminho que deve ser percorrido para chegar mais perto do seu sonho e a aproveitar as oportunidades disponíveis durante a sua graduação tanto no ecossistema da UFRGS como no mercado em geral.

Natália Portela
Mudança histórica na cultura do empreendedorismo

O empreendedorismo vem sendo um tema amplamente abordado pela academia nas mais diferentes áreas do conhecimento. Apesar de sua natureza clássica, o próprio termo é polissêmico, gerando uma série de manifestações e sentidos amplamente diferenciados, que podem confundir. Conforme Neves, a Sociologia do Empreendedorismo abarca um campo de discussões amplas sobre a temática. “Pesquisadores, como nós do Grupo de Pesquisa Sociedade, Economia e Trabalho (GPSET), entendemos que assuntos correlatos ao empreendedorismo podem trazer diferentes nuances teóricas ao debate acadêmico. A figura do empreendedor acadêmico, as startups geradas a partir de ambientes de inovação relacionados ao meio acadêmico e à universidade, discentes e docentes que empreendem a partir de suas pesquisas científicas, o próprio empreendedorismo digital são temas que geram grande interesse para a comunidade acadêmica e, em especial, para a Sociologia”, discorre o pesquisador.

O envolvimento de Neves com a temática do empreendedorismo começou na graduação e no mestrado. Ele fez graduação em Ciências Sociais e também é formado em Administração, sendo que seu primeiro trabalho na área foi realizado em uma organização vinculada à Microsoft, dentro de um ambiente de inovação. A última etapa da pesquisa para o doutorado teve coleta de dados já na pandemia de covid-19. “Contrariando parte da literatura sobre a temática, que enfatiza a importância do local físico como fator impulsionador de interações sinérgicas entre agentes da iniciativa privada, governo e academia, para a nossa surpresa, provavelmente, com reflexo da própria pandemia, as startups estão cooperando para além dos ambientes de inovação e de qualquer espaço físico”, explica.

Segundo ele, isso se deve ao fato de que essas relações estão cada vez mais balizadas por redes digitais, networkings e empreendedores que estabelecem vínculo com as startups, justamente por elas não terem características que as fixem em um determinado território – atendendo melhor, assim, à própria dinâmica do sistema capitalista. “A cultura do empreendedorismo sofreu uma mudança histórica a partir dos processos de globalização e da precarização das leis de trabalho particularmente no Brasil”, lembra Neves. Com isso, a alternativa ao trabalhador é, muitas vezes, tornar-se um micro ou pequeno empreendedor, principalmente na informalidade. “Existem muitas mazelas socioeconômicas e ainda há um gap muito grande de regulação”, conclui.

Contudo, o empreendedorismo inovador ou digital faz parte de uma arena um pouco diferente. O empreendedor brasileiro, por exemplo, tem por característica ser muito criativo: o Brasil ocupa o 29.º lugar no ranking internacional de criatividade, de acordo com o Global Entrepreneurship Monitor 2021. Além disso, o brasileiro está em 6.º lugar em intenção de empreender entre 43 nacionalidades pesquisadas. “Muitas vezes os atores se tornam empreendedores por uma oportunidade que encontram na academia ou em suas redes de relacionamento”, destaca. E jovens como alunos de graduação, em especial, vislumbram oportunidades de negócio a partir de ideias e de projetos a que estão vinculados na academia.

Apoio na Universidade

A Universidade tem uma rede de incubadoras – composta pelo Centro de Empreendimentos em Informática (CEI-UFRGS), Incubadora Tecnológica Hestia­­­, Incubadora Empresarial do Centro de Biotecnologia (IECBiot), Incubadora Tecnológica Empresarial de Alimentos e Cadeias Agroindustriais (ITACA), Incubadora Multissetorial Zenit (IMZ) e a Incubadora Multissetorial do Litoral Norte (Germina) – que apoia as pequenas empresas ou startups nas primeiras etapas de desenvolvimento. Bolsistas, professores e materiais são disponibilizados para as iniciativas. Conforme a diretora do Parque Zenit da UFRGS, Roberta Bussamara, a Universidade hoje oferece um amplo ecossistema de inovação, o que significa uma rede de atores cujas ações contribuem para o desenvolvimento de ambientes de inovação e de apoio, de estímulo e promoção do empreendedorismo inovador.

Com isso, o objetivo é estimular startups que possam ser incubadas a se desenvolverem. A diretora do Zenit ainda destaca que o empreendedorismo oferece possibilidades para além da criação de um produto ou serviço. “Startups para melhorar processos de trabalho e gestão de negócios, desde uma lavanderia até um hospital, são muito bem-vindas e importantes”, enfatiza. Em novembro de 2021, Roberta e a administradora e gestora de projetos e serviços do Zenit, Ana Paula Matei, assinaram um artigo para o JU no qual fazem uma análise mais ampla da relevância de a Universidade ter uma estrutura, um ambiente de tecnologia e inovação, assim como uma cultura própria de empreendedorismo. Atualmente, existem 86 empresas criadas e desenvolvidas na UFRGS: 32 na área da tecnologia da informação, 28 em serviços, 15 em biotecnologia e 11 em engenharia.

Startups unicórnio

Na outra ponta do universo das startups, estão as chamadas startups unicórnio. A nomenclatura vem do fato de, para atingir essa posição, a empresa precisar ter um valor de mercado de mais de US$ 1 bilhão (mais de R$ 5,6 bilhões) – algo tão difícil de conseguir quanto encontrar a criatura mítica. No Brasil, são 25 startups unicórnio – das quais 11 chegaram a essa avaliação de mercado bilionária em 2021, espalhadas pelo setores de e-commerce, mídia, fintech, segurança e logística.

Algumas das maiores empresas do mundo começaram como startups, até se tornarem startups unicórnio. Entre elas, estão o Netflix, o Google, a Uber e a empresa de pagamento on-line PayPal.

Tipos de startups:

As startups podem ser divididas de várias formas, sendo as principais entre os tipos de negócio ou nichos em que atuam:
B2B (Business to Business): em português, negócios para negócios, esse tipo de startup atende a outras empresas em lugar do consumidor final diretamente. Um exemplo é o 99 corporativo, serviço de transporte para empresas.
B2C (Business to Consumer): em português, negócios para consumidores, essa startup fornece um serviço para o consumidor final. Um exemplo é o Uber, serviço de transporte voltado ao consumidor diretamente.
B2B2C (Business to Business to Consumer): em português, negócios para empresas para consumidores. É utilizada quando uma empresa faz negócios com outra visando uma venda para o cliente final. O Ifood é um exemplo de uma startup que faz parceria com outras empresas (restaurantes) para ajudar na venda para clientes.

Já os nichos onde atuam variam de acordo com a área da empresa. FinTech, HealthTech, EdTech, LawTech são nomenclaturas para definir startups no ramo, respectivamente, de mercado financeiro, saúde e medicina, educação, direito.