Ensaio | Janeiro/Fevereiro 2020

* Publicado na Edição 229 do JU

O convite: fazer um ensaio fotográfico com pessoas vivendo com AIDS.
Pensei: vamos reproduzir ou transcender Cazuza?
A proposta: despir o preconceito e o corpo.
Pensei: corpos transformados pela lipodistrofia, corpos transformados pela Aids. E a minha autoestima onde fica? Não vou fazer.
Foi dito: podes fazer com roupa.
Fiz sem.

Não por convencimento. Por enfrentamento. Lidei com meus preconceitos e me despi. Fazer as fotos não foi difícil, estávamos só entre nós. Pessoas vivendo com Aids, no corpo ou no espírito, alguns com HIV, outros com o
entendimento do significado da Aids e sem HIV. Mas todos transformados.

O difícil foi imaginar as fotos sendo vistas por pessoas sem Aids, sem a compreensão dos muitos significados da doença.

De fato, o corpo é o que menos importa nesse processo todo, apesar de ser o que mais as pessoas que não vivem com Aids enxergam. Desde Cazuza.

No caso destas fotos, elas o transcendem e mostram as mudanças mais essenciais. Expõem pessoas vivas onde o viver com Aids foi transformado em força, em sofrimento e em poder de superação. Em sentimento e em solidariedade.

Elas retratam a essência do viver com Aids: a própria ousadia de continuar vivendo! Os corpos nus nada mais mostram que vida e que viver transforma.

Carlos Ebeling Duarte vive com Aids há quase 30 anos. Foi membro do Conselho Nacional de Saúde de 2002 a 2005 e de 2012 a 2015. Arquiteto, voluntário do GAPA-RS desde 1996, é atualmente vice-presidente. Mariane Leal é fotógrafa documentarista e produziu as imagens desta página para uma exposição que circulou pelo Rio Grande do Sul ao longo de 2019.