Escola é lugar de pesquisa

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Ensino Fundamental | Com projeto de pesquisa sobre fake news, estudantes de Canoas são selecionados para mostra internacional no Peru
Alunos e professor se preparam para apresentar pesquisa em Mostra no Peru (Foto: Flávio Dutra/ JU)

A viagem marcada para setembro empolga os secundaristas Beatriz Dutra, Victor Rocha, Saimon Carvalho e Juan Rodrigues. Dos quatro, apenas Beatriz já viajou de avião. Eles já pesquisaram fotos do destino cheio de diversidade que os espera: o Peru. “É lindo! Precisamos arranhar um espanhol agora”, concordam.

Quando o então professor de história dos jovens, Alysson Bentlin, propôs a leitura de livros no ano passado para uma atividade de resenha, eles não imaginavam que desse “trabalhinho para passar de ano” iria nascer a pesquisa sobre fake news que agora os levará à XII Muestra Científica Latinoamericana, na cidade de Trujillo, Peru.

A Escola Municipal de Ensino Fundamental Sete de Setembro, de Canoas, onde estudaram até ingressarem no ensino médio este ano, fica na Av. do Nazário, local afastado e de pouca sinalização – o GPS não reconhece o lugar e indica outra localização. A instituição opera com estrutura provisória há cinco anos. As salas ficam em contêineres, o que, em dias de chuva ou de muito calor, torna as aulas desconfortáveis, conforme o relato da diretora Tatiana Valente.

Esses desafios, conhecidos da educação pública brasileira, não impedem de florescer a proposta de transformar a escola em um lugar de pesquisa, ensino e extensão. “Nosso quadro de professores é de formados pela UFRGS. Nos perguntamos se já não era a hora de a escola ser produtora de conhecimento. O ensino é regular. A extensão são os passeios pedagógicos, e a pesquisa é com método científico”, explica o docente.

Em 2018, já no segundo ano do projeto, o professor Alysson ofertou dez livros à classe do nono ano, turma em que então estavam matriculados Beatriz, Saimon, Juan e Victor. Entre as obras estava 1984, clássico do escritor George Orwell, e foi dessa leitura que vieram as melhores resenhas da turma, inicialmente as de Saimon e Beatriz e, mais tarde, as de Juan e Victor. Alysson os convidou para participar da pesquisa que concorreu à Mostra IFCITEC (do Instituto Federal em Canoas), à Mostratec (maior feira de tecnologia e ciência da América Latina em Novo Hamburgo) e à 1ª Mostra de Projetos da 27.ª Coordenadoria Estadual de Educação (27.ª CRE). 

Metodologia
Dados da pesquisa revelam que 95% dos entrevistados do ensino fundamental acreditam em alguma fake news (Foto: Flávio Dutra/ JU)

A tarefa árdua da pesquisa consumiu turnos extras dos alunos e do professor. Foi preciso definir como as fake news se articulavam com o livro de Orwell. A história de 1984 se passa em uma Londres dominada por televisores que controlam a vida de todos. O personagem principal da distopia é Winston Smith, que trabalha no Ministério da Verdade, onde é responsável pela propaganda do partido do “Grande Irmão” e por reescrever o passado. Conceitos como “nova-língua” e “reinvenção da história” foram formas de relacionar os assuntos.

“Ouvia estudantes falarem que a terra é plana ou que vacina causa doença. Os memes simplificam muito os debates e diminuem a capacidade cognitiva dos indivíduos, assim como a nova-língua em 1984”, relaciona Alysson. 

A segunda parte do processo foi elaborar um questionário para ser aplicado na pesquisa. O grupo escolheu cinco das dez fake news que formaram o questionário – as outras foram escolhidas pelo professor. “Depois desse trabalho, eu questiono tudo. Vejo algo nas redes e vou pesquisar, pois pode ser mentira”, relata Beatriz.

A hipótese era de que a religiosidade iria influenciar nas respostas dos entrevistados, assim como o nível de escolarização e a qualidade das escolas. Os questionários foram inicialmente aplicados em cinco escolas – quatro públicas –, incluindo ensino fundamental, ensino médio e ensino médio técnico. A hipótese da religião, pela amostra, não se confirmou; já a da escolaridade foi certeira. 

No ensino fundamental, 95% dos respondentes acreditaram em ao menos uma das fake news apresentadas contra 60% do ensino médio regular. No ensino médio técnico (Instituto Federal), apenas 30% dos entrevistados acreditaram em alguma mentira. Segundo a pesquisa, as notícias falsas mais marcadas como verdadeiras envolviam questões políticas ou de gênero.

Feiras e premiações

O projeto foi o vencedor da FECET (Feira de Ciências da Escola) e tirou o primeiro lugar na IFCITEC, conquistando classificação para participar da Mostratec. “Nos três dias da Mostratec eu mal conseguia dormir”, conta Beatriz. Nessa feira, um dos examinadores considerou que o grupo não tinha mantido o padrão de produção nas cartolinas. “Tínhamos cartolinas de cores diferentes, o examinador não gostou. Falei que éramos de uma escola municipal, mas não adiantou”, relata Juan. O grupo foi finalista. Já na Feira do Município de Canoas (FEMUCITEC), eles conquistaram o terceiro lugar geral.

Eles foram convidados a participar da 1ª Mostra de Projetos da 27.ª Coordenadoria de Educação, evento em que ganharam credenciamento para a feira peruana. “Cheguei em casa gritando que iria viajar para o Peru. Acharam que eu estava louco”, lembra Victor. Saimon, que neste ano ingressou no Instituto Federal, afirma que a experiência causou sentimentos diferentes: “Foi legal por ser um trabalho importante, mas triste porque muita gente acredita nas mentiras”. 

A pesquisa foi importante para impulsionar o sonho desses jovens e estimular as crianças mais novas. No futuro, Beatriz pensa em ser aeromoça, Saimon pretende atuar na área elétrica, Victor quer ser professor de matemática e Juan cogita cursar engenharia. A diretora Tatiana afirma que a cultura da pesquisa “pegou” na escola. “Os pequenos já aprendem a fazer cartazes nos moldes das feiras. Eles perguntam quando poderão ganhar troféus”, conclui.

Para ajudar os alunos da escola Sete de Setembro a viajarem para o Peru, você  pode entrar em contato ou ainda doar pela Vakinha.

http://vaka.me/640144
Telefone: 3236.2567
E-mail:
escola.sete@yahoo.com.br


Bárbara Lima

Estudante de Jornalismo da UFRGS