Espaços culturais criam possibilidades para crianças e jovens de periferias da capital

Cultura | Oficinas e outras atividades estimulam a criação e a sensibilidade, além de oferecerem capacitações em diferentes áreas de atuação

*Foto: Galpão Cultural/Divulgação

A arte transforma vidas e pode mudar completamente o futuro de crianças e adolescentes. Apesar de não ser considerado um setor essencial aos olhos do poder público, a cultura é fundamental para despertar a sensibilidade e o instinto criativo do indivíduo. A arte nos faz vislumbrar saídas, incentiva o imaginário, proporciona descobertas pessoais, seja através da dança, do teatro ou do desenho. 

Conseguir acessar ambientes que possibilitem o trabalho de cultura para jovens e crianças, no entanto, não é algo fácil na capital. Dos 94 bairros existentes em Porto Alegre, apenas nove possuem um centro cultural administrado pela prefeitura, sendo a maioria localizada no centro da cidade, onde é possível ter acesso a museus, teatros, bibliotecas e salas de cinema. Pode-se pensar que fora do perímetro central exista um deserto de espaços culturais, mas e o outro lado da diversidade artística regional? E a produção cultural que surge – e muitas vezes é autofinanciada – nos bairros afastados do centro de Porto Alegre?

Ambientes de criação e resistência

É indiscutível o potencial cultural existente nas periferias. Iniciativas de incentivo à arte e à cultura nesses lugares são fontes de criatividade e talento, além de impulsionar novas manifestações, como o slam e a dança de rua. Assim nasceu o Galpão Cultural – Casa de Hip-hop, localizado no Morro da Cruz, bairro São José. O projeto de construir o Galpão nasce a partir de um circuito de arte realizado no local em 2014 e que buscou trabalhar a cultura como forma de desenvolvimento comunitário. Jaqueline Trindade Pereira, a Negra Jaque, cantora de rap e uma das fundadoras do espaço, comenta sobre a luta para a construção do Galpão. “Desde 2014 a gente começou a fazer campanhas com os amigos para conseguir material de construção”, afirma. “Fizemos vaquinha, show solidário, fizemos de tudo e mesmo assim não conseguimos atingir a cota para a construção.” 

Sem um espaço para construir o Galpão e com diversos materiais adquiridos com o circuito de arte, Jaque passou a buscar alternativas de lugares para começar a obra. De acordo com ela, sua mãe possuía um terreno pequeno, com aproximadamente 70m², que acabou doando para a construção do projeto. Após sete anos de muita luta, o Galpão Cultural nasceu em 2021, no dia 13 de março, com a ideia de ser um espaço emergente que trabalha a questão cultural com o acolhimento de jovens e crianças entre 8 e 14 anos. 

“Por ser uma casa de hip-hop, ele gira em torno de toda a filosofia do hip-hop, de trabalhar uma cultura cidadã, diversa, respeitosa, buscando uma educação, uma sociedade antirracista”

Negra Jaque

Atualmente o ambiente conta com uma biblioteca, onde são oferecidos livros às crianças, além de se trabalhar com mediação de leitura. Dispõe também de oficinas de grafite, brechó comunitário, que acontece todo o mês, atividades com música em que a própria Negra Jaque faz o acolhimento das crianças com orientações sobre os equipamentos e, eventualmente, oficinas de dança. Todas as pessoas que atuam no Galpão são voluntárias: no momento, não existe aporte financeiro que possibilite pagar professores e oficineiros para realizarem as atividades diariamente.

Na mesma comunidade existe também o Coletivo Autônomo Morro da Cruz, que atua desde meados de 2007 e se formalizou como ONG em 2019. A história do Coletivo nasceu em 2006, quando a atual presidente do espaço, a antropóloga Lucia Scalco, iniciou sua pesquisa de mestrado utilizando o Morro da Cruz como campo, abordando a questão da inclusão digital na comunidade. No entanto, ao longo da pesquisa, ela passou a frequentar a Associação Comunitária do Morro da Cruz (entidade que desempenha um importante papel social e é administrada por um grupo de mulheres) e, com isso, a se envolver com outros problemas estruturais que rondavam a comunidade, como saúde, educação e saneamento básico. 

Segundo Sula Riet, gerente de projetos da ONG, a partir desse envolvimento da antropóloga, teve início uma mobilização para o desenvolvimento de projetos sociais no Morro. “A partir daí foi se transformando em um coletivo, que começou a estar mais ativo em 2015”, comenta. Anos depois, em 2019, se viu a necessidade de formalizar como uma ONG, por entender que precisavam de espaços maiores para que fosse possível atender todas as crianças. “Precisávamos conseguir alguma coisa de verba”, conta Sula. “Fosse pública ou privada, através de editais ou através de conselhos do poder público para tentar viabilizar mais os projetos.”

O processo de migração de coletivo para ONG aconteceu muito rápido. A necessidade de formalização foi percebida pelos integrantes quando foi lançado um edital do Ministério Público do Trabalho que tinha a constituição formal como um dos requisitos para participação. Após o ganho desse aporte financeiro no Ministério Público, foi possível expandir a maioria dos projetos, além de ser possível manter um pagamento aos funcionários. Embora a inclusão digital tenha sido o “carro chefe” da organização, oferecendo cursos de informática básica para todas as faixas etárias, a equipe conseguiu expandir e criar um projeto de oficinas, chamado de Inclusão Social, que conta atualmente com reforço escolar, aulas de inglês, artesanato, contação de histórias e aulas de dança. Além disso, existe o projeto Construindo o Futuro, que auxilia jovens e adultos entre 17 e 60 anos de idade a construírem currículos e desenvolverem habilidades de comunicação para entrevistas de emprego. “A gente auxilia muito, também, o trabalhador autônomo. Estamos neste período com um crescimento absurdo de informais e muita gente precarizada, então a gente tenta trazer algumas pequenas melhorias à rotina de trabalho dessas pessoas, para que consigam ter mais ganhos”, acrescenta Sula.

Ainda, dentro do projeto de inclusão digital, existe um curso de recondicionamento de computadores, realizado em parceria com a UFRGS. A Universidade fez uma doação de cerca de 15 aparelhos para a ONG, possibilitando que alunos dos cursos de informática básica aprimorem seus conhecimentos. Assim eles recebem máquinas velhas, efetuam o recondicionamento e depois emprestam, ou vendem, para a própria comunidade a preços populares. 

Apesar desse foco aos projetos de inclusão social e digital, a equipe entende que, estando dentro de uma comunidade, é impossível não ter um olhar assistencial. De acordo com Sula, durante a pandemia, um período que agravou consideravelmente o desemprego no Brasil, o projeto teve que correr atrás de coisas básicas, como o alimento. “Às vezes poderíamos estar fazendo outras coisas que traria mais autonomia a essas pessoas, mas a gente tem que correr atrás também dessas coisas que deveriam ser básicas.” 

“O projeto de empregabilidade, por exemplo, muita gente chega pra gente dizendo que quer fazer, mas que não tem o que comer. Como é que a pessoa vai buscar emprego se ela não tem o alimento?” 

Sula Riet

Mesmo com a formalização, a organização ainda enfrenta problemas de gestão. A equipe que faz parte do projeto atualmente é muito plural – existem pessoas de dentro e de fora da comunidade – como, por exemplo, a própria Sula. Embora a pluralidade seja algo positivo para que as decisões sejam tomadas de forma coletiva, muitas vezes ela traz alguns desafios. “Mais da metade de quem atua hoje em dia [na organização] é morador do Morro da Cruz, o que faz com que alguns integrantes não tenham uma inclusão digital, por exemplo. Então a gente acaba fazendo projetos internos para incluir essas pessoas da equipe também”, confidencia.  

Democratizar o acesso

Desde a década de 1990 existem na Prefeitura de Porto Alegre iniciativas que viabilizam a cultura e a arte para as periferias da cidade. Sempre houve também uma participação popular bastante consolidada no Orçamento Participativo (OP), no qual se decidem as necessidades da população – ou seja, os próprios cidadãos escolhem para onde se destinam as verbas municipais e quais as prioridades. Muitas vezes as regiões – principalmente as mais afastadas – da capital reivindicavam o acesso à cultura. A partir daí, se viu uma necessidade de atendimento que fosse além da região central de Porto Alegre. Segundo Camilo de Lélis, coordenador do Departamento de Descentralização da Cultura, setor que faz parte da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), 17 regiões são atendidas pelo departamento. “Nós fazemos um mapeamento e aí procuramos atender a todos igualmente, sem preferência de um bairro ou outro”, afirma. “O que se vê é que existem demandas maiores vindas de certos lugares, existem regiões que solicitam mais cultura, que produzem mais.”

Um dos bairros que mais demanda ajuda do setor é a Restinga, comunidade com enorme população localizada no extremo sul da cidade. De acordo com Camilo, a Restinga oferece atividades variadas e que exigem uma atenção maior. Alguns eventos maiores, como a Semana da Restinga – evento que faz parte do calendário oficial de Porto Alegre e tem como propósito agregar a comunidade em torno da realização de projetos, mostrando a diversificação sociocultural da região –, necessitam de estruturas como sonorização e palco, exigências próprias de eventos ao ar livre.   

O diálogo entre as comunidades e o setor da Descentralização acontece, principalmente, pelas subprefeituras existentes nas regiões. Esses espaços são como escritórios do próprio governo municipal que estão inseridos nas periferias, trazendo mais autonomia a esses lugares. Ali se concentram demandas como saúde, educação, segurança e, também, a cultura. As subprefeituras conseguem, assim, manter o contato dos produtores artísticos com a prefeitura, possibilitando esse diálogo mais rapidamente.

Outro fator que possibilitou ampliar a democratização do acesso à cultura e à arte na capital foi a inauguração da Casa de Descentralização da Cultura (Casa D), que fica na Rua Santa Terezinha, ao lado da Vila Planetário, no bairro Santana. O espaço era uma escola abandonada e passou por reformas e melhorias com o objetivo de acolher, futuramente, atividades culturais e educativas dos bairros periféricos de Porto Alegre para o público. Com a reforma e o fechamento da Usina do Gasômetro em 2016, os grupos de teatro que lá trabalhavam foram realocados para a Casa D e, desde então, utilizam o espaço para ensaios e criações.

Segundo Camilo, a ideia é que a Casa D seja mais que uma sede, mas também um espaço cultural que proporcione interações entre as comunidades e outros territórios da cidade. A parceria entre o espaço com a ONG Misturaí, por exemplo, localizada na Vila Planetário, vai possibilitar que esses diálogos sejam mais frequentes no próximo ano. “Eles fazem de tudo ali – dão café da manhã, servem almoço -, existe uma preocupação de realizar eventos com crianças”, conta Camilo. “Então eles vieram aqui na nossa Casa, estão ocupando duas salas bem grandes e ali estão tendo aulas de informática para as crianças, além de ter uma biblioteca que também oferece contação de histórias.”

“Não é meramente um espaço fechado da Descentralização, nós também estamos fazendo um trabalho de diálogo, interface com ONGs que lidam com pessoas carentes, não só crianças como também gêneros diferentes, pessoas que sofrem violência, por exemplo. Todas essas demandas estão sendo atendidas e eu fico muito feliz que estamos juntos, dialogando”

Camilo De Lélis

A pandemia inviabilizou a realização de oficinas abertas para o público na Casa D. Por ora, os ocupantes do espaço são os grupos de teatro e outros artistas independentes que utilizam algumas salas para ensaios. Algumas atividades, como capoeira e sapateado, são vinculadas à ONG Misturaí, mas Camilo afirma que editais já estão sendo pensados para 2022. “[Com os editais] eu vou começar realmente a alcançar mais e a produzir mais, para que o serviço que a gente realiza tenha um alcance maior.” A previsão é que esses editais abarquem diferentes meios artísticos, como oficinas de teatro, de dança e de técnica vocal, além de outras possibilidades, sempre buscando ouvir o que as regiões pedem.

Um projeto que já está pronto para começar em janeiro de 2022 é o de Yoga e Arte, que pretende unir o yoga com outras expressões artísticas, como a dança, por exemplo. Para Mariana Bertolucci, assessora da SMC e idealizadora da atividade, fazer esse trabalho em conjunto com a Vila Planetário é enriquecedor. “Eu já tenho as crianças inscritas no turno inverso da escola. Então a comunidade está bem feliz de a gente começar a ter esse olhar voltado a eles, além de podermos pensar em projetos juntos”, declara ela.  

“Isso me realiza muito. O fato de eu poder espalhar essas ações, levar para todos os bairros de Porto Alegre coisas muito legais e de graça é muito bacana”

Mariana Bertolucci
O bairro Restinga e sua força cultural 

Em uma região bastante distante do centro de Porto Alegre, quase sempre lembrada pela pobreza e pela violência, os moradores do bairro Restinga lutam contra a falta de estrutura e pelo reconhecimento de seus talentos. A comunidade, com mais de 60 mil habitantes é uma das maiores da região Sul e conta com um peso muito forte na questão cultural. De acordo com Lucimar Siqueira, geóloga, doutora em Planejamento Urbano e Regional e pesquisadora da importância do direito à cidade, a Restinga se destaca como uma potencialidade nessa região da capital. “Existem muitos grupos, muitos artistas”, conta. “Por mais que eles não tenham essa expressão dos artistas famosos, têm o fomento à cultura, e o quanto esses grupos se dedicam a isso.”

O mergulho da pesquisadora no território se deu por conta da origem do projeto Mais Restinga, criado em 2019, ligado ao programa Minha Casa, Minha Vida e financiado pela Caixa Econômica Federal. “As atividades culturais fizeram com que 99% das ações do projeto fossem voltadas à área cultural”, afirma Lucimar. Com isso, foram criados grupos de hip-hop, companhias de teatro, de dança, formação em grafite e hortas comunitárias, tendo como polos três grandes equipamentos: o Cecores, ligado a esportes; o Centro Multimeios, um espaço destinado a atividades culturais no geral; e a Estação Cidadania, uma praça que reúne esporte e cultura. 

Uma das primeiras atividades do projeto foi uma colônia de férias realizada em março de 2020. Ocorreram outras iniciativas, como meditação para as crianças, dança, teatro, contação de histórias, ou seja, pequenas amostras do que iria acontecer nos cursos voltados aos pequenos. Com a chegada da pandemia, a maioria dos trabalhos sociais foram interrompidos por falta de condições, mas, por outro lado, a internet possibilitou que algumas atividades continuassem. Nesse caso, foi possível migrar o projeto para o ambiente virtual, ainda que mantendo atividades presenciais durante os períodos de flexibilização das restrições impostas pela pandemia. Segundo Lucimar, o fato de as práticas serem online possibilitou que pessoas de várias partes da Restinga conseguissem se encontrar. “A Restinga tem um grande problema de deslocamento”, declara. “As pessoas não saem de um lugar e vão para outro facilmente. Todo mundo fica mais ou menos no seu território, e o fato de ser virtual fez com que pessoas de espaços diferentes e que não se conheciam pudessem se encontrar.”

O histórico de lutas por estrutura – inclusive na cultura – é algo muito marcante na comunidade. Entre os projetos que se consolidaram está o Mais Foto, que estabeleceu um perfil profissionalizante, com aulas práticas, saídas de campo, além de publicação de revistas com os resultados dos trabalhos. Outro exemplo é a AMAR, uma associação de artesãs estabelecida durante a pandemia que participa de eventos e se insere em espaços de circulação de feiras na cidade, como o Parque da Redenção, para expor seus trabalhos. Também se destaca o grupo de dança Restinga Crew, que, apesar de ser mais conhecido fora do bairro, apenas este ano conseguiu obter um espaço próprio. O objetivo do espaço é ir além das aulas de dança, incluindo debates e trocas com outros grupos da cidade.

Essa imersão de Lucimar no bairro fez com que ela participasse ativamente do projeto de hortas comunitárias, que também perpassa o viés da cultura. Após visitar espaços que iniciaram propostas de produzir pequenas hortas, mas que acabaram sendo abandonadas, a geóloga propôs fazer um trabalho com crianças. Em vez de começar a plantar de imediato, trabalhou uma alfabetização ecológica e com jardinagem em floreiras. “Foi lindo! As crianças mexendo na terra, tudo muito lúdico”, se emociona Lucimar. A atividade foi feita em janeiro de 2020 no Centro Multimeios e na Estação Cidadania, porém logo depois a pandemia interrompeu o projeto. Já em janeiro deste ano foram feitas oficinas de permacultura com jovens e adultos, com as ideias de despertar nos moradores o olhar de que a horta vai além de produzir o alimento e estimular o ato de mexer nos instrumentos como se fosse um exercício físico. 

“Isso é superimportante porque abre um outro universo do intelecto que é para as artes, para a sensibilidade, o que é estruturante na nossa vida. Se a gente não tem isso, a gente vira uma máquina”

Lucimar Siqueira

Ainda na Restinga, existe o Centro da Juventude (CJ) Restinga, que oferece oficinas e cursos de qualificação profissional. O Centro está incluído no Programa de Oportunidades e Direitos (POD), uma parceria da Secretaria Estadual de Justiça e Sistemas Penal e Socioeducativo (SJSPS) com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Além da Restinga, existem sedes na Lomba do Pinheiro, Cruzeiro do Sul e Rubem Berta, em Porto Alegre, além de unidades em Alvorada e Viamão, na região metropolitana.

O CJ da Restinga foi inaugurado oficialmente em dezembro de 2017, embora recebesse, em um prédio improvisado, jovens em serviços de acolhimento desde o mês anterior. Segundo Pablo Geovane dos Santos, coordenador-geral do Centro, a inauguração já contou com mais de 40 oportunidades, das quais 25 eram oficinas e cursos profissionalizantes. “Na nossa primeira feira de oportunidades, recebemos mais de 700 jovens”, conta ele. “Não tínhamos nem o nosso espaço adaptado ainda. Então a alma do CJ começou antes mesmo de ter a estrutura.”    

Pablo explica que o espaço trabalha em três eixos: socioafirmativo, socioprofissional e de jovens multiplicadores. No eixo socioprofissional, são oferecidos mais de 9 cursos profissionalizantes – entre eles informática, assistente administrativo e culinária, os mais procurados. No âmbito socioafirmativo, o projeto oferece oficinas que perpassam questões como direitos humanos, questões raciais, sexualidade, homofobia e meio ambiente. Já o eixo de multiplicadores é destinado a formar jovens que possam espalhar as práticas desenvolvidas na instituição pela comunidade, como técnicas de comunicação não violenta e diálogos sobre pacificidade. Também é realizado um forte trabalho na questão de saúde mental e da autoestima dos jovens.

“Nós não podemos falar com o jovem sem falar em encaminhamento profissional, em renda. Isso cria perspectiva, muda a forma com que esse jovem vai se vincular ao mundo, o retorno para a sociedade e vice-versa. Um trabalho próprio gera uma maior autoestima e uma melhora significativa da saúde mental”

Pablo Geovani

O número de atendidos no Centro chegou a atingir mais de 200 em apenas um dia. A expectativa é de que o atendimento possa crescer em breve, pois está prevista uma mudança do atual prédio da sede, que é alugado, para um permanente, financiado por recursos do BID e com obras em fase de conclusão. De acordo com Pablo, a sede nova conta com salas para aulas de dança e yoga, academia, estúdio de música e uma grande cozinha, com diversas bancadas. “A melhor das hipóteses é que seja entregue em março deste ano. O prédio tá lindo”, se emociona. “Eu arrisco dizer que na cidade não tem um espaço com toda aquela estrutura para atendimento de jovens. A tecnologia do prédio, com auditório, academia, sala de embelezamento, sala multiuso, enfim, eu ficaria horas explicando toda a planta do lugar.”

O ano de 2020 foi um cenário à parte para o trabalho do Centro. Antes presencial, o atendimento passou a ser a distância, além de todas as oficinas serem adaptadas para o ambiente virtual. Foram criadas redes sociais e canais do YouTube, nos quais eram colocadas atividades e materiais para que os jovens pudessem acessar quando quisessem. Segundo Pablo, todo esse aprendizado foi muito interessante no início, até que começou a ficar cansativo para os jovens. “No final de 2020 já estava tendo um estrangulamento, uma baixa animação”, afirma. Com isso, os educadores optaram por produzir materiais rápidos, de 5 a 10 minutos, para que não ficasse maçante de assistir. “Fomos nos adaptando a essa velocidade da informação”, conta Pablo. 

Espaços que criam possibilidades 

Ambientes que fomentam a cultura nas comunidades da capital podem mudar significativamente a perspectiva dos jovens moradores. Para Negra Jaque, idealizadora do Galpão Cultural, lugares como a Casa de Hip-hop revelam que os jovens são capazes de ser o que quiserem. “Mostra que eles não precisam trabalhar como mão de obra braçal”, destaca ela. “Eles podem ser artistas, escritores, poetas, advogados, dançarinos, cantores. Podem ser algo além daquilo que foi determinado para eles.” Nos bairros periféricos, os espaços culturais são como uma oferta, uma hipótese, uma possibilidade.

Jaque destaca ainda que a arte e a cultura fazem parte do desenvolvimento humano e da sensibilidade. Sobretudo nas grandes periferias, onde a criminalidade perdura, até mesmo a questão da linguagem violenta está enraizada e acompanha os jovens desde a infância até a vida adulta, o que dificulta o entendimento sobre a relação de si próprio com o mundo. 

“A arte é o tempo todo isso, essa relação de como o mundo me vê e vice-versa, seja através do olhar de um artista ou através do meu próprio olhar enquanto criador de arte”

Negra Jaque

Dispor de condições para desenvolver habilidades artísticas, aprender técnicas e estimular a criatividade começa já na infância. O papel das escolas é fundamental para que isso aconteça. Ter a possibilidade desse contato com a arte desde pequenos pode influenciar até mesmo na autoestima no futuro. “Talvez esse olhar voltado para o aprender com arte ou com o esporte pudesse conduzir uma vida adulta muito mais direcionada”, aponta Mariana Bertolucci. Segundo ela, toda criança tem alguma aptidão para a arte e muitas vezes esse potencial não é explorado.

“Acho que, por lei, pelo menos as crianças dos colégios públicos deveriam ter essa possibilidade de acesso à arte. O governo tinha que oferecer esse outro olhar para os seus alunos até a faculdade, por que não?”

Mariana Bertolucci

“Projetos como esse me salvaram”. É assim que, de acordo com Sula Riet, gerente de projetos do Coletivo Morro da Cruz, os jovens reagem após o contato com as atividades oferecidas pela ONG. É com carinho que Sula relembra os exemplos de adolescentes que passaram pelo projeto e tiveram mudanças significativas em suas vidas. Segundo ela, a probabilidade de evasão escolar nas periferias é muito grande e o Coletivo procura diminuir esses dados. Além disso, com os projetos, a chance de esses jovens entrarem para a criminalidade também é menor. “Às vezes chega a ser muito desleal porque a gente trava uma briga com as drogas, com a criminalidade, com a gravidez na adolescência também, que é muito comum na periferia”, pondera Sula. 

Trabalhar questões como direitos humanos, cidadania, sensibilidade e meio ambiente nas grandes periferias é um ganho para a sociedade no geral. Por isso, a implementação de políticas públicas para que esses projetos consigam atingir mais jovens é fundamental. “Se a gente recebesse incentivos do Estado para projetos como esse, iríamos conseguir fazer um ciclo muito mais positivo”, conta Sula. De acordo com ela, a ONG está com muitos planos no papel, mas, infelizmente, após perder o aporte do Ministério Público do Trabalho, foi preciso deixá-los de lado por conta da falta de dinheiro. “Temos um projeto lindo que iria trabalhar protagonismo, sustentabilidade, meio ambiente, toda a questão humana mesmo”, afirma a gerente. “Íamos falar de políticas públicas, de direitos humanos. No final do projeto esses jovens iriam passar pela nossa consultora de carreiras e fazer encaminhamentos para o Jovem Aprendiz, por exemplo.” 

Ter como política pública o funcionamento contínuo de espaços culturais nas comunidades da capital é essencial. Não permitir que esses ambientes fiquem em situações vulneráveis e sem condições de uso é responsabilidade do poder público. Para a pesquisadora Lucimar Siqueira, é importante mostrar para os jovens das periferias que eles terão um ambiente que possibilitará uma troca de saberes. “Indicar para esse jovem que ele vai desenvolver suas habilidades artísticas na música, na dança, e que ele vai ter a possibilidade de gerar renda a partir disso. Por isso, políticas públicas que apoiem esses jovens a acessar a economia criativa são fundamentais”, pondera ela. 

“Do mesmo jeito que a gente tem uma estrutura, um edital para fazer uma Bienal do Mercosul com vários patrocinadores junto com o poder público, tem que ter uma sala de teatro, uma sala de dança para o pessoal da Restinga e da Lomba do Pinheiro poderem usar quando quiserem, por exemplo”  

Lucimar Siqueira

Os resultados de ambientes que fomentam a cultura nas comunidades são significativos. Camilo de Lélis, coordenador do Descentralização, se emociona contando um pouco da história de um jovem morador da Vila Planetário, território conflagrado pela violência na capital, que teve sua perspectiva de vida transformada pela arte. “Existe um rapaz aqui que saiu da FASE agora. Ele já havia cometido um crime”, diz ele. “Só o fato de ele ter tido acesso a livros e começado a ler, isso mudou a cabeça dele. Mas ele me procurou porque estava interessado em estudar, estudar arte, e isso veio de alguma forma pela leitura.” 

As oportunidades proporcionadas pelos projetos evidenciam a importância do fomento à cultura na vida de crianças e adolescentes. Por meio do acesso à arte – seja qual for o tipo –, os jovens podem voltar a se interessar pela vida e ter diferentes possibilidades para o futuro. Mesmo com as dificuldades, as iniciativas culturais nas comunidades da capital continuam a incentivar jovens a terem outras perspectivas em suas vidas. Em um momento em que a arte vem sendo desmerecida, esses encontros que desenvolvem a sensibilidade reforçam a relevância desses equipamentos para as grandes periferias. Porque é uma arte viver e sobreviver, então temos que aprendê-la todos os dias um pouquinho mais.