Especialistas destacam a necessidade de reconstruir espaços de discussão sobre segurança alimentar

Esquinas | Debatedores apontaram o desmonte do controle social e de políticas públicas na área, o que afeta principalmente populações mais vulneráveis

*Imagem de capa: JU/Divulgação

“Para os povos de matriz africana, alimentação é um processo de manutenção do equilíbrio biomítico, porque o alimento nos mantém biologicamente e nós o dividimos com a divindade. Nessa perspectiva, a fome tem nos atacado biológica e miticamente”. Com essas palavras, a presidente do Fonsanpotma (Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos de Matriz Africana), Kota Mulanji, abriu a edição do Esquinas – Ciclo de Debates realizado nesta quarta-feira, 26 de maio. 

O Esquinas trouxe à tona o tema da segurança alimentar em um momento de aprofundamento da desigualdade social e de volta do Brasil ao Mapa da Fome Global da ONU, com populações mais vulneráveis, como os povos de matriz africana e comunidades indígenas, sendo as mais atingidas. Para apresentar diferentes olhares, além de Kota, o evento convidou Paulo Niederle, professor dos Programas de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural e Sociologia da UFRGS, e a doutoranda do PPG em Desenvolvimento Rural e integrante do NEAB-UFRGS (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, Indígenas e Africanos), Patrícia Gonçalves Pereira.

Os debatedores apontaram o desmonte dos espaços de controle social na área da segurança alimentar, como a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), em 2019. Paulo destacou que o Consea era um “espaço de diálogo entre diferentes atores e comunidades para ajustar políticas públicas – as quais também tinham seus problemas”. Para ele, o desmonte da infraestrutura de armazenamento e políticas de estoques reguladores de preço pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) deixaram o Estado brasileiro incapaz de regular os preços dos alimentos.

Segundo Kota, “o desmonte das políticas públicas estava ocorrendo mesmo quando a gente achava que elas estavam sendo feitas”, e a própria esquerda deve romper com a lógica de fazer políticas para alguns grupos. Na mesma linha, Patrícia apontou a necessidade de fortalecimento da escuta para a construção de políticas públicas que realmente considerem as diversidades. “O que mais se vê nas comunidades tradicionais são projetos colonizadores, que chegam com uma ideia e uma solução. Muitas vezes, até existe uma roupagem de que aquilo foi feito com diálogo, mas, no final das contas, é simplesmente para promover o consumo de um produto”, complementou. Ela também destacou que o NEAB, mais do que apenas levar comida às populações vulneráveis, trabalha nessa perspectiva de diálogo com os grupos organizados. 

A doutoranda ressaltou que, por um lado, ações solidárias foram se esvaziando ao longo da pandemia, mas, por outro, a articulação da Universidade com essas comunidades se fortaleceu. “A Universidade está dialogando de forma mais efetiva com essas comunidades, não de forma colonizadora”, acrescentou.

Além desse diálogo, os pesquisadores apontaram caminhos para a promoção da segurança alimentar e nutricional, especialmente para povos mais vulneráveis: para Paulo, é urgente a reconstrução de espaços como o Consea, mesmo que eles abriguem discussões tensas e conflituosas, pois elas são necessárias. O docente também apontou a necessidade de apoio à agricultura familiar, “elemento fundamental para garantir acesso a comida de verdade”. Segundo Patrícia, o grande desafio é realmente a comunicação: “É não vir uma solução pronta de cima, mas escutar”.

Kota foi além. Para ela, a saída passa por ruptura e radicalidade. “Tem banco comunitário, tem economia solidária, tem agroecologia. A solidariedade precisa ocorrer a partir de políticas de consciência, não de caridade”. “Precisamos sair da zona de conforto: não é fácil mesmo, mas o inimigo está se organizando na velocidade do coronavírus”, concluiu.

O Esquinas é um ciclo de debates promovido pelo Jornal da Universidade, ILEA (Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados), Departamento de Difusão Cultural e Centro Cultural da UFRGS e conta com o apoio da UFRGS TV. Os objetivos do projeto são discutir temas da atualidade e reforçar o papel da Universidade como espaço de confronto de ideias.