Estar em casa com os filhos e trabalhar

Quarentena | Desenvolver atividades laborais remotamente se mostra um desafio frente à necessidade de conciliar a atenção às crianças e o trabalho doméstico

Para Felipe Brandão, o trabalho remoto vem sendo uma “grata surpresa”. Administrador em atuação na Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico (Sedetec), ele tem repensado a rotina anterior ao isolamento. “Passei a perceber que grande parte do meu trabalho utiliza ferramentas e serviços da tecnologia da informação”, relata. O servidor conta que um ponto que ainda está sendo adequado é o ajuste entre o tempo de trabalho e os cuidados domiciliares.

“Uma novidade é que o nosso filho está tendo uma rotina de estudos em casa. Confesso que a minha companheira tem muito mais didática e paciência para orientar as atividades escolares”, revela. De resto, procuram se revezar com as atividades domésticas nos momentos em que não estão trabalhando ou acompanhando a criança.

Já Flávia Barbosa diz que tem conseguido trabalhar remotamente, mas confessa que esse tempo de quarentena tem sido bastante confuso em função da mistura de diferentes ambientes em um mesmo local, exercendo os papéis de mãe, dona de casa, esposa, profissional e auxiliando nas atividades escolares da filha. “Muitos dias têm sido angustiantes para mim”, desabafa a técnica em assuntos educacionais do setor acadêmico do Instituto de Geociências. Ela conta que divide com o marido as tarefas domésticas e os cuidados com os filhos de dois e sete anos. Professor de Educação Física na educação básica, o companheiro também está em trabalho remoto (grava e ministra videoaulas). Além das atividades laborais, eles precisam auxiliar a filha nas aulas diárias do ensino fundamental e dar atenção ao filho menor.

“Muitos dias não conseguimos equacionar a atenção aos filhos e o trabalho, e isso é frustrante.”

Flávia Barbosa

A servidora acrescenta que a relação com o trabalho nesses moldes traz cansaço mental, pois se sente presa aos eletrônicos mais do que nunca. A parte boa da quarentena, segundo ela, é estar no convívio familiar, acompanhar os filhos crescerem e tentar cuidar de si.

Flávia Barbosa valoriza o tempo em casa pela maior convivência com seus filhos. Por outro lado, o trabalho remoto mistura o ambiente privado com as tarefas profissionais, o que causa certo desgaste (Foto: Flávia Barbosa/Arquivo pessoal)

Para Débora Rodrigues, chefe da assessoria das direções do Câmpus Litoral Norte, a parte difícil de estar em teletrabalho é conseguir romper com o entendimento já arraigado nos filhos de que, se ela está em casa, então está disponível para eles.

“Apesar do diálogo, do entendimento do horário de trabalho e do envolvimento deles em outras atividades, eles conseguem ser mais persistentes que um telefone tocando incessantemente. Além disso, o computador utilizado para trabalho é o mesmo que eles usam para jogos eletrônicos, e que antes não precisavam dividir.”

Débora Rodrigues

À parte esse porém, ela diz que é possível trabalhar de forma remota, já que sua atividade é bastante administrativa e conta com a colaboração da equipe. “Alguns dias são piores que outros, mas, de forma geral, estou lidando bem.”

Redes de apoio

A servidora Cristiani Kafski, que trabalha na biblioteca da Faculdade de Ciências Econômicas (FCE), diz que pode contar com a mãe para ajudá-la a cuidar dos filhos em idade escolar. “Normalmente começo as minhas atividades por volta das 14h30. Nesse horário as crianças estão nas suas atividades de recreação. E vou até umas 22h. Claro que tenho uma parada no início da noite para pôr o pessoal no banho. Nesse horário não preciso me preocupar com o jantar, pois minha mãe providencia”, revela.

Para a técnica da gerência administrativa da FCE Francine Baldigen, que retornou há pouco da licença-maternidade, é justamente o suporte recebido de sogra, mãe, amigos, diarista e creche que tem lhe feito falta. “Agora todos os cuidados da casa e com a minha filha ficam comigo e com meu marido, e isso é muito pesado”, desabafa. Ela diz que tem boas condições para o trabalho remoto em casa e que a maior dificuldade está sendo mesmo conciliar a atenção à filha com os horários do marido, que também está em teletrabalho.

Gênero e trabalho doméstico

Amanda do Prado, servidora do Instituto de Ciências Básicas da Saúde, ressalta que, como mulher, além do trabalho remoto, tem que cuidar das tarefas da casa, como lavar roupa, limpar e cozinhar. 

“Com todos em casa, a sujeira e o uso dos cômodos são bem maiores, exigindo mais manutenção. Infelizmente, a divisão de tarefas nem sempre ocorre na maioria das casas nesta quarentena, deixando a maior parte do serviço ao encargo das mulheres.”

Amanda do Prado

Essa sensação tem sido partilhada também por Aline Lummertz. Para a assistente em administração, trabalhar remotamente tem se mostrado produtivo, mas há uma sobrecarga devido ao acúmulo de responsabilidades com o filho de dois anos e o cuidado doméstico, além de suas funções junto ao setor administrativo da Faculdade de Ciências Econômicas. Antes o menino ficava na creche enquanto ela estava na UFRGS. “Estou achando bem mais cansativo fazer as duas coisas simultaneamente”, completa.

Sem ter como deixar o filho na creche, Aline Lummertz considera o trabalho doméstico produtivo, ainda que observe uma sobrecarga de atividades que também acarreta (Foto: Aline Lummertz/Arquivo pessoal)

Esse debate sobre a divisão de tarefas do ambiente de casa, historicamente, permeia e marca as relações de gênero. De acordo com a professora e cientista política Jussara Reis Prá, a participação de homens no serviço doméstico tende a ser considerada uma ajuda para as mulheres, em vez de ser vista como normal. A pesquisadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Mulher e Gênero, ligado ao Programa de Pós-graduação em Ciência Política, lembra que está envolvido nisso um processo desencadeado há milênios, conforme o qual as mulheres foram desprovidas de posições de poder e autoridade. “Com isso, atribuía-se a elas o pertencimento ao espaço privado (da casa) e a responsabilidade com os trabalhos domésticos e de cuidado, vinculando-as à natureza. Ao mesmo tempo, ao homem era designado o espaço público, da cultura”, explica. 

Esses modelos sociais contrastantes encontram-se assimilados e introjetados como naturais por homens e mulheres ao longo dos anos. Para evitar que recaia sobre as mulheres a organização do espaço doméstico, sugere, precisamos lidar com problemas condicionados por fatores culturais e estruturais.

Nesse sentido, a permanência em casa tem sido, para o técnico em contabilidade Carlos da Rosa Junior, do núcleo financeiro do Instituto de Química, tempo de reflexão sobre os papéis dos membros da família. Ele e a esposa, que é policial militar, além de estarem em trabalho remoto e terem uma filha de três anos, são estudantes e têm de acompanhar as aulas em EaD com um computador só. Ele diz que foi bastante complicado encontrar harmonia para conciliar as atividades. “Isso desencadeou uma série de desentendimentos cotidianos sobre as funções a desempenhar e a competência de cada integrante da família. Contudo, após esse prazo entendemos que, apesar de estarmos isolados, deveríamos, mais do que adaptar nossa rotina, procurar melhorar nossa forma de viver com o tempo agora disponível”, filosofa. 

“A característica mais marcante do isolamento social é esta: as famílias e os indivíduos são obrigados a voltar-se a si, desse modo acabam por reencontrar-se.”

Carlos da Rosa Junior