Estudantes artistas da UFRGS refletem sobre a construção de suas carreiras nas artes

Cultura | Universidade proporciona aprofundamento teórico-prático e oportunidades de encontros e parcerias aos graduandos artistas, em paralelo a entraves como instalações precárias, afirmam alunos e professores

Foto: Kauê Sant’Anna em apresentação na GINGA, mostra de trabalhos coreográficos dos alunos de Licenciatura em Dança da UFRGS, em outubro de 2018 (Foto: Luhã Moreira Valença)

Centenas de novos estudantes ingressam anualmente nas graduações da UFRGS em Artes Visuais, Dança, Música e Teatro. No período letivo de 2021, cujo segundo semestre inicia hoje, 17 de janeiro, 210 pessoas passaram a compor o corpo estudantil de tais cursos através do Vestibular e do SiSU, de acordo com informações disponíveis em editais de processos seletivos da Universidade. São indivíduos que decidiram trilhar os extraordinários caminhos das artes, tão fantásticos quanto árduos, segundo estudantes artistas contatados pelo Jornal da Universidade.

Brenda Klein, das Artes Visuais, Kauê Sant’Anna, da Dança, Tomas Haushahn, da Música, e Vivian Azevedo, do Teatro, são veteranos em seus cursos e também possuem experiência em equilibrar esforços entre a formação acadêmica e a profissionalização artística em busca da consolidação de uma carreira nas artes. Ao JU, elas e eles compartilham como têm desenvolvido seus percursos artísticos enquanto são estudantes de graduação, as possibilidades que a UFRGS viabiliza a quem ingressa na Universidade e deseja ser artista e os principais desafios que buscam superar tanto dentro quanto fora da academia.

Kauê Sant’Anna e a dança

Ele possui mais de 105 mil seguidores e mais de um milhão de curtidas em uma rede social de criação e de compartilhamento de vídeos. Sobre a importância das redes sociais na construção de sua carreira, Kauê Sant’Anna é taxativo: “Se não houvesse as redes sociais, eu com certeza não estaria trabalhando”. Graduando do curso de Licenciatura em Dança da UFRGS desde 2017, o também bailarino e professor leciona aulas de Jazz Funk em três escolas de dança da região metropolitana de Porto Alegre.

Segundo Kauê, as redes sociais podem ser aliadas do artista na construção de sua carreira, sem desconsiderar o compromisso com a própria formação. “Foi nas redes sociais que comecei a mostrar que eu estava estudando. Foi lá que as escolas de dança que me contrataram viram que eu estava trabalhando com essa modalidade”, diz o estudante, artista e professor. “Então, o fato de eu ter baixado a minha cabeça, ter feito aulas de Deus e o mundo durante a pandemia e ter publicado essas aulas que fiz foi o principal motivo de terem me dado a chance de eu abrir minhas turmas.”

De acordo com Kauê, os principais benefícios do ingresso na Universidade são os contatos e a formação. “Se eu não tivesse entrado na UFRGS, não teria conhecido as pessoas que me levaram para dentro dos estúdios, que fizeram com que eu trabalhasse o meu lado artístico. Sem contar a questão da consciência corporal. Eu sinto que as pessoas que não estão dentro da faculdade, da licenciatura, não têm o mesmo cuidado com o corpo que têm as pessoas que fazem licenciatura”, diz.

Na faculdade, a gente tem isso como algo muito forte: cuidar o corpo da pessoa para quem a gente está passando informação. Isso é algo em que eu sinto muita diferença. Então, eu acho que o cuidado com o corpo e os contatos são as coisas que a faculdade mais me presenteou.

Kauê Sant’Anna

Conforme Luciana Paludo, bailarina, docente na Licenciatura em Dança e representante da Comgrad do curso, a Universidade é excelente espaço para enriquecimento de relações. “É um lugar em que tu conheces outras pessoas que trabalham na mesma área. Então, começa a se formar essa rede de contatos e de atuação profissional. É basicamente estar em relação, em contato, mostrando o seu trabalho”, afirma a professora. “Nesse sentido, os trabalhos em grupo, seja de criação, seja na área de estágios, colaboram para que os estudantes criem pontes entre si no presente e no futuro.”

Para Kauê, o cuidado com o corpo e a rede de contatos são os grandes benefícios de estar na Universidade (Foto: Luhã Moreira Valença)

Apesar de atuar principalmente como professor, o foco de Kauê é dançar, segundo o próprio. O estudante é também bailarino-bolsista no Ballet da UFRGS, ação de extensão que busca contribuir com o desenvolvimento e o crescimento da prática de dança. Como estudante artista, Kauê afirma que sua principal dificuldade é conciliar a carreira com os horários das aulas da graduação, realizada em turno integral. “O fato de as cadeiras da UFRGS acontecerem manhã, tarde e noite atrapalhava um pouco, principalmente nos primeiros semestres, porque ou você focava em fazer todas as cadeiras ou você dançava”, diz Kauê.

De acordo com Luciana, o caráter integral do curso é consequência de as disciplinas obrigatórias ocorrerem em unidades distintas e autônomas, sendo elas a Esefid, no Campus Olímpico, e a Faced, no Campus Centro. “Dentro da nossa organização, o nosso curso vai das 13h30 em diante. Mas tem as disciplinas da Faced, que são obrigatórias para todas as licenciaturas, sobre as quais não temos gerência. A gente não tem como determinar que a Faced faça as disciplinas dela no mesmo horário do nosso curso”, explica.

Ainda segundo Paludo, é importante que o profissional de dança ou de outras áreas artísticas compreenda os desafios dos mercados de trabalho em artes, os quais seriam caracterizados pela informalidade. “A falta de oportunidades formais é uma questão estrutural da arte na sociedade brasileira. À medida que o tempo vai passando, eles vão amadurecendo e entendendo a realidade do campo da dança e o que significa trabalhar na área. É duro nesse sentido”, afirma Luciana.

A realidade do artista brasileiro é alguém que trabalha de projeto em projeto e que dificilmente vai ter um plano de carreira, um plano de aposentadoria. É uma realidade em que muitas pessoas com muito talento não têm dinheiro. É preciso conversar abertamente sobre essas dificuldades.

Luciana Paludo
Vivian Azevedo e o teatro

Foi ainda criança, a partir de uma peça de teatro na escola em que era aluna, que Vivian Azevedo se encantou pela arte que hoje estuda e pratica. Estudante na Licenciatura em Teatro da UFRGS desde 2021 – ela ingressou no bacharelado em 2019 e posteriormente trocou de modalidade –, a universitária atriz relembra com entusiasmo o espetáculo que a levou para o mundo do teatro. “Era uma peça interativa, em que eles chamavam crianças, meninos, para salvar uma princesa. Eu lembro que fiquei com muita vontade de estar em cima do palco. Mas eu não queria ser a criança chamada, eu queria ser quem chamava as pessoas para o palco”, recorda. “Com 13 anos, a minha professora fez um debate sobre escolha de carreiras. Eu pensei qual seguir e, bom, decidi ser atriz.”

Desde então, Vivian coleciona experiências na área. Só na UFRGS em 2021, a aluna-atriz participou de duas temporadas de espetáculos na Mostra TPE, festival universitário de teatro com produções realizadas por graduandos e diplomados do Departamento de Arte Dramática (DAD). Em agosto, Vivian estrelou o curta-metragem Será que fica pronto a tempo?, que abriu a mais recente edição da iniciativa. Já em outubro, Azevedo deu vida a Aziza, personagem na peça para crianças Invenção amalucada. Além das experiências na mostra, Vivian é também estagiária em um projeto em arte e educação, além de ser técnica em Marketing. “O artista não tem muitas oportunidades no mercado de trabalho formal. Então, eu tenho que ‘atirar’ para tudo que é lado”, afirma.

A melhor parte do teatro da UFRGS são os contatos. Tu consegues fazer coisas com gente que está lá na frente, se formando. Eu participei no meu primeiro ano de faculdade de dois estágios de formação como atriz. Isso me deu muita visibilidade para estar onde eu estou hoje.

Vivian Azevedo
Aziza, interpretada por Vivian (Foto: Renata Lorenzi)
Vivian em cena pelo projeto tocArte, iniciativa de ações poéticas em vídeo e de oficinas online gratuitas, em julho de 2021 (Foto: Gabriehl Oliveira/Reprodução)

Para isso, é preciso ter disponibilidade de tempo. Assim como os demais cursos em artes da UFRGS, a Graduação em Teatro da Universidade ocorre em turno integral. Segundo Vivian, tal característica dificulta o progresso de estudantes que querem ou precisam trabalhar. “Eu vou me formar em uns oito anos, até o que der para me formar eu vou ficar. Porque eu preciso trabalhar. Se os professores não forem compreensivos, não tem o que fazer”, afirma. Além da integralidade do curso, a graduanda artista indica ainda a precariedade das instalações do Instituto de Artes (IA) como desafio ao seu desenvolvimento. “É um espaço muito precário. Tem que cuidar onde pisa, porque o chão é solto. Não pode pular, porque o andar pode cair”, diz Vivian.

De acordo com Henrique Saidel, docente e chefe do DAD, a garantia de melhores espaços para o desenvolvimento das atividades do departamento auxiliaria na formação dos estudantes artistas. “O espaço físico do IA demanda muitos cuidados. É um prédio muito antigo, muito pequeno, com salas não muito grandes. E a gente tem uma questão de manutenção que é bastante complicada, sem falar na falta de acessibilidade”, avalia o professor. “Não há espaço para ter uma oficina de cenografia, por exemplo, o que seria incrível. Ou um laboratório de figurino maior, mais equipamentos de luz, som, vídeo e transmissão on-line. O teatro pode ser feito sem nada disso, mas a experiência pode acontecer de uma maneira muito mais rica quando há essas estruturas.”

Como conselho a estudantes que desejam trabalhar com teatro, Henrique sugere atenção às parcerias. “Os professores estão sempre estimulando os alunos a formarem grupos, para que eles se juntem e se fortaleçam coletivamente. Uma das grandes funções dos nossos cursos é fomentar esses encontros, para que o próprio teatro se fortaleça”, diz Saidel. Ao ator em formação o docente também indica procurar se inserir na vida artístico-cultural, assistindo a espetáculos, conferindo estreias de peças de teatro e participando de manifestações políticas. “É complexo fazer isso, não é tão simples. Mas todos esses conselhos são no sentido de: ‘Se der, faça!’. E se mantenha aberto e disponível para que isso aconteça.”

Tomas Haushahn e a música

São três prêmios conquistados em uma mesma edição de um concurso nacional de violão. Em outubro de 2021, Tomas Haushahn, aluno do Bacharelado em Música da UFRGS desde 2019, ganhou o 1.º Prêmio no 10.º Concurso Nacional de Violão Fred Schneiter, além dos prêmios de Melhor Intérprete de Fred Schneiter e de Melhor Intérprete de Vicente Paschoal. A última vez que um mesmo músico angariou as três honrarias foi há dez anos, na edição de 2011 da competição, segundo Daniel Wolff, músico e docente no Departamento de Música (Demus). Tal êxito sinaliza a importância de participar de ações externas à Universidade na consolidação de uma carreira nas artes. “Eu acho que uma das maneiras de construir legitimidade é participar de alguns concursos. Eu vou seguir isso por algum tempo”, afirma Tomas.

De acordo com Julio Herrlein, músico, docente no Demus e chefe substituto do departamento, a conexão entre academia e sociedade deve ser sempre explorada pelos estudantes artistas e incitada pelos professores. “A gente precisa incentivar os alunos a procurarem coisas fora da UFRGS. A Universidade não pode ser uma coisa fechada, paroquial. Inclusive é positivo para própria Univesidade que ela se abra para outras experiências, em diálogo com a sociedade”, diz Julio. Segundo o professor, uma importante dificuldade ao fortalecimento da relação entre a cultura desenvolvida na UFRGS e a sociedade – além de obstáculo ao progresso dos alunos artistas – é a infraestrutura física deficitária da Universidade, a qual, conforme Herrlein, “é um problema que a gente vem enfrentando há muito tempo no IA”.

Seria muito bom ter mais equipamentos, talvez um teatro, mais espaços culturais. Para oferecer mais possibilidades não só para os alunos, mas para o público em geral. Mas isso também depende de toda uma política pública de mais investimentos nas universidades.

Julio Herrlein

De maneira similar à aluna-atriz Vivian, a renda de Tomas advêm do mercado informal de trabalho. Ele é professor em aulas particulares de violão e integrante de um coletivo de violonistas da capital. Sem vínculo empregatício com alguma empresa, Haushahn aponta a instabilidade financeira como principal dificuldade na construção de sua carreira. “Eu tenho as minhas aulas, ganho dinheiro com isso, mas não é o suficiente para sobreviver. Felizmente eu tenho a ajuda dos meus pais”, diz Tomas. “Às vezes eu tenho que deixar de lado a UFRGS para buscar essa estabilidade. É difícil, porque a minha carreira é o que vai me dar um retorno financeiro, mas eu também tenho que passar na Universidade. Eu sinto que isso é uma tônica para maioria dos estudantes.

Neste concurso que eu ganhei, eu toquei um repertório completamente diferente do repertório que eu estava estudando na UFRGS. Então, eu tive que colocar de lado o repertório da Universidade, que também é uma preocupação minha, para estudar essas outras coisas que eu ia precisar para tocar no concurso.

Tomas Haushahn

Para o futuro, Tomas quer atuar em várias áreas, pois, de acordo com ele, “hoje em dia tu tens que ser uma pessoa muito versátil para sobreviver de música”. “Eu tenho muito interesse em seguir carreira acadêmica, fazer um mestrado, um doutorado. Mas certamente eu não quero deixar de fazer música, de dar concertos, seja em grupo ou solo. São coisas que podem andar juntas”, declara Tomas. Segundo Julio, é preciso que os músicos atuais estejam dispostos a fazer “uma porção de coisas diferentes”, pois ferramentas como o streaming não garantem sustento financeiro. “O músico que apenas toca é muito raro hoje em dia. Esse paradigma é uma coisa que está mudando”, afirma Herrlein.

Eu acho muito interessante fazer parte desses dois mundos. Eu acho que eu não aguentaria só viver de tocar, porque é difícil, às vezes é um pouco solitário. E eu gosto de dar aula. Então, ser professor é uma necessidade mas que é também muito agradável.

Tomas Haushahn
Tomas Haushahn no concerto de lançamento do álbum Carmen e os violões, em outubro de 2019 (Foto: Fábio Zambom)
Brenda Klein e as artes visuais

“Eu tinha uma visão muito intuitiva da arte”, revela Brenda Klein sobre a sua relação com as artes visuais antes do ingresso na UFRGS, em 2019. A artista visual e futura bacharela conta que a Universidade tem proporcionado múltiplas experiências, sendo um espaço de experimentação alinhado à diversidade da área. “A UFRGS me abriu muitas perspectivas sobre o que é arte e sobre como eu posso aprimorar o que eu estou fazendo”, avalia Brenda. “Isso ampliou muito o meu campo de visão, fora que eu aprendi várias técnicas, como gravura, escultura, pintura.”

Bolsista de extensão no Planetário da UFRGS, em que atua nas áreas de design e ilustração, Brenda é também ilustradora e diagramadora autônoma, além de trabalhar em um estabelecimento comercial em determinados dias da semana. Característica comum entre ela, Kauê, Vivian e Tomas, a atuação em diversas frentes de trabalho é algo predominante nas vidas dos estudantes artistas contatados pelo JU. “É basicamente assim que eu me sustento. O trabalho no bar à noite é uma segurança que eu tenho, mas é freela. É difícil, porque eu não trabalho de carteira assinada”, pondera Klein.

Em meio a muitos trabalhos, Brenda mantém o foco em oportunidades em sua área. A aluna artista conta que uma opção interessante para o artista em formação são os editais em atividades culturais, em que é possível produzir e promover ações de maneira remunerada. “Em 2020, eu ganhei um edital para dar uma videoaula. Fora isso, eu ganhei um outro edital para fazer uma pintura mural em Canoas, em um muro de 50 m² na frente dos trilhos do trem”, diz a estudante artista. “Foi um grande desafio para mim, mas era uma coisa que eu estava querendo muito, que é avançar nessa coisa da pintura mural.”

Brenda Klein em oficina de muralismo e grafite, na EMEI Jardim de Praça Meu Amiguinho, em agosto de 2021 (Foto: Raul Krebs)

De acordo com Alexandre Ricardo dos Santos, docente e chefe do Departamento de Artes Visuais, uma formação em artes requer vastos e múltiplos esforços. “É preciso toda uma dedicação técnica e também toda uma dedicação para encontrar caminhos para cada vez mais aprofundar o seu trabalho. Quando os alunos percebem isso, é meio caminho andado”, afirma o professor. “Além da formação técnica, é preciso ter um tempo de dedicação para pensar a sua inserção no Sistema das Artes, ou seja, ficar atento a editais, a residências artísticas, a cursos oferecidos extracurricularmente, a bolsas de iniciação científica.”

Se tornar um artista não se dá em um passe de mágica. Não é, nunca foi e nunca vai ser dessa maneira. Enfrentar essa realidade que exige dedicação talvez seja a dificuldade maior que o aluno encontra ao longo do curso. Porém, quando ele percebe isso, a sua inserção profissional pode se desenvolver de maneira mais eficaz.

Alexandre Ricardo dos Santos

O professor ainda sugere que os artistas em formação entrem em contato com arte, conheçam obras e autores e não tenham aversão à leitura e à escrita, pois, segundo Alexandre, “é a leitura que nos forma, que dá solidez àquilo que somos e ao que fazemos. O artista precisa ser um bom leitor”. “Então, a cada dia colocar alguns tijolos para estruturar, ou mesmo cimentar, essa sua formação que se dá ao longo dos anos”, indica. “Ao mesmo tempo, estar atento a todas as oportunidades de exposições, de editais, a todas as oportunidades que às vezes os alunos não se dão conta e que fazem parte da sua inserção como artistas”. Já Brenda possui apenas um conselho aos desejosos pela profissionalização nas artes: “Segue no que tu ama, tá ligado?”

Porque isso ninguém vai te tirar. Se tu gostas de arte, se é isso que tu queres fazer, segue, porque tu só tens a crescer dentro da UFRGS. Não deixa outras dificuldades mudarem o que tu queres fazer. Vale muito a pena ser artista.

Brenda Klein
Em abril de 2021, Brenda publicou a história em quadrinhos Delírio coletivo na Terra do Fogo, em parceria com o quadrinista e arte-educador Carlos Janisch. A HQ teve apoio de uma campanha de financiamento coletivo (Foto: Carlos Jenisch)
A obra reúne aventura, fantasia e humor (Foto: Carlos Jenisch)