Estudo comprova a eficácia do uso de máscara e do distanciamento social no combate à pandemia

Saúde | Medidas reduzem em 87% a chance de se contrair covid-19. Higienização das mãos e de superfícies segue sendo medida importante para diminuir riscos

Um ano depois do primeiro caso de covid-19 no Brasil, estamos vivenciando o pior momento de toda a pandemia: unidades de terapia intensiva lotadas, recorde de mortes dia após dia e baixo índice de vacinação. Neste momento, a reafirmação de medidas de prevenção ao vírus ganha relevância. “Em tudo o que se pesquisou até agora, o que se viu realmente funcionando para prevenção são as medidas de distanciamento social e o uso de máscara de forma correta”, sinaliza Marcelo Gonçalves, professor da Faculdade de Medicina da UFRGS.

O estudo Social Distancing, Mask Use and the Transmission of SARS-CoV-2: A Population-Based Case-Control Study, produzido por pesquisadores da UFRGS, UFPel, UFSCPA e Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre (SMS), foi conduzido a partir de uma lista cedida pelo SMS com 3.437 pacientes da capital que testaram positivo para covid-19 entre abril e junho de 2020. Do total, os pesquisadores fizeram uma triagem em que selecionaram 247 pacientes para aplicar um questionário sobre o uso de máscara, grau de adesão ao distanciamento social e a rotina de atividades fora de casa. Para comparação, o mesmo questionário foi aplicado em 1.396 pessoas testadas pela pesquisa EPICOVID (estudo sobre prevalência de infecção por covid-19 da UFPel).

Os pesquisadores concluíram que o uso de máscaras reduz em 87% a chance de infecção por SARS-CoV-2. O estudo também mostra que as pessoas que aderem de forma moderada a intensa ao distanciamento social têm entre 59% e 75% menos chances de contrair o vírus. Profissionais de saúde foram excluídos da triagem do estudo para dar mais ênfase à efetividade dessas medidas na população geral. Mesmo que o artigo ainda esteja em fase preprint, o que significa dizer que ele ainda não foi avaliado por outros pesquisadores para ser publicado em revista científica, é um estudo suficientemente confiável.

Bruce Duncan, professor da Faculdade de Medicina da UFRGS e um dos colaboradores do trabalho, compara a pesquisa com um estudo recente feito pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, que realizou uma investigação ecológica, recolhendo documentos e pesquisas de todos os condados americanos, apontando a eficácia do uso da máscara e do distanciamento. 

“O que eles não têm, que o nosso estudo tem e pode dizer: máscaras preveniram 87% dos casos. Nós temos estudo em indivíduos, perguntamos pra cada pessoa se ela usava máscara e se ela se infectou ou não. É delineamento chamado estudo caso-controle. Ele tem todos os seus problemas – é um delineamento relativamente fraco do ponto de vista epidemiológico –, mas traça essa informação que esses estudos de mobilidade e avaliação de diferentes condados, municípios, estados, cidades, etc., não conseguem fazer. Eu desconheço qualquer estudo no mundo do SARS-CoV 2 que tenha feito um trabalho como o nosso”

Bruce Duncan, professor da Faculdade de Medicina da UFRGS e pesquisador
Evidências científicas

Desde que o artigo foi divulgado, em dezembro, Marcelo conta que surgiram outros estudos que também corroboram que o uso de máscaras e o distanciamento social são medidas eficazes para o controle da pandemia. O que poderia se avaliar agora, segundo ele, é toda a questão das novas variantes e o quanto isso vai impactar na transmissão. Tudo, entretanto, é muito recente, e o pesquisador desconhece estudos apontando a eficácia do uso de máscaras contras novas cepas do vírus.

Bruce explica que a comprovação científica para medidas de saúde pública são difíceis de fazer. Na hierarquia de pesquisas do campo da saúde, um ensaio clínico é o que tem o maior nível de qualidade. Segundo o professor, “é difícil ter ensaios clínicos para avaliar máscaras e distanciamentos. Então, as evidências que nós temos não são evidências 100%, mas elas sugerem que deveríamos usar máscaras, especialmente em ambientes fechados, com várias pessoas e pouca ventilação. Caso tenha alguém lá dentro infectado, espalhando gotículas e aerossóis, estes vão ficar mais tempo no ambiente. O recomendando também é usar em áreas externas; o risco deve ser bem menor, mas não zero”.

Outras medidas

Higienizar compras, tirar os calçados antes de entrar em casa, separar as roupas para lazer e para o trabalho, e tantos outros hábitos que desenvolvemos durante a quarentena também têm eficácia. Segundo Marcelo Gonçalves, está cientificamente comprovado que o vírus fica na superfície de objetos, e por isso é importante termos esses cuidados a mais: “É um cuidado que podemos ter, sim, para casa, mesmo naqueles outros ambientes que não sejam um potencial grande de exposição ao vírus. Mas poder fazer a troca de roupa quando chegar em casa, ter sua roupa de dentro de casa, isso pode se reduzir. Assim como a questão de passar álcool 70% nas sacolas que vêm de fora, quando recebe alguma entrega”, sintetiza o pesquisador.

O vírus é surpreendentemente muito frágil. Lavando as mãos com sabão por volta de 30 segundos – tempo equivalente a cantar “Parabéns a você” duas vezes – é o suficiente para matar o vírus que está lá. Uma boa estratégia, segundo Marcelo, também é carregar um frasco com álcool sempre que sair de casa.

Onde estaríamos?

“Quando você vai ler o grau de mobilidade das pessoas ao longo de 2020, a gente teve um grau de isolamento muito grande em março e abril do ano passado, e ele veio caindo ao longo tempo. Todos nós, de uma maneira geral, acabamos dando uma relaxada nessas medidas, e elas têm que ser retomadas”, explicita Marcelo.

Um exercício recorrente nesse momento caótico que o Brasil está é nos perguntarmos: e se todos nós tivéssemos seguido todas as medidas e protocolos contra o covid-19, qual seria o cenário deste março de 2021? Para Bruce, é difícil dizer onde estaríamos. Ele utiliza como exemplo vários países da Ásia que conseguiram, praticamente, repelir o vírus, além do êxito da Nova Zelândia nas ações contra a pandemia. Mas, por conta de aspectos geográficos e políticos, não há total certeza de um cenário parecido aqui. “O Brasil é um país continental. Não é a Nova Zelândia, não é uma ilha. Sempre teria alguém cruzando as fronteiras. Então, esperar que o Brasil tivesse conseguido zerar o vírus… eu acho que não teria acontecido mesmo com todos os cuidados do mundo. Mas eu acho que não dá pra negar que as abordagens, principalmente de nosso presidente, têm levado a uma mortalidade muito maior. E nos leva a uma situação em que vamos nos separar do mundo daqui a pouco”, conta.

Apesar de a vacinação inicial dar uma sensação de segurança, o uso de máscara e o distanciamento ainda precisam ser feitos. “Há um longo caminho pra gente poder pensar em retirar essas medidas mais populacionais de cuidados. E uma coisa que acredito que vá ficar pro mundo inteiro é o uso de máscara quando se tiver qualquer sintoma respiratório”, sinaliza Marcelo.