Exposição “Nega Lu: um frenesi na maldita Porto Alegre” homenageia ícone da cena cultural da capital

Cultura | Parceria entre o coletivo Nuances e o curso de Museologia da UFRGS apresenta a vida de Nega Lu a partir de locais frequentados por ela

*Foto de capa: Acervo Nuances

Ousada, irreverente, icônica. Essas são apenas algumas maneiras de descrever Nega Lu, uma figura que marcou a cena cultural da capital gaúcha entre os anos 1970 e 1990. Inspirada nisso, a exposição “Nega Lu: um frenesi na maldita Porto Alegre” conta a história da artista através dos espaços em que sua memória se faz presente, com narrativas e fotografias que retratam sua vida. Inaugurando o terceiro núcleo expositivo no Bar Plano A no dia 8 de outubro, a mostra é um projeto de extensão do curso de Museologia da UFRGS em parceria com o coletivo Nuances – Grupo pela Livre Expressão Sexual. 

A exposição é produto de uma antiga vontade do Nuances de realizar algo à altura de Nega Lu, além de estar diretamente atrelada ao fechamento da exibição Queermuseu que ocorreu em 2017. Segundo Marlise Giovanaz, professora do curso de Museologia e coordenadora do evento, a onda de protestos reunindo ONGs ligadas ao movimento LGBTQIA+ resultou em um edital chamado Eu Sou Respeito, em que ela escreveu o projeto da exposição junto com o coletivo Nuances. “A partir do momento em que o projeto foi liberado e aprovado, nós constituímos uma equipe. Temos, então, nos reunido semanalmente de forma remota para estudar todos os materiais sobre a Nega Lu.”

“Concebemos a exposição de uma forma compartilhada entre alunos, professores, técnicos e o Nuances. A gente foi dialogando até que se chegasse àquilo que todos esperavam”

Marlise Giovanaz

O principal intuito da mostra é afirmar a importância de Nega Lu e dar luz ao modo icônico e único como ela inscreveu seu nome na memória afetiva e cultural da cidade. Para isso foram selecionados locais relevantes em sua trajetória para constituírem núcleos expositivos. Entre eles estão a Lancheria do Parque e o Bar Ocidente, ambos inaugurados no mês de setembro. Já em outubro, os núcleos inaugurados serão o Bar Plano A, em 8 de outubro, e o Bar Venezianos, no dia 15, lugares por onde Lu transitava e expressava de maneira leve todas as nuances possíveis da sexualidade.

Realizar a apresentação nas ruas traz a possibilidade de deixá-la ainda mais acessível ao público, além de alcançar um número maior de pessoas. Para Perseu Pereira, integrante do coletivo Nuances e organizador do evento, a presença de Nega Lu nesses lugares traz um respiro à cultura porto-alegrense. “Ela sempre esteve em vários bairros da cidade e agora está ali à disposição dos passantes. A gente tem essa presença dela, o que pra muitos, inclusive, é um respiro de esperança e de inspiração.”

Além da relevância artística para a cidade, Nega Lu traz consigo a construção da identidade e das lutas da comunidade LGBTQIA+ e, também, a questão da negritude. Com seu jeito alegre e anticonvencional, ela apresentou, no auge dos anos 1970, a imagem de uma pessoa queer negra em bairros de elite e majoritariamente brancos da capital. 

“A gente tem material dela de várias fases. Porque a Lu é uma figura, ela é um ser que não fica preso a nenhum rótulo. Ela gostava de ser chamada de Nega Lu, mas quando tinha que brigar ela brigava, quando tinha que cantar fino ela cantava com o maior prazer”

Perseu Pereira

Segundo Perseu, apresentar a figura irreverente de Nega Lu atualmente é reafirmar a importância da artista para a cena cultural de Porto Alegre e do país. “É bastante rico porque, se pensarmos na atual conjuntura política em que temos visto tantos retrocessos, a figura da Lu faz um contraponto a isso, principalmente por ela estar onipresente em vários bairros da cidade. Além de ser uma figura popular, negra, LGBT.”

Nega Lu fez parte dos corais da OSPA e da UFRGS, além de ter aprendido balé clássico com grandes nomes como Marina Fedossejeva. Também foi madrinha e porta-estandarte da Banda da Saldanha. Mais detalhes sobre a exposição e a artista em Nega Lu: um frenesi na maldita Porto Alegre. 

Foto: Acervo Nuances