Fabricação de álcool gel a partir de bebidas apreendidas mostra importância de parcerias entre universidades federais

Cooperação | UFRGS e UFCSPA usam seus conhecimentos científicos, equipamentos e pessoal para produzir antisséptico para instituições de saúde

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

Responsável pelo processamento de 70 toneladas de resíduos químicos anuais, o Centro de Gestão e Tratamento de Resíduos Químicos (CGTRQ) do Instituto de Química da UFRGS tem transformado a cooperação científica em uma ajuda emergencial no combate à pandemia de coronavírus. Em parceria com a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), o centro começou a destilar bebidas alcoólicas apreendidas pela Receita Federal como insumo para a fabricação de álcool gel a ser doado a instituições de saúde.

Coordenador do projeto, o diretor substituto do CGTRQ, Eduardo Rolim de Oliveira, relata que a união foi estratégica para garantir uma produção rápida e de qualidade. “A UFRGS tem mais experiência na parte química e tecnológica do processo, enquanto a UFCSPA é referência nas questões de saúde e regras sanitárias. Então, formamos uma sinergia muito boa”, afirma. 

Corrobora com essa colocação o posicionamento de Alessandra Dahmer, pró-reitora de Planejamento da UFCSPA e também coordenadora da produção de álcool gel. Ela ressalta que, nos últimos anos, sua instituição tem trabalhado de forma unificada com a UFRGS, realizando inúmeras ações conjuntas. 

“No projeto de fabricação de álcool gel, isso ficou muito claro, porque a gente não tinha como destilar a bebida. Não temos equipamentos para isso na UFCSPA – somos uma universidade especializada na área da saúde. Então, entramos em contato com o Instituto de Química da UFRGS, que colocou à disposição a sua estrutura.”

Alessandra Dahmer
A transformação de álcool etílico encontrado em bebidas apreendidas por órgãos de fiscalização em etanol, base para a produção de álcool gel, é uma das atividades de reciclagem de produtos químicos desenvolvidas pelo CGTRQ, do Instituto de Química (Foto: Flávio Dutra/JU)

Conforme a pró-reitora, os editais para apoio a pesquisas relacionadas à covid-19 também têm favorecido o intercâmbio entre as universidades. Ela cita como exemplo a chamada realizada pela Fapergs.

O trabalho conjunto entre as universidades iniciou no dia 30 de abril, quando a UFRGS recebeu mil litros de bebidas apreendidas – foram 18 bombonas de 50 litros e quatro galões de 30 litros. Como os pesquisadores não sabiam se fermentados e destilados estavam misturados, o primeiro passo foi realizar uma análise do teor alcoólico do conteúdo. O teste é feito com um equipamento chamado de densímetro, semelhante a um termômetro. Só que, em vez da temperatura, ele mede a densidade do material. “A água tem densidade de 1 grama por mililitro. Já o álcool é um líquido mais leve, com densidade de 0,78 grama por mililitro. A partir disso, conseguimos identificar o teor alcoólico da mistura”, explica Eduardo.

Após as análises realizadas no Laboratório de Purificação de Solventes, recipientes com teor alcoólico acima de 30% ganharam prioridade na fila. “Quanto mais álcool na mistura, mais viável é o nosso trabalho”, diz o professor do Instituto de Química. Ou seja, na prática, quanto mais destilados na mistura – como vodka, gim, uísque, rum e tequila –, maior a produção de álcool gel. “O uísque, por exemplo, tem cerca de 40% de álcool, enquanto a cerveja tem aproximadamente 4%. Então, para recuperar álcool, o rendimento do destilado é muito maior. Mil litros de uma bebida com 40% de teor alcoólico renderão 400 litros de álcool, enquanto de uma bebida que tem 4% vão render só 40 litros”, explica. 

Escolhidos os primeiros recipientes, a equipe do laboratório começou o processo de destilação das bebidas: a separação dos líquidos de acordo com o ponto de ebulição, que é feito em dois destiladores. O resultado do trabalho é o etanol 70%, que será encaminhado à UFCSPA depois de um teste de qualidade com a técnica de análise química chamada “cromatografia gasosa”, uma das mais eficientes atualmente.

No laboratório de Farmácia da UFCSPA, para a transformação do produto em gel, são acrescentados dois insumos: um espessante e um neutralizante. Posteriormente, é preciso agitar numa batedeira planetária. Isso garante a textura do gel – é importante chegar à viscosidade correta para que não deixe resíduos nem fique grudento quando aplicado à pele.

A capacidade de produção do CGTRQ é de 10 a 20 litros de etanol 70% por dia, em um trabalho que inicia às 9h e encerra às 18h e é realizado por quatro técnicos. Já a UFCSPA consegue produzir 85 quilos de álcool gel por dia, graças à atuação de duas técnicas, quatro professores e cerca de 50 alunos.

A primeira destinação do produto resultante da parceria com a UFRGS será para a Prefeitura de Porto Alegre distribuir entre as suas unidades de saúde, mas já há também pedidos de prefeituras do interior do Estado. As entregas iniciam na sexta-feira, 8 de maio. Alessandra relata que, no mês de abril, por meio de insumos obtidos de outras fontes, a UFCSPA já fabricou 700 quilos de álcool gel para o município de Porto Alegre, 400 quilos distribuídos a moradores de rua e 100 quilos utilizados na própria instituição.

Em sala do laboratório usualmente utilizada para purificação de solventes residuais de processos e  pesquisas desenvolvidas na universidade, Greice Oliveira, uma das técnicas responsáveis, controla destiladores conhecidos como spinning bands  que realizam o processo de transformação do álcool existente em bebidas apreendidas.  A capacidade de produção é de cerca de 10 litros de etanol a cada 8 horas de trabalho (Foto: Flávio Dutra/JU)
Ação reafirma necessidade de investimento na ciência 

A transformação de bebidas apreendidas em álcool gel pelas universidades federais só foi possível graças a investimentos em ciência, laboratórios e materiais, o que atualmente está prejudicado devido aos cortes nos orçamentos das instituições e nas bolsas de pesquisa. No ano passado, as federais perderam cerca de 30% da verba, o que colocou a manutenção delas em risco. Neste ano, mais 15% foi retirado do orçamento dessas instituições, prejudicando a melhoria das estruturas e a compra de materiais.

Já em relação às pesquisas, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) tem anunciado cortes de bolsas desde o ano passado. Apenas até outubro de 2019, universidades e instituições de pesquisa tinham perdido 18 mil auxílios. Neste ano, inclusive em meio à pandemia, portarias publicadas pelo órgão modificaram o acesso aos benefícios e provocaram novos cortes. Conforme a Capes, as mudanças corrigem “um cenário de intensa distorção”. “De acordo com as portarias, os cursos de pós-graduação historicamente mal atendidos passam a receber mais bolsas. Por outro lado, aqueles que vinham recebendo, há anos, cotas em patamar muito fora da curva em relação aos padrões isonômicos, terão diminuição”, informou o órgão no site oficial.

Conforme Eduardo, vivemos um momento de ataques não apenas à ciência, mas ao funcionalismo público como um todo. Na visão do professor, o governo federal “acredita que serviço público deve ser extinto e prioriza a lógica da privatização”, sem uma visão estratégica necessária para o desenvolvimento da Ciência.

“Vamos ter uma vacina brasileira? Eu espero que sim, mas provavelmente não, porque há pouco investimento em pesquisa. E quando algum país descobrir a vacina, vai usar primeiramente na sua população, ficaremos para depois. O único jeito de reverter isso é investir massivamente na universidade pública para produzir ciência própria.”

Eduardo Rolim de Oliveira

Alessandra acredita que a pandemia tem provocado maior esclarecimento da população sobre a relevância das pesquisas realizadas na universidade que embasam as decisões do poder público. Ela sente que as ações diretas, e seguidamente voluntárias, que vêm sendo realizadas, como a iniciativa de fabricação de álcool gel, podem ajudar a gerar maior confiança junto à sociedade. “Já sinto diferença entre as pessoas com quem convivo nas redes sociais. Vejo muita gente que não valorizava começando a ver que a universidade faz a diferença. Espero, sinceramente, que a sociedade se dê conta do quanto contribuímos para este e para todos os outros momentos”, ressalta.

A pró-reitora reconhece que isso pode, por outro lado, levar ao risco de endossar a visão instrumental de que a universidade deve apenas investir em conhecimento diretamente aplicado. No entanto, crê que o momento não é de discutir de forma mais ampla a instrumentalização. “Devemos focar no combate à pandemia. Agora, temos que tirar proveito dos editais para mostrar nossa importância como instituição. E, a partir disso, demonstrar que não só a ciência diretamente aplicada é relevante. De fato, a pesquisa básica faz o país avançar”, completa.

Bebidas são apreendidas por entrarem ilegalmente no país

A grande maioria das bebidas apreendidas pela Receita Federal, como as usadas para o projeto de fabricação de álcool gel, entra ilegalmente no Brasil. Segundo o auditor fiscal do órgão Araquém Ferreira Brum, são produtos autênticos que ingressam no país principalmente vindos do Uruguai, onde há grande concentração de free shops. “A cota máxima é de 20 litros mensais por pessoa, o que configura consumo pessoal. Acima disso, as compras são consideradas irregulares e devem pagar tributos de importação. Da Argentina, a maior parte de apreensões é de vinho”, explica o servidor.

No Estado, Santa Maria é um dos principais pontos de concentração das apreensões por contar com um grande depósito para armazenar as cargas. Por isso, desde 2011, a Receita Federal do município mantém um convênio com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), que transforma as bebidas em etanol 70% graças a uma microdestilaria instalada no Colégio Politécnico para realizar experimentos de extração de álcool de mandioca e de outras matérias-primas.

“Como o equipamento tinha tempo ocioso, foi possível firmar o convênio. Antes disso, a Receita não tinha destino para as cargas apreendidas e chegava a fazer descartes em pequenas quantidades, quando não era possível realizar um leilão.” 

Araquém Ferreira Brum

Desde o início do convênio, conforme o auditor, já foram encaminhados 300 mil litros de bebidas apreendidas à UFSM. “O volume de apreensões no Rio Grande do Sul é muito grande. Em 2019, correspondeu a cerca de um terço do total de bebidas recolhido no país. Neste ano, até abril, já apreendemos cerca de 50 mil litros no Estado, 70% do apanhado nacionalmente”, informa Araquém.