Fazer cinema na escola

Abertura do Kino Clube, cineclube escolar, na Cinemateca Capitólio, em abril de 2019 (Foto: Guilherme Santos)
Educação | Programa de Alfabetização Audiovisual promove cineclube escolar e formação para docentes

Tão logo os convidados passavam pela porta de entrada da Cinemateca Capitólio, no centro de Porto Alegre, o silencioso saguão ecoava burburinhos, risadas e exclamações de surpresa. “Nossa, parece casa de rico”, observou um menino que, como os colegas, olhava curioso e admirado para o ambiente ao seu redor. Para muitos, aquela era a primeira vez ali. Enquanto alguns tiravam selfies, outros apressadamente se encaminhavam para próximo da escada, onde organizadores do evento aguardavam para dar as boas-vindas.

O Kino Clube – cineclube escolar, que teve sua primeira sessão no dia 11 de abril – faz parte do Programa de Alfabetização Audiovisual (PAA), atividade viabilizada por uma parceria entre a Secretaria Municipal de Cultura, a Cinemateca Capitólio, o Ministério da Cidadania, através da Secretaria Especial da Cultura, e a Faculdade de Educação da UFRGS. Desde 2008, o programa promove ações para aproximar o audiovisual das escolas.

Já dentro da sala, os pequenos enfrentavam os altos degraus com determinação, na busca pelo melhor lugar para sentar. A cena não era corriqueira: cerca de 150 crianças aguardavam ansiosamente pelo início de A História sem Fim (1984), do diretor alemão Wolfgang Petersen, um clássico do cinema infantil. Durante a apresentação, o professor da Faculdade de Educação da UFRGS Gabriel de Andrade Junqueira Filho, coordenador adjunto do Programa, instigou os agitados espectadores a, caso gostassem da obra, assistirem-na outra vez. Uma menina levantou a mão e, sabiamente, perguntou o que todos — inclusive os adultos — provavelmente estavam se perguntando: “Tem no Netflix?”.

A pergunta reflete uma realidade inegável: a presença do audiovisual na vida das pessoas vem crescendo de maneira exponencial. Segundo Maria Angélica dos Santos, idealizadora e coordenadora adjunta do PAA, isso se aplica a todos. “O audiovisual está presente em tudo, 24 horas por dia, e não é diferente com o aluno de periferia ou com os pais dele”, explica, enfatizando a importância de a escola, que é um espaço formador, não ficar para trás nesse processo.

Antes de a sessão começar, toda a equipe do PAA foi apresentada, inclusive Rubens, o projecionista, que abanou do alto da janela de sua cabine, causando rebuliço na plateia. Depois de um apelo uníssono – “Bota o filme, Rubens!” –, todos bateram palmas no ritmo da música de abertura. Seguindo a tradição dos cineclubes, após a sessão foi feito um debate sobre a obra. Mesmo com as idas ao banheiro, os cochichos e certa dispersão, muitos se manifestaram para contar suas cenas preferidas. Teresa Assis Brasil, responsável pela produção do Kino Clube, conta que, na hora da conversa, foi difícil manter a atenção das crianças: “Elas não ficaram inibidas, até falaram bastante, mas a discussão não foi muito além de gostar ou não do filme. Acho que o que estamos tentando criar é algo novo para elas, que é exercitar a escuta, desenvolver o costume de ver o filme e não sair correndo”.

Fotos: Guilherme Santos
Formação docente

Na tentativa de proporcionar aos educadores um maior domínio da linguagem e de gêneros e técnicas cinematográficos, o PAA oferece o Laboratório Vagalume, com cursos gratuitos voltados para os estudos em audiovisual e educação e que contam com certificação emitida pela Pró-Reitoria de Extensão da UFRGS. A ação visa a um enraizamento do audiovisual na escola, a partir do diálogo com o professor que se sente motivado a trabalhá-lo na escola.

Ao pensar sobre o programa e sua própria pesquisa, que se dá na área de múltiplas linguagens na Educação Infantil, Gabriel de Andrade Junqueira Filho, professor da Faculdade de Educação, recorda o próprio passado. “Eu morei numa cidade muito pequena no interior de São Paulo. A grande atração era o circo: toda vez que passava um, a cidade parava. Todo mundo ia ao circo com a sua melhor roupa. E depois, toda vez que o circo ia embora, as crianças se organizavam e faziam circos nas garagens de casa, nos quintais, e a gente ia uns nos circos dos outros”, relembra. Para ele, esse é o trunfo de se proporcionar uma formação em audiovisual para os professores. “É a mesma coisa: não é só ir ao cinema, é aprender a fazer cinema com as crianças, ajudar as crianças a fazer cinema. Com poucos recursos, a gente consegue fazer produções muito legais”, constata.

No bairro Camaquã, na Zona Sul de Porto Alegre, a professora Daniela Gil ministra, no contraturno escolar, oficinas de cinema para crianças e adolescentes de 11 a 16 anos. Professora da Escola Estadual de Ensino Fundamental Aramy Silva há mais de 20 anos, ela participa das ações oferecidas pelo PAA desde 2010. Já fez cursos sobre montagem, documentário brasileiro e cinema de terror. Na sua oficina, os alunos se organizam em grupos e desenvolvem exercícios para conhecer a linguagem audiovisual, entender como se produz, como se desenvolve o pensamento sobre cinema, como se trabalha de forma cooperativa e em equipe. “Isso os torna autônomos e protagonistas de suas ações e pensamentos. Utilizar o audiovisual e o cinema como elementos estruturantes do currículo transforma as relações da escola com esse meio de comunicação, além de gerar mudanças dentro dela e envolver toda a comunidade”, salienta.

Criando um hábito

No dia primeiro de abril, eram 7h30 da manhã e os telefones do quarto andar da Cinemateca Capitólio não paravam de tocar: estavam abertas as inscrições para o 12.º Festival Escolar de Cinema, o maior e mais antigo evento organizado pelo Programa de Alfabetização Audiovisual. Sediado na sala da própria Cinemateca e na Sala Redenção, no câmpus central da UFRGS, o festival tem uma programação que dura três semanas, possibilitando a crianças de diversas regiões da cidade o acesso a uma variedade de filmes infantis: curtas e longas-metragens, películas nacionais e estrangeiras, clássicas e contemporâneas.

Apesar de abrir uma porta para o mundo do audiovisual, o evento muitas vezes acaba sendo uma experiência que começa e termina com a exibição do filme: dar continuidade à atividade em sala de aula nem sempre é possível e, para muitas crianças, voltar ao cinema não é tão simples quanto parece. “O cinema está no shopping, revestido de um hábito cultural que envolve comer pipoca, consumir, entrar naquele castelo que é o shopping center. Às vezes é muito ameaçador para quem não está vestido de acordo ou não está consumindo. Grupos de jovens e adolescentes sequer entram em alguns shoppings e, quando entram, são vistos como uma ameaça mesmo. Então esse percurso até a sala de cinema já é um desafio”, explica Maria Angélica.

A partir dessa constatação, a equipe decidiu apostar em um novo projeto. No Kino Clube, a ideia é convidar escolas que estejam próximas da Cinemateca e estimular em seus estudantes o costume de ir ao cinema, deixando claro que aquele espaço também é deles e é acessível. Juliana Costa, pesquisadora e produtora do festival, afirma que um dos diferenciais do cineclube é a possibilidade de se conversar sobre a experiência ainda dentro da sala, com os professores, os colegas e também alunos de outras escolas. Nas sessões do festival, o objetivo é viabilizar a ida das crianças ao cinema. Posteriormente, em sala de aula, atividades que surjam a partir dessa experiência ficam a cargo dos professores.

Natalia Henkin

Estudante de Jornalismo da UFRGS