Ferramentas desenvolvidas por estudantes e servidores prometem colaborar para as rotinas universitárias

Inovação | Software Rysktech e aplicativo Fokvs constituem iniciativas de empreendedorismo geradas dentro do ambiente acadêmico

*Foto: Flávio Dutra/JU

O incentivo ao empreendedorismo e à inovação tomam diferentes formas no ambiente universitário. Uma das portas de entrada a esse universo se materializou para o estudante do terceiro semestre de Engenharia Elétrica Paulo Henrique Mortari na atividade de acolhimento aos calouros promovida pela Escola de Engenharia. Desafiados a refletir sobre como tornar a UFRGS mais sustentável, ele e outros três colegas, orientados pelo mentor Marcelo Zaro, elaboraram o projeto Rysktech, um software para desenvolver análises de riscos ambientais nos laboratórios da Universidade.

Natural de Nova Araçá – uma cidade bem pequena na serra, como ele qualifica –, Paulo revela que antes de ingressar na Universidade não esperava se deparar com experiências ligadas ao empreendedorismo. “Eu achava que ia só fazer o curso, me formar e era isso. Até tinha escutado sobre projetos em que eu poderia participar, mas não era algo que eu compreendesse antes de entrar. Fiquei muito feliz quando vi que tinha todas essas oportunidades e projetos. Foi um choque positivo! Antes da graduação, não entrava na minha cabeça que poderia estar inserido em atividades assim”, relata.

Para o mentor Marcelo, a experiência de conduzir o projeto com os calouros também marcou sua estreia no ambiente do empreendedorismo como servidor da Universidade. Técnico atualmente lotado na Escola de Engenharia, o engenheiro ambiental expressa a sensação de que demorou muito tempo para que aparecesse alguém que o estimulasse a ter um olhar voltado para o ato de empreender.

No início de 2021, quando começava o segundo semestre do ano letivo de 2020, Marcelo foi convidado a orientar um grupo de calouros que participavam da atividade de acolhimento realizada na Escola de Engenharia. Recém-chegado à unidade, ele vinha de uma experiência na Assessoria de Gestão Ambiental, setor anteriormente vinculado ao gabinete do reitor e extinto a partir de reorganização administrativa promovida pela nova gestão da reitoria. Os alunos o questionaram: “Que demandas havia na assessoria? Que projetos poderíamos desenvolver?”.

“Eu apresentei uma demanda que estava me fazendo arrancar os cabelos, que era a elaboração de análises de riscos ambientais, um documento que a Fepam [Fundação Estadual de Proteção Ambiental] solicita para o licenciamento ambiental, no Câmpus do Vale”

Marcelo Zaro

As análises a serem feitas, com levantamento de agentes químicos, físicos e biológicos, se referiam a espaços, como laboratórios e almoxarifados, situados em diferentes unidades. “Era um desafio muito grande trabalhar de forma ‘analógica’: enviávamos formulários, mas muitas vezes eles não eram respondidos ou não eram integralmente preenchidos; outras vezes as respostas não estavam a contento”, recorda. 

Os calouros se interessaram por essa demanda e aceitaram a sugestão de criar um software que pudesse ser utilizado para substituir os formulários e tornar a atividade mais ágil e eficiente. Entre os objetivos, a redução do número de pessoas envolvidas no processo de elaboração da análise de riscos ambientais e a redução dos custos. “Se temos um software bem completo”, exemplifica Marcelo, “a Universidade não precisará contratar uma empresa externa para elaborar as análises.”

Acima, Marcelo Zaro, mentor do projeto desenvolvido por calouros do curso de Engenharia Elétrica; na sequência, Paulo Henrique Mortari, um dos protagonistas do projeto Rysktech, software que visa colaborar para a sustentabilidade em análises de riscos ambientais na UFRGS

A ideia recebeu boa aceitação da banca de avaliação promovida durante o acolhimento. Ação de extensão iniciada em 2017, a atividade conta com uma etapa em que os projetos elaborados por alunos e mentores são apresentados para uma equipe de avaliadores num pitch de 5 minutos, explica Simone Ramires, docente da Escola de Engenharia e coordenadora da ação – que se encontra atualmente interrompida. O passo seguinte, ela informa, é a estruturação dos projetos validados de forma a obterem bolsas do programa de iniciação empreendedora da Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico (Sedetec).

No caso da Rysktech, que recebeu destaque e foi elogiada por seu potencial – “principalmente porque auxilia a Universidade a melhorar seus processos”, lembra Marcelo –, foram concedidas bolsas aos quatro estudantes – dois de Engenharia Elétrica, um de Engenharia Química e um da Ciência da Computação – para o desenvolvimento do software.

No momento, o software se encontra na versão beta e está sendo testado no Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar), em Imbé – uma unidade pequena, mas bastante complexa, porque tem muitos tipos de agentes perigosos. “Por exemplo: reagentes e resíduos químicos, agentes biológicos, devido às atividades desenvolvidas lá, e agentes físicos, como temperaturas extremas e ruídos. Era uma unidade que tinha tudo o que precisávamos pra fazer os testes da versão preliminar”, explica Marcelo.

“A ideia é que as análises realizadas com o auxílio do software passem a ser uma cultura de prevenção dentro da Universidade. Uma coisa que identificamos é que, muitas vezes, não temos a cultura de prevenção: esperamos as situações e problemas acontecerem para depois tomar alguma medida”

Marcelo Zaro

O engenheiro destaca que o programa também pode ser usado por empresas que não precisam apresentar documentos para o órgão ambiental, mas querem melhorar processos e gestão ou prevenir acidentes e impactos negativos.

“Estamos trabalhando no sentido de termos versões livres distribuídas para instituições públicas, mas também vamos comercializar a licença para que qualquer empresa possa utilizar o software”, esclarece Marcelo. A ideia é que ele possa atender ao maior número de empreendimentos possível – indústria metalúrgica, restaurantes, hotéis, mineradoras, etc.

O objetivo do grupo é que o projeto venha, futuramente, a se tornar uma empresa. “Acreditamos no potencial dele. Se der tudo certo, é algo que pode seguir para além da graduação”, entusiasma-se Paulo.

Prints de tela de versões beta do software Rysktech
Um ambiente para compartilhar informações

“Qual cadeira devo escolher? Qual o melhor professor? Pego de manhã ou de noite? Como consigo provas antigas para estudar, resumos e tudo o mais?” Conforme ia se deparando com esses e outros problemas da vida acadêmica, o estudante de Ciências Econômicas Bruno Kalil matutava cada vez com mais convicção a ideia de criar um ambiente no qual essas informações fossem reunidas. Foi assim que passou de 2018, quando ingressou na Universidade, até 2022 desenvolvendo o aplicativo Fokvs, hoje disponível para download na Play Store e na Apple Store.

Para realizar a empreitada, conta que estudou programação por conta própria até ter conhecimento suficiente para construir o app, cujas principais funcionalidades são o compartilhamento de materiais, a realização de reviews (avaliações) de cadeiras, a criação de agenda compartilhada de tarefas (uma para cada disciplina) e o fórum de resolução de dúvidas entre colegas. Além disso, há a possibilidade de os estudantes se conectarem entre si e fazerem amizades.

Para prevenir a ocorrência de plágios ou outras irregularidades, Bruno explica que há um controle de todos os uploads, que não são automaticamente aprovados e passam por um processo de revisão. “A gente incentiva o upload de materiais de autoria própria”, complementa.

Já em relação às avaliações de professores e disciplinas, a funcionalidade foi estruturada de forma a favorecer um feedback construtivo, com avaliação de didática, organização e dificuldade de uma cadeira. “Há a opção de se realizarem comentários, mas a gente filtra constantemente e não deixa entrarem textos de tom mais ofensivo ao professor”, explica o estudante. 

A criação de um ambiente que concentre o máximo de informações úteis para que os estudantes saibam navegar pelo curso, segundo Bruno, foi um dos maiores princípios que tinha em mente na hora de desenvolver o aplicativo. 

“A ideia é justamente centralizar as informações e democratizar o acesso a todo mundo. Os alunos já geram esses conhecimentos, mas eles estão muito dispersos em diversas plataformas. E acaba que isso gera certa fricção na hora de os estudantes encontrarem esses materiais”

Bruno Kalil

O estudante acredita que essa dispersão gera uma assimetria de informação: “Quem é mais sociável, quem tem mais amigos vai conseguir mais provas antigas e tudo o mais e, consequentemente, se sair melhor”.

Bruno revela que, mesmo já tendo a ideia em desenvolvimento, apenas recentemente entrou em contato com as iniciativas de fomento ao empreendedorismo na Universidade. Agora, porém, já está em contato com uma incubadora. “Acho que tá surgindo cada vez mais um ambiente propício a inovações dentro da Universidade, incentivando esse empreendedorismo”, avalia.

Nos planos de longo prazo do estudante, está o projeto de unificar as ações dos diferentes agentes do meio universitário, incluindo professores e pesquisadores. Sua ambição é que a conexão passe a ocorrer sem barreiras institucionais ou geográficas: ele também pretende que qualquer pessoa interessada em adquirir conhecimento acadêmico – mesmo que não esteja vinculada a uma instituição – possa utilizar e se beneficiar do aplicativo.