Florbela Espanca

Arte: Adauany Zimovski
Vestibular | A busca pelo amor em Florbela Espanca

Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No mist’rioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!…

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”

Soneto publicado no livro Soror Saudade (1923)

“Ela é romântica, é parnasiana, porque o soneto é uma forma parnasiana, e é modernista na temática. Inclusive supera o modernismo na liberdade amorosa que canta. Ela está à frente do seu tempo”. Assim Jane Tutikian, professora do Instituto de Letras da Universidade, define a escritora portuguesa que teve 22 sonetos incluídos como leituras obrigatórias para o vestibular da UFRGS.

Vida e obra

Florbela nasceu em 1894 e desafiou os costumes da época. “Desbravadora, é a primeira mulher que faz o curso de direito em Portugal. Ela tem essa característica, que, naquele momento, é de pioneirismo. Acho que os avanços das questões feministas foram muito grandes, mas existem questões que não foram resolvidas, então isso torna extremamente importante o resgate da sua obra”, avalia Jane.

A autora viveu em uma época em que “mulher não escrevia. Se escrevia, não publicava e, se publicava, não participava dos círculos literários”, sintetiza a docente, que ressalta cinco pontos essenciais para estudar a obra de Florbela Espanca: a forma usada (o soneto), o tema (amor) e três características de seu comportamento: erotismo, narcisismo e don-juanismo. “O entendimento desse perfil da Florbela vai constituir uma surpresa e até um desafio para quem a ler. Por outro lado, se for lida com atenção, existe um ciclo bem determinado em sua obra. Ela busca o sujeito amoroso, se apresenta como ‘a pele âmbar, as mãos macias’, o narcisismo está todo aí. Ela se apresenta como quem busca o ser amoroso. Encontra o homem, perde o homem, aí aparece o don-juanismo: ‘quero amar, amar alguém aqui, além, amar a todos e não amar ninguém’. E vai completar esse ciclo buscando esse amor que ela não consegue encontrar, que é o amor de Deus. Então, no momento em que se consegue fazer, através da leitura dessas poesias, o ciclo amoroso na vida da Florbela, tudo começa a ganhar sentido.”

A autora portuguesa teve uma vida conturbada, que soube explorar em sua produção literária. A poeta era fruto de uma relação extraconjugal de seu pai, que teve permissão da esposa, estéril, para ter filhos fora do casamento. Florbela e o irmão, Apeles, moravam com o pai, mas não eram reconhecidos por ele como filhos. Ainda criança, começa a apresentar sinais de transtorno nervoso diagnosticado como neurastenia, condição que dá nome a um de seus poemas. Aos 13 anos, dedica seu primeiro conto à mãe, que acabaria por falecer no ano seguinte. Casou-se três vezes, sendo que em seu primeiro casamento estava com 19 anos – relação que sofreu grande abalo por ocasião de um aborto involuntário que acabou comprometendo sua saúde física e mental. Mas os fatos que agravaram o quadro de depressão da autora foram a morte do irmão aos trinta anos de idade, em 1928, em um desastre aéreo, e a descoberta de um edema pulmonar. Florbela Espanca cometeu suicídio em 8 de dezembro de 1930, dia de seu trigésimo sexto aniversário, depois de duas tentativas, tendo publicado apenas dois livros.

Seleção

A escolha das leituras obrigatórias do vestibular da UFRGS é feita por uma comissão de professores do Instituto de Letras. As trocas na lista são pensadas de forma a abordar pelo menos uma obra de cada gênero literário: conto, romance, poesia e teatro, além da canção, que passou a fazer parte da prova em 2015. Também existe a preocupação de incluir pelo menos um artista gaúcho para contemplar a literatura regional, e um português, pois “a literatura brasileira nasce da portuguesa”, explica a professora Márcia Ivana de Lima e Silva, integrante da comissão. Nessa mesma perspectiva, decidiu-se pela inclusão de traduções a partir da prova de 2019. “A literatura traduzida é parte do contexto literário nacional, porque os autores leem e se relacionam com as leituras”, assinala.

Cada título selecionado permanece por três vestibulares na lista de leituras da prova de Literatura. Florbela Espanca substitui seu conterrâneo Fernando Pessoa. Mas a nacionalidade foi apenas um dos fatores que levou à escolha da autora. “Optamos, conscientemente, por trazer mais mulheres para dentro do cânone. A ideia é que haja uma paridade maior; por enquanto, são oito homens e quatro mulheres”, ressalta a professora. Além disso, a escritora tornou-se um dos principais nomes da literatura portuguesa do século XX, mesmo sem reconhecimento em vida. “Ela é um dos quatro grandes nomes da poesia portuguesa, junto a Luís de Camões, Antero de Quental e Bocage”, destaca Jane.


Texto originalmente publicado na Edição 213 (Junho 2018) e na Edição Especial de Leituras Obrigatórias de 2018 (Novembro).

Emerson Trindade Acosta

Estudante de Jornalismo da UFRGS