Gládis Kaercher: paixão por ensinar

Câmpus Centro | Professora da Faced e coordenadora do Uniafro conta como sua história na UFRGS foi marcada pela união entre ensino e extensão na busca de uma educação antirracista 

*Foto: Gladis Kaercher a partir de sugestão de Flávio Dutra/JU

Boa parte das pessoas que compõe a comunidade acadêmica da UFRGS já chegou à Universidade adulta. A história de Gládis Kaercher foi um pouco diferente. Quando começou a percorrer os corredores da UFRGS pela primeira vez, tinha apenas 12 anos. Aluna do curso de secretariado da Escola Técnica de Comércio, ela já sabia que queria seguir um rumo diferente na carreira. Sendo a filha mais nova de um advogado e de uma professora, desde pequena olhou a docência como o caminho para o seu futuro. Quando conta todo o trajeto percorrido até aqui, mesmo que não seja sua intenção, tudo que a professora fala soa como uma aula para quem está ouvindo.

Em um primeiro momento, quem vê a docente contando a sua história na Educação pode achar que ela está falando da maior paixão da sua vida. Mas não é somente pela docência que seu coração bate mais forte, já que, ao falar sobre as marcas que constituem sua carreira, tem orgulho de se definir como uma extensionista nata. Gládis firmou sua trajetória na extensão participando de debates e projetos voltados à educação básica e à negritude. Ela conta que, por ser uma das poucas professoras negras da UFRGS, sentia que havia uma grande demanda de alguém que falasse sobre as questões raciais dentro da Universidade. 

“A extensão me puxa sempre para um lugar que eu acho de fundamental importância, que é o do convívio constante com a comunidade e suas demandas. É sempre nesse espaço entre a sala de aula e a extensão que eu vou construindo a minha trajetória como pesquisadora”

Gládis Kaercher

De uma ação pública do governo federal surge o curso de aperfeiçoamento Uniafro, ofertado pela FACED e coordenado por Gládis. O projeto leva a fala sobre racismo na educação básica, auxilia professores e propõe ações pedagógicas que levem em consideração a necessidade de se promover uma educação antirracista. Segundo a professora, mesmo com a Lei n.º 10.639, de 2003, que estabelece a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira nas escolas – substituída em 2008 pela lei 11.645, que inclui também os povos indígenas -, o país ainda tem um longo percurso para fazer com que essa legislação de fato se cumpra. Dentro dessa luta, o Uniafro busca ensinar aos professores como contar essa parte esquecida da história a seus alunos.  

Ainda no debate sobre as questões raciais, Gládis ministra a disciplina “Educação e Relações Étnico-raciais”. É da oferta dessa cadeira na UFRGS que a professora consegue criar uma área de conhecimento com o mesmo nome, que busca aprofundar ainda mais o debate sobre a educação antirracista. Ela ressalta que deseja que surjam outras disciplinas dentro dessa área que cumpram o seu objetivo de impactar as licenciaturas e tocar a formação inicial de professores, rompendo o círculo de formação de profissionais que não tenham discutido as relações étnico-raciais dentro da educação. 

“A marca da carreira docente, em qualquer nível de ensino, é a incompletude. Um professor nunca está completo, ele é sempre um processo e um projeto”

Gládis Kaercher

Recentemente a docente começou a lecionar também no Programa de Pós-graduação em Educação e, mesmo se definindo como uma “senhorinha na Universidade”, Gládis ainda possui o brilho nos olhos de uma professora que tem muito a ensinar. A relação que ela construiu em seus 40 anos de UFRGS e 25 anos de docência é marcada por transformação e crescimento tanto dela quanto da própria Universidade. 

Sua maior saudade da UFRGS está na ausência da interação e do contato com colegas e alunos. A interação para a professora se dá nos espaços que não são palavras, se dá no silêncio, no olhar, no tom de voz, nos abraços e no olho no olho. É através desse contato que Gládis encanta todos que já tiveram a oportunidade de ser seus alunos. Trata-se da ocupação de espaços que faz do seu ideal de educação e de vida uma forma de resistência. 

“A UFRGS se transformou muito nos últimos anos. Ela é mais plural, mais democrática, mais inclusiva; está mais próxima do nome Universidade”

Gládis Kaercher