Graciliano Ramos

Vestibular | A brutalidade social em Graciliano Ramos
Arte: Leonardo Lopes

“Tive abatimentos, desejos de recuar; contornei dificuldades: muitas curvas. Acham que andei mal? A verdade é que nunca soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus. Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízo; fiz coisas ruins que deram lucro. E como sempre tive a intenção de possuir as terras de S. Bernardo, considerei legítimas as ações que me levaram a obtê-las.”

Trecho do livro São Bernardo

Como um romancista, Graciliano Ramos procura dar forma estética ao mundo sem que essa forma esconda a dureza do mundo. Assim, o professor de Literatura Brasileira da UFRGS Carlos Augusto Leite sintetiza a escrita de Graciliano. O autor alagoano, nascido em 1892, é considerado um dos maiores nomes da literatura brasileira do século XX. São Bernardo, obra icônica do autor, passou a integrar a lista de leituras obrigatórias do vestibular da UFRGS de 2020.

Graciliano é considerado um autor regionalista da Geração de 30, pois traz em suas obras as questões sociais do meio rural. Uma das características desse período é a verossimilhança das personagens com status social e lugar de origem. De acordo com a professora Regina Zilberman, do Instituto de Letras, no entanto, “ele felizmente não se deixou dominar pelo tema e deu preferência a sua escrita; não se preocupou se isso era coerente ou não”. Carlos Augusto observa que Graciliano tem um estilo de escrita mais áspero e crítico sobre a sociedade da época. “Ao lugar em que ele conseguiu chegar com a interpretação da violência que estrutura a sociedade brasileira poucos escritores chegaram. É muito precisa e lúcida sua leitura sobre a sociedade brasileira”, aponta.

Questões sociais

São Bernardo, publicado de 1934, é um romance de cunho social que tem como narrador e personagem principal Paulo Honório, homem humilde que vence na vida pisando sobre as pessoas em seu caminho. Para Regina, o romance se diferencia de outros que retratam a desigualdade e a exploração porque mostra o lado do opressor: “Ele é um vencedor, mas se faz a partir de uma violência muito grande contra si mesmo, porque teve de usar métodos bárbaros, e principalmente contra os outros; quem vem pela frente ele vai destruindo”.

O embate maior do livro se dá quando surge a antagonista da história, Madalena. Esposa de Paulo Honório, ela é a personagem que o enfrenta. “Então, o protagonista tem uma adversária à altura. E é interessante, porque o antagonista é uma mulher, a mulher dele”, explica Regina. A docente reitera a posição da mulher que não se deixa suplantar pelo homem: “Ele é o marido que acha que, só pelo fato de terem se casado, ela deveria se submeter, mas ela não se submete”.

Para Carlos Augusto, a violência e a arbitrariedade relacionada à violência como princípio estrutural são os pontos centrais da obra. “O Graciliano Ramos, em vez de estar otimista em relação àquele novo Brasil, representa o Brasil em chave muito negativa. Então carrega dentro da forma estética uma negatividade que não se dissolve; e essa negatividade é a violência e o arbítrio, essa negatividade é a falência das instituições”, pondera.

O livro traz a precariedade da sociedade daquele momento e revela as mazelas de uma democracia desigual. Segundo o docente, Graciliano “nos mostra a maneira precária como a sociedade brasileira se desenvolve sem que aquilo que possa entender como modernidade se complete. Ele está recuperando para nós uma coisa que todos nós conhecemos – em maior ou menor medida –, que é a situação em que a violência e o arbítrio estão presentes nesse verniz de civilização e de futuro e de moderno”.

O romance se desenvolve em dois planos: em um Paulo Honório é narrador e no outro é personagem. Essa distinção é feita pela alternância entre o presente (narrador) e o pretérito (personagem). A narrativa é uma tentativa deste de entender seu passado e a si mesmo. Assim, a história se divide em duas partes: a primeira, quando o protagonista é humilde e está em posição de desassistido; e a segunda, quando ele começa a se tornar um homem de negócios. Essa crescente está atrelada ao capitalismo, que permite a ascensão a quem não tinha nada; à custa, porém, da perda da própria humanidade no processo. “Paulo Honório encarna essa dimensão, daquele que sobe à força, e ele pode subir à força porque nossa sociedade dá espaço para isso; então sobe violentamente, e essa violência cobra seu preço”, analisa Carlos Augusto.

São Bernardo revela-se um romance realista e social na abordagem das desigualdades do Brasil. O docente reforça que a obra é “um exemplo de literatura e de interpretação de mundo”. “Ele colocou o país que conhecemos agora na estética de suas obras lá nos anos 1930. Isso é um grande mérito dele como escritor”, conclui.

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