Guilherme Tavares: a natureza e o cheiro do café

Ceclimar | Professor do curso de Biologia Marinha descreve a relação com o meio ambiente e com a Universidade no litoral norte gaúcho

*Foto de capa: Arquivo pessoal

Os tons de azul claro e escuro colorem o céu, e um raio de luz alaranjada arremata a paisagem como um risco de tinta no acabamento de um retrato bucólico. No horizonte, até onde os olhos alcançam, uma nuvem densa se aproxima dos morros, e o verde do mato cerca a laguna de Tramandaí, no litoral norte do Rio Grande do Sul, onde as águas se movem tranquilamente com a brisa que sopra: parece calor, embora isso não tenha como saber. Não é uma pintura, mas uma lembrança, um vídeo de um dos tantos dias em que o professor de Biologia Marinha e ornitólogo Guilherme Tavares Nunes tirou alguns minutinhos do expediente no Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar), no Câmpus Litoral Norte, para conversar com os colegas. 

Como se já não fosse suficiente a belíssima imagem para despertar a recordação, há ainda uma memória olfativa associada: a de café passado. É que a lagoa é “simplesmente” a vista da copa dos servidores. Com um cenário desses, é esperado que a saudade na UFRGS extrapole as salas de aula, os laboratórios e o agito cultural característico de outras unidades da Universidade para se misturar à natureza privilegiada da região.

Foto: Matias_Ritter

“A UFRGS é um universo, tu passa anos e não conhece tudo, mas duvido que tenha uma cozinha mais bonita que a nossa! Tu entra no prédio e o cheiro de café está impregnado nos corredores, tu vai pegar o café e se depara com a margem da lagoa!”, descreve Guilherme.

“A Laguna é um lugar lindo para assistir ao pôr do sol! Somos um grupo muito unido, ótimo de se passar o tempo. Costumávamos sentar no banco à beira da lagoa. Nesse momento de descontração, as ideias surgiam tanto para os projetos de pesquisa e extensão quanto para as inovações pedagógicas. A universidade também se faz desses encontros. É desse cafezinho, com essa paisagem, de que mais sinto falta dentro da minha rotina.”

Guilherme Tavares

O pequeno intervalo, momento fotográfico, resume a relação do pesquisador com a natureza do litoral e com a Universidade. Aproveitar a natureza é parte fundamental do cotidiano do pesquisador em Tramandaí.  Ele, que mora em Imbé, município limítrofe, costuma ir de bicicleta até o Câmpus. “Durante o inverno, é um lugar muito calmo. Acordo, tomo meu café, brinco com as minhas cachorras e vou de bike para o trabalho. Disso sinto falta também, porque a qualidade de vida é muito boa! No almoço, consigo passar em casa, descansar um pouco. Além disso, realizamos um trabalho legal com a comunidade, criando vínculo”, explica.

Foto: Matias_Ritter

No inverno, o ornitólogo gosta de ir à praia, que é também o local de trabalho, já que ali estão as aves estudadas pelo Ceclimar. “Gosto de ir no friozão ver o mar, tomar um chimarrão, apreciar a fúria do mar, a energia. Gosto da praia vazia…”, salienta. Não é que não goste de ir no verão, aliás, pelo contrário, afirma apreciar todas as estações na cidade, pois “no inverno, é calmo; na primavera, tem os pássaros e todas as árvores floridas; e no verão é a hora das férias”. Acredita, no entanto, que o turismo, apesar de ser bom para a economia, gera alguns transtornos para os moradores e para a fauna e flora locais. “A flutuação de pessoas ao longo do ano traz quem nem sempre respeita as regras da cidade ou da praia, como se fosse uma terra de ninguém. As dunas de areia na praia, por exemplo, servem de controle de ressacas. São o lar da coruja buraqueira, do tuco-tuco, do capim das dunas. Muita gente acaba ocupando as dunas sem respeitar esse ecossistema. O lixo na praia é outro problema. No verão, tem esse lado negativo”, enfatiza.

É por essa razão que ele coordena, com a essencial participação dos alunos do curso de Biologia Marinha e dos servidores técnicos, o projeto Aves da Praia. É outra atividade ligada à extensão da qual sente saudades e cuja finalidade é conscientizar a população. Guilherme explica que o intuito da iniciativa é despertar o interesse pelas aves nos moradores, mas também nos veranistas, já que o projeto se estende por todo o ano. “Trabalhamos com as aves costeiras e com as “aves da janela”: bem-te-vi, quero-quero. O som desses pássaros é, talvez, o primeiro que escutamos ao acordar. As aves talvez sejam os primeiros animais que vemos ao sair às ruas e, por serem comuns, não nos damos conta da beleza que possuem.”

Foto: Bárbara Figueiredo

No Instagram do projeto, qualquer pessoa interessada pode conferir as espécies de aves que habitam o litoral gaúcho e as suas principais características. O docente acredita que é por meio do conhecimento que podemos preservá-las, inclusive, impulsionando a economia. “Além dos benefícios pessoais, como ajudar na concentração e no relaxamento, e da preservação, é uma atividade que pode gerar renda. O Brasil tem um grande potencial para o desenvolvimento de turismo de observação de aves; é o terceiro país com maior diversidade e explora pouco essa oportunidade”, reflete. 

Caminhada na UFRGS

Guilherme Tavares Nunes é natural de Cachoeira do Sul, no interior do estado, e foi estudar no Câmpus Litoral Norte assim que o curso de Biologia Marinha foi oferecido, em 2006. Na época, se preparava para cursar Oceanografia na FURG, em Rio Grande, mas mudou de planos. “Passei quatro anos dentro da UFRGS como estudante de Biologia Marinha e já adquiri um carinho pela instituição”, conta. Em 2011, ele fez mestrado e, posteriormente, doutorado na FURG. Foi em 2018 que o ornitólogo retornou à UFRGS, novamente para o Câmpus Litoral Norte, agora como pesquisador. “Passados pouco mais de dez anos voltei como professor para o curso em que me formei lá na primeira turma. É um privilégio ter o meu cantinho no Ceclimar e transmitir meus conhecimentos!”, diz.

Atualmente o docente divide suas atividades entre a pesquisa, o ensino, a extensão e os ofícios administrativos. Com a pandemia de coronavírus, todo o contato físico foi deixado de lado, e a rotina profissional ficou afetada. “Seguimos dando aula, estudando, mas tudo atrás de uma tela. Sinto falta do contato.” Guilherme atua em ilhas oceânicas do Brasil, como Fernando de Noronha, pelo menos duas vezes por ano, e teve de interromper as saídas de campo. “ É uma perda para o meu trabalho, mas nossa saúde está em primeiro lugar”, sentencia. Por outro lado, o período de confinamento foi útil para colocar em prática a análise de dados e a escrita de artigos que estavam à espera.

O projeto de extensão educacional com as escolas da região, por exemplo, motivo de alegria pela troca em grupo, foi suspenso por conta da covid-19. “Era interessante, porque passávamos o mês com as crianças; eram quatro encontros.” Depois da primeira reunião, os estudantes eram levados à praia, onde utilizavam binóculos e lunetas do Ceclimar e manuais produzidos pelos alunos de Biologia Marinha para identificar as aves. Ao final da aula, eles recolhiam o lixo da praia para, no terceiro encontro, aprenderem a fazer a correta separação dos dejetos e, assim, ajudar a diminuir a poluição marinha. Nesse mesmo dia, os alunos, geralmente do sétimo ano, que é quando se aprende sobre as aves, podiam ainda conferir mais de 90 espécies no Ceclimar, todas pelo nome popular. “No segundo encontro, eles já estavam brincando com a gente, criando intimidade. A ideia é sempre aproximar, não afugentar”, conclui. 

A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto do JU e da UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: