Homens discutem novas formas de masculinidade

Comportamento | Diferentes grupos discutem formas mais saudáveis de identificação social

Lucas Rodrigues criou um grupo para problematizar a construção social do ser homem (Foto: Flavio Dutra/JU)

Em um aplicativo de conversas, um grupo de pais de uma escola particular de Porto Alegre compartilha um álbum de mulheres nuas no Halloween. Segundo João, nome fictício, um dos integrantes, eles enviam também, sem qualquer reflexão, conteúdos de cunho misógino e homofóbico. Conforme o psicanalista Otávio Nunes, esse é apenas mais um espaço para expressar o “universo masculino” nos seus estereótipos e na sua superficialidade. “O mundo masculino é de violência e sexo. Isso acontece em vários espaços, por que não aconteceria em um grupo de whatsapp?” Quanto às piadas hostis e à constante afirmação da masculinidade viril, ressalta que “a violência do homem é uma resposta ao tanto que ele mesmo se violenta para não mostrar suas fragilidades e seus desejos que, muitas vezes, precisam ser negados para ter reconhecimento social”.

Repensar

Embora a masculinidade normatizada (branca, heteronormativa e cis) influencie o funcionamento social e conceda diversos privilégios para os que se mantêm no padrão, muitos homens começam a problematizar ações, como essas reproduzidas pelo grupo de pais, e os seus malefícios. Segundo o site Papo de Homem, há, no Brasil, pelo menos 129 grupos que buscam debater masculinidades para encontrar novas formas de ser homem, menos agressivas e mais saudáveis. Esse é o caso de Lucas Rodrigues: graduado em publicidade na ESPM e terapeuta complementar (heiki). Ele formou o grupo O melhor que podemos ser.

“Me reúno com outros homens para debatermos questões relacionadas a gênero. Por exemplo, muitos chegam sem entender por que precisamos compartilhar as atividades domésticas. É algo a que não estamos habituados. Isso é prejudicial, porque, quando vamos morar sozinhos, sofremos e causamos sofrimento. Se temos uma companheira, a sobrecarregamos.”

Lucas Rodrigues

A iniciativa de formar o grupo surgiu depois do massacre em Suzano, no início deste ano, quando dois jovens entraram atirando na Escola Estadual Professor Raul Brasil e mataram sete pessoas. “Fiquei com medo que esses atentados se tornassem mais frequentes no país e observei que eles tinham início nos cantos obscuros da internet, onde homens jovens, majoritariamente brancos, nutrem rancor e ódio decorrentes de frustrações causadas por promessas de masculinidade que não se cumprem. A mídia e a sociedade prometem que, se você for insistente, agressivo, machão, você vai ter tal mulher, vai ter dinheiro. Isso não acontece”, explica.

Lucas acredita que os homens precisam se reunir entre si para não sobrecarregarem as mulheres e outras minorias políticas que já sofrem diariamente com a opressão de um sistema masculinizado. “Temos que ter a autonomia de nosso aprendizado, mas sempre ouvindo as mulheres. Quando um homem, no nosso grupo, passa a entender algo porque ouviu um conselho de um de nós, problematizamos, então, por que ele não compreendeu quando ouviu a mesma reclamação vinda da sua mulher.”

Edson da Luz, motorista de ônibus e estudante de Serviço Social na Uniasselvi, afirma que se tornou uma pessoa “menos bruta” e mais empática em relação às mulheres depois de começar a frequentar o grupo iniciado por Lucas. “Repensei muito minha possessividade, o domínio que eu exercia sobre a vontade dos integrantes da minha família”, conta. Para ele, esconder os sentimentos é violento e gera violência. “Não ter com quem conversar sobre as suas dificuldades contribui para a solidão e para o preconceito. E a solidão propicia a entrada no mundo das drogas e do álcool”, reflete.

Cássio do Amaral, outro integrante do grupo, é músico e professor. Ele conta que, após ser convidado por Lucas paras as discussões, passou a “potencializar as energias masculinas e femininas que existem em cada pessoa”.

Isso me ajudou a lidar com tudo que é tipo de gente de uma maneira muito natural e a quebrar muitos preconceitos e crenças limitantes. Criei relacionamentos maravilhosos com diversas pessoas e vi as tantas possibilidades que um ser humano pode oferecer.”

Cássio do Amaral

Por outro lado, revela que pessoas próximas reagem com sarcasmo quando convidadas por ele a participar das reuniões. “Mas, ao presenciar certas atitudes preconceituosas, busco ao menos um pequeno diálogo que incentive a reflexão

Masculinidade negra

Professor do Departamento de Astronomia da UFRGS, Alan Alves Brito participa do movimento HeforShe e ressalta a importância de não tratar todas as vivências da mesma forma, mesmo que o machismo e a masculinidade agressiva afetem e sejam reproduzidos por todos os homens. “Eu, por exemplo, sendo homem negro, gay, nordestino e professor de exatas crio muita tensão nesta universidade. Isso quando não sou barrado em alguns locais. Os efeitos tóxicos da masculinidade me atravessam de outro jeito, se compararmos com homens brancos, porque mesmo que os homens brancos sofram com a privação de sentimento, por exemplo, eles possuem muitos privilégios que os negros não têm”, explica.

Alan Brito participou de um cine debate sobre masculinidades na Sala Redenção (Foto: Flávio Dutra/JU)

Ele, que ministra uma cadeira para discutir questões de gênero voltada a estudantes da Física, aponta que um homem negro é marcado duplamente pela violência.

Vejo isso pelas trajetórias de outros homens pretos que conheci e que acabaram presos ou em situação de drogadição por conta disso. Além do mais, nossos corpos são extremamente sexualizados; somos desumanizados. Então somos vistos obrigatoriamente como máquinas de fazer sexo e precisamos performar isso. E tem que ser o sexo hétero. Algumas mulheres, quando descobrem que um homem negro é gay, logo reagem dizendo que um negão assim ser gay é um desperdício

Alan Alves Brito

Além disso, acrescenta, os homens negros enfrentam outras faces da masculinidade, como perseguição policial. “Muitos não falam, mas uma experiência comum entre homens negros é ‘quando foi a primeira vez que a polícia os parou.”

Discussão acadêmica

Uma referência no debate de questões de gênero, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), por meio da Coordenadoria de Diversidade Sexual e Enfrentamento da Violência de Gênero, promove quinzenalmente discussões em grupo abertas à comunidade a respeito das masculinidades.

Matheus Martins, psicólogo e servidor que ajuda a conduzir as conversas, enfatiza que o grupo é reflexivo, não terapêutico, configurando-se um espaço acolhedor. “Em todo encontro, elegemos alguns tópicos, como construção da sexualidade, afetos, privilégio dos homens, homens e paternidade, homens e violência.” Ele ressalta que o objetivo é desconstruir preconceitos. “Mas sempre deixamos claro que é um ambiente em que se pode falar tudo.” Os perfis dos participantes são bastante diversos: estudantes brancos, negros, heterossexuais, homossexuais, bissexuais, trans, de exatas, de humanas.

“É interessante porque a própria vivência diferente de cada um permite reflexões. Praticamos muito a autocrítica.”

Matheus Martins

Para Matheus, é imprescindível que a discussão seja feita na universidade. “Como futuros profissionais, os estudantes têm papel transformador em outros setores”, enfatiza.


Bárbara Lima

Estudante de Jornalismo da UFRGS