Impactos da pandemia na cena cultural de Porto Alegre

Economia | Diante do relaxamento das medidas de isolamento social, representantes de casas de espetáculo e bares fazem um balanço dos impactos da covid-19 na área e planejam as possibilidades de retomada das atividades

*Foto de capa: Leandro Rodrigues

No dia 17 de março de 2020, saía o decreto municipal n.º 20.505. Embora o número do documento possa não invocar nenhuma memória específica, foi nesse dia que o prefeito de Porto Alegre oficializou o estado de emergência em decorrência da pandemia de covid-19 e, assim, impôs as primeiras medidas de restrição a casas de espetáculo, pubs e bares: “De forma excepcional e com o interesse de resguardar o interesse da coletividade, ficam suspensas as atividades […]”.

No domingo anterior ao fechamento, dia 15 de março, o Bar Opinião realizava o que viria a ser seu último evento presencial pelos dezessete meses seguintes. O vazio da Cidade Baixa não poderia deixar de refletir nos negócios. Como uma casa de shows se mantém sem poder realizar eventos? Diego Faccio, diretor da Opinião Produtora, explica que a manutenção da casa se deu com base em economias passadas e subsídios governamentais. “Ninguém foi pra rua, conseguimos manter toda a equipe. Mas, pra se manter, foi preciso usar as economias e fazer algum planejamento pensando lá na frente, porque a receita é zero.”

Atualmente, a Opinião Produtora, com mais de 30 anos de mercado, administra quatro espaços diferentes em Porto Alegre – além do Bar. É responsável pela programação do Pepsi On Stage, do Auditório Araújo Vianna e do Teatro Túlio Piva. Acostumados com produções que chegam a mobilizar mais de 1.000 profissionais, o novo formato, em que só é permitido público sentado com até 300 pessoas (conhecido no ramo como “mesa e cadeira”), chega a soar quase intimista. Mas, mesmo com as limitações exigidas pelas balizas sanitárias, a expectativa de Diego para o retorno é grande.

“Muitos shows já estão sendo remarcados, continuando de onde parou. É uma relação muito legal, de parceria com os artistas. Tá todo mundo a fim de trabalhar, tá sendo bem aceito por todo mundo – os artistas também estão há 17 meses sem receber, né?”

Diego Faccio
Fechamentos e readequações

O futuro da cena cultural e boêmia da capital, porém, não será apenas de retomadas. Bem ao lado do Bar Opinião, por exemplo, a casa que abrigava o Insônia Bar já está ocupada por outro empreendimento.

O estabelecimento, localizado no coração da Cidade Baixa, ponto boêmio da juventude porto-alegrense, não sobreviveu às adversidades impostas pelo isolamento social e foi oficialmente fechado no dia 27 de novembro do ano passado. A proprietária Sônia Maria Ferreira Bastos conta que a tentativa de funcionar à base de tele-entregas não cobria nem a luz ou o aluguel, e ela não queria participar do abre-e-fecha até ter certeza da segurança sanitária da abertura. 

De acordo com Sônia, o fato de o bar não possuir acústica adequada para shows ao vivo jamais o impediu de ser um ponto cultural. “Os frequentadores se sentiam à vontade de exercer arte ali. Houve inúmeras peças de teatro que começavam no bar e terminavam na rua.” 

Sônia diz ter fé em uma futura reabertura do estabelecimento. Os planos, porém, agora são imediatos, buscando sua sustentação – ela não é aposentada e não possui outra fonte de renda. Colegas comerciantes planejam, até o fim do mês, lançar uma arrecadação coletiva para ajudá-la. “Eu vou começar a fazer lanches e vender na vizinhança até poder me erguer. E um dia, se Deus quiser, o Insônia Bar voltará.”

Não muito longe dali, o Paraphernalia, um dos bares mais antigos da João Alfredo, se encontrava em um momento de dificuldades financeiras quando a pandemia se instalou. O estabelecimento foi arrendado por Júlio Rodestein, e no exato mês em que planejava recomeçar os negócios, as medidas de restrição passaram a vigorar. Em agosto, convidou Nilo Feijó para ingressar no negócio, e o local virou a Parapha Baiuca. 

Nilo avalia que o impacto da pandemia no ramo cultural e boêmio da cidade foi profundo. “Os artistas ficaram muito desamparados com a perda dos seus cachês. Os lugares foram fechados… Foi algo muito, muito violento. E a retomada disso tem sido muito gradual.” 

A reabertura, que já ocorre de maneira tímida, não deixa de ter seus impasses vindos do bolso do próprio consumidor. O empresário aponta que o reflexo da pandemia nas comandas é gigantesco: os cinquenta reais que alguns anos atrás representava um grande consumo hoje é o gasto mínimo para uma noite na rua.

“Houve uma descapitalização não só do músico e dos donos de casas, mas do público também. Junto disso veio uma inflação violenta. O poder aquisitivo das pessoas diminuiu demais” 

Nilo Feijó

Ainda assim, a manutenção da reabertura não é certa. O aumento dos casos da variante delta no país ainda é uma realidade, e o “abre-e-fecha” que ocorreu no início do ano ainda é uma possibilidade. Os comércios do ramo ainda carregam feridas deste momento tão complicado. “Pra abrir uma casa tu tens que comprar tudo de novo. Para o proprietário foi horrível”, comenta Nilo. Ele conta que ouviu casos de colegas que “praticamente fizeram derrame de bebida” – pubs que trabalham com cerveja artesanal e barris de chope não tiveram sequer a opção de vender a preço de custo.  

De acordo com Leandro Valiati, professor de Indústrias Criativas e Economia da Cultura na UFRGS, o setor cultural do Brasil foi um dos mais atingidos mundialmente. O setor de serviços, em um geral, foi um dos mais afetados, e não só no Brasil. Porém, de acordo com o docente, não podemos nos pautar por esse declínio generalizado para justificar a negligência latente com o setor cultural. “A gente está falando de arte, de cultura. A gente não tá falando de um serviço comum. ‘Por que a gente tem que ajudar a casa que tem apresentações de música?’. Tem diferença, desde que você parta do princípio de que a arte e a cultura são elementos importantes para o desenvolvimento local.” 

Espaço tradicional

Uma das maiores instituições culturais do estado é exemplo de importância desses espaços de arte para a sociedade: após o longo período com atividades remotas, o Theatro São Pedro também passa a, oficialmente, dar boas-vindas a seu público. A experiência única da orquestra continua a atrair tanto os antigos entusiastas quanto curiosos de plantão, ainda que dessa vez não se dê da maneira usual. Dos 630 assentos disponíveis, apenas 190 podem ser preenchidos. As vendas de ingressos são obrigatoriamente feitas de maneira antecipada; a entrada e saída do público, convencionalmente um momento de interação entre a plateia, se dá em filas, sem tempo para conversar no saguão.

Durante o período da pandemia, relata Antônio Hohlfeldt, presidente da Fundação Theatro São Pedro, o local realizou adaptações para continuar suas atividades. Embora anteriormente já tivessem experimentado a transmissão virtual simultânea, a gravação dos espetáculos deixou de ser apenas uma possibilidade, tornando-se a principal alternativa.

“Nós fizemos uma série de espetáculos no mês de junho, no aniversário do Theatro. Alguns gravamos na casa dos próprios artistas, outros foram gravados aqui. Todos sem público. Nós transmitimos tudo isso pelas redes sociais.” 

Antônio Hohlfeldt

Antônio lembra que a covid-19 levou muitos espectadores frequentes do Theatro. “Talvez essa seja a nossa grande perda. Nós perdemos muita gente. De outro lado, nós – não só agora, mas muito mais agora – nos preocupamos em conquistar novos públicos. O público jovem e o de variados tipos de espetáculos. Eu diria que também nasceram novos tipos de espetáculos que a gente não conseguia nem imaginar”, conclui.