Impactos da pandemia na infância e na adolescência

Artigo | Jerusa Fumagalli de Salles, Gabriella Koltermann e Érica Prates Krás Borges, do Núcleo de Estudos em Neuropsicologia Cognitiva, apontam a necessidade de se compreender a real extensão dos efeitos do ensino remoto na aprendizagem

*Foto: Flávio Dutra/JU

A transição para o modelo de ensino remoto na educação devido à pandemia de covid-19 trouxe diversos questionamentos quanto ao impacto do fechamento das escolas para as crianças e adolescentes e à capacidade de as instituições educacionais oferecerem processos alternativos de ensino e aprendizagem. Entende-se que um aprendizado remoto efetivo ou parcialmente efetivo depende em grande parte de fatores como a qualidade da educação, a experiência dos professores, o acesso à tecnologia (como internet, computador, televisão, rádio, mídia social e eletricidade) e o apoio político/governamental e comunitário. Uma grande porção das famílias brasileiras, no entanto, não possui acesso pleno a esses recursos, de forma que as desigualdades sociais e econômicas refletiram em condições muito diferentes de acesso à educação a distância. 

No Brasil, a implementação do modelo de ensino remoto assumiu diferentes formatos a depender do tipo de escola e dos recursos disponíveis. Enquanto alguns alunos tiveram acesso a aulas diárias transmitidas ao vivo, aulas gravadas e plataformas digitais de aprendizagem, outros dividiam um aparelho de telefone para acompanhar as aulas que aconteciam uma vez na semana, ou sequer tinham acesso à internet, dependendo da entrega de materiais impressos. 

Um levantamento feito pela UNICEF apontou que 3,7 milhões de estudantes brasileiros matriculados na rede de ensino não tiveram acesso às atividades escolares no ano de 2020, e quase 1,5 milhão de crianças e adolescentes não frequentaram o ensino remoto.

Nesse contexto, dificuldades na adaptação de alunos que não possuem suporte adequado à aprendizagem a distância não eram difíceis de se prever, e seus efeitos acompanharam perdas ou a desaceleração dos ganhos nas habilidades acadêmicas ao longo do ano escolar. 

De fato, os prejuízos na aprendizagem projetados por estudos internacionais e multicêntricos concentraram-se em maior magnitude em países de baixa e média-baixa renda, como o Brasil. Nesses países, o desempenho acadêmico (como em leitura, escrita e matemática) na infância e na adolescência já era, anteriormente à pandemia, consideravelmente baixo em comparação às taxas de desempenho de países desenvolvidos. Estima-se que o contexto da pandemia e as decorrentes dificuldades de adaptação no processo de ensino e instrução exacerbam as desigualdades globais já existentes de longa data. 

Por exemplo, a última edição do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), realizada em 2018, já indicava uma defasagem no desempenho escolar dos alunos brasileiros. Na avaliação da leitura, o Brasil ficou 74 pontos abaixo da média dos países integrantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na avaliação da matemática, os estudantes ficaram 108 pontos abaixo da média, e o Brasil passou a ocupar a posição de 8.º país com o pior desempenho em matemática da OCDE.

Em 2021, um estudo realizado pela Secretaria de Educação do estado de São Paulo avaliou o desempenho dos alunos em língua portuguesa e matemática e comparou com os dados de anos anteriores. Os resultados apontaram que o desempenho dos alunos do 5.º ano do ensino fundamental foi equivalente ao desempenho encontrado há 10 anos em língua portuguesa e há 14 anos em matemática. A principal perda nas habilidades acadêmicas foi em matemática: projetou-se que levará cerca de 10 anos para recuperarmos o atraso em relação ao que seria considerado um desempenho adequado.

Nos deparamos, portanto, com um cenário preocupante e sem precedentes no que se refere ao desempenho acadêmico de alunos brasileiros, sobretudo de crianças e adolescentes de baixo nível socioeconômico. Nesse contexto, a necessidade de compreender a real extensão dos efeitos do ensino remoto na aprendizagem é imprescindível, considerando que as previsões, caso nenhuma providência seja tomada, não se mostram otimistas. 

Com o intuito de contribuir com a produção de conhecimento sobre as repercussões da pandemia na educação, o Núcleo de Estudos em Neuropsicologia Cognitiva (Neurocog) da UFRGS está desenvolvendo o projeto de pesquisa intitulado “Impacto diferencial da pandemia de covid-19 no desempenho acadêmico de crianças brasileiras e alemãs”.

O projeto foi selecionado e está sendo financiado por um edital de pesquisa da Rede Nacional Ciência para a Educação (CpE) e do Instituto Ayrton Senna. O principal objetivo da pesquisa é avaliar o impacto da pandemia na aprendizagem de matemática e língua portuguesa e na qualidade de vida de alunos do 3.º ao 6.º ano do ensino fundamental. A coleta de dados está sendo realizada de maneira remota (online) ou presencial em escolas do Brasil e da Alemanha, possibilitando a comparação do efeito da pandemia sobre a aprendizagem em ambos os países.

A equipe do Neurocog está disponível para estabelecer parcerias com escolas públicas e privadas da região de Porto Alegre que tenham interesse em participar da pesquisa. Ao final das coletas, as escolas parceiras receberão um relatório geral de desempenho de seus alunos nas habilidades avaliadas. Pais e responsáveis por crianças do 3.º ao 6.º ano que queiram participar do estudo no formato online também poderão fazê-lo. Para mais informações, interessados em participar da pesquisa devem encaminhar e-mail para pesquisacovidbral@cienciaparaeducacao.org.


Jerusa Fumagalli de Salles é fonoaudióloga, mestre e doutora em Psicologia pela UFRGS, professora associada ao Instituto de Psicologia da UFRGS e coordenadora do Núcleo de Estudos em Neuropsicologia Cognitiva (Neurocog).
Gabriella Koltermann é psicóloga, mestre e doutoranda em Psicologia na UFRGS e integrante do Núcleo de Estudos em Neuropsicologia Cognitiva (Neurocog).
Érica Prates Krás Borges é psicóloga, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental na Infância e Adolescência e mestranda em Psicologia na UFRGS. Integrante do Núcleo de Estudos em Neuropsicologia Cognitiva (Neurocog).