Jornais universitários pautam debates na sociedade e vão além da divulgação

Comunicação | Periódicos ligados às universidades federais criam pontes entre a produção acadêmica e a comunidade

*Por: Anna Ortega e Bárbara Lima

Estudo da UFG mostra redução no isolamento social por parte da população. Essa é uma de uma série de reportagens publicadas no Jornal UFG (Universidade Federal de Goiás) desde o início da pandemia e que tem pautado a imprensa regional, dando visibilidade especialmente ao trabalho desenvolvido pelo Grupo de Modelagem da Expansão da Covid-19 em Goiás. Ao divulgarem as estimativas de avanço da pandemia no Estado, tais reportagens têm contribuído para socializar o conhecimento produzido na Universidade e que tem impactado nas ações de contenção do vírus na região. 

Ao longo desse processo, entretanto, lembra a editora do jornal, Carolina Melo, alguns dos pesquisadores do Grupo de Modelagem começaram a ser alvo de ataques de haters, o que prejudica a imagem deles como cientistas. Como resposta, foi criada nova série intitulada Bastidores da Ciência, apresentando quem são os pesquisadores da UFG.

“Querendo ou não, publicações como o UFG entram na disputa de narrativas no sentido da perspectiva da credibilidade. É um exemplo da importância dos jornais universitários e da nossa ação enquanto jornalistas e assessores no combate a essas fake news, que desacreditam a ciência e os pesquisadores”

Carolina Melo 
Cenário desafiador

Os jornais universitários, feitos por jornalistas, servidores públicos ligados aos setores de comunicação das instituições federais, compõem parte da comunicação pública brasileira. O cenário atual do país, entretanto, é desafiador: em levantamento realizado pela reportagem, dentre as universidades que responderam, 38,4% afirmou que já teve jornal impresso, mas que foi extinto, sem sequer ter migrado para ambientes virtuais. É o caso dos jornais da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), da Universidade Federal de Rio Grande (FURG), da Universidade Federal do Mato Grosso (UfMT), da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Já o Jornal da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por exemplo, circulou entre 2004 e 2011 em papel, e somente em 2016, cinco anos após o encerramento do produto, é que o Conexão UFRJ surgiu integralmente no meio digital. 

A professora do PPGCom e coordenadora do Núcleo de Comunicação Pública e Política (Nucop) e do Observatório de Comunicação Pública (Obcomp) da UFRGS, Maria Helena Weber, acredita que a democratização da mídia passa pela comunicação pública e ressalta o papel das universidades nesse processo. “Todas as instituições políticas vinculadas ao Estado deveriam pensar – e eu incluo as universidades – em sistemas de comunicação voltados ao interesse público. As ações que universidades têm feito em relação à veiculação de informações sobre a Covid são exemplos de como a universidade tem que se basear nessa perspectiva da comunicação pública”, reflete. Além disso, a pesquisadora defende que a comunicação pública é crucial para a democracia.

“Defendemos a hipótese de que a qualidade da comunicação pública é um indicador da qualidade da democracia.”

Maria Helena Weber

Em um momento em que um número expressivo de jornais universitários deixaram de existir, Maria Helena – uma das idealizadoras do JU quando coordenou a Comunicação da UFRGS – alerta que outros meios públicos de comunicação se encontram instrumentalizados. “Podemos ver que temos uma democracia que vem sendo fragilizada pela perspectiva privada que orienta o discurso do Estado e do governo. Nossa comunicação [pública hoje] não é como na ditadura, quando havia censura, é mais sofisticada; ela é, portanto, mais perversa.” E dá o exemplo: “Se você deixa existir a EBC, mas impede o conselho, retira a possibilidade de essa comunicação fazer comunicação pública. Passa a fazer o release do governo. Essa é a diferença. Você não pode ter uma instituição pública voltada aos interesses do governo – ou se transforma a comunicação pública em propaganda”.

Digital e o futuro

Segundo Vanessa Almeida da Silva, uma das integrantes da redação do Conexão UFRJ, o portal cria uma ponte entre a ciência, a universidade e a população. “Ouvimos as demandas da comunidade por informação e  buscamos aumentar a pluralidade de vozes nessa discussão, incluindo outras fontes, além de professores e pesquisadores”, explica. Para o futuro, o Conexão UFRJ quer criar um projeto de extensão. “A ideia é trabalhar a reportagem como ferramenta de mediação com a sociedade.”

Nos quatro anos de existência, a equipe relembra momentos marcantes. “Na Campanha Intelecta, três mulheres jornalistas, a Ana Carolina Correia, a Patrícia Gouveia e a Tassia Menezes, tiveram oportunidade de entrevistar outras mulheres diferentes da comunidade que contribuem com a Universidade, mostrando suas produções e suas potências. Foi uma construção coletiva feminina. Nos marcou também a cobertura do incêndio do Museu Nacional, devido ao impacto do momento para toda a comunidade e a tudo o que significa a ciência, a educação e a história. Outra produção importante foi um editorial que fizemos no ano passado, chamado ‘Negros o ano inteiro’, marcando a data de 20 de novembro, mas reforçando que precisamos falar do tema muito além de apenas em novembro.”

O compromisso com questões relevantes à universidade e à sociedade também marca a trajetória do Boletim UFMG, um dos mais longevos jornais universitários em Instituições Federais. O ‘Boletim’, como é chamado dentro do câmpus da instituição mineira, divide o mês de aniversário com o JU; teve fundação também em setembro, porém do ano de 1974.

O periódico vinha, desde lá, sendo publicado em versão impressa e semanal, lançando cerca de 40 edições ao ano. O formato foi alterado em agosto do ano passado, quando, em razão de cortes orçamentários, a impressão do jornal foi temporariamente suspensa . O boletim passou, então, a ser digital. Com o agravamento da pandemia de covid-19 no país, em março deste ano, o jornal passou por mais uma mudança: deixou seu formato semanal e aderiu a uma versão diária no próprio portal de notícias da universidade. 

A mudança recente foi, para Flávio de Almeida, editor do Boletim, uma solução encontrada para dar conta das demandas impostas pela pandemia e também uma forma de continuar cumprindo a função social que o jornal sempre teve. “O Boletim semanal exige uma pauta específica, um aprofundamento, uma angulação para reportagem, ainda que a matéria-prima seja a mesma do factual, ou seja, informar tudo aquilo que a universidade produz. O semanal também é um trabalho que se faz de forma mais ‘fria’, no sentido de não precisar produzir no calor da notícia, no urgente. O que pensamos no Boletim de agora é que o momento da pandemia exigia da gente, da universidade brasileira, da ciência, algo mais ‘a quente’, no sentido de ser publicado no calor das coisas.”  

A perspectiva para o futuro do Boletim é, segundo Flávio, fazer uma reflexão sobre qual o melhor formato para a publicação em um mundo tão digital. “O jornal, mesmo não estando circulando no momento, é a principal marca da comunicação da UFMG”, ressalta.

“As pessoas ainda nos mandam muitas sugestões de pauta para publicar no Boletim, pois ele sempre foi um referencial, e existe uma grande relação de afeto das pessoas com o periódico. Acredito que nos próximos meses vamos nos dedicar a fazer um projeto para o futuro e  também uma reflexão sobre o papel do jornal universitário, o formato e sobre a necessidade, claro, de mantê-lo vivo”

Flávio de Almeida
Memória e vazio

Publicado desde meados dos anos 70, com alguns intervalos, o Jornal da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul, circulou até 2016. O periódico era uma das principais vias de comunicação da universidade e, de acordo com o jornalista Sérgio Yunes, “uma ferramenta de preservação da memória institucional e também um instrumento de pesquisa”.

Yunes atua como assessor de imprensa da UFPel há mais de 30 anos e teve a oportunidade de transitar entre as diferentes funções no antigo jornal universitário: foi editor, redator, repórter, revisor e trabalhou, inclusive, na entrega do periódico. O ambiente do jornal era um espaço de aprendizagem. Além dos jornalistas que integravam a equipe – no caso da UFPel, em média, ao longos dos anos, eram três profissionais -, também participavam da produção estudantes dos cursos de Comunicação e Design.  

Sérgio esteve durante sua trajetória profissional e a existência do jornal, que coincidem, envolvido com a produção de diversas reportagens, mas recorda uma que estampou a capa do periódico nos anos 1990. “Era uma matéria chamada ‘Os Talentos da UFPel’, que falava sobre as capacidades da universidade na área de Arte e Cultura. Me marcou pela satisfação de divulgar o somatório significativo de trabalhos e capacidades da universidade na área e, é claro, pela minha afinidade pessoal com o tema”, conta. 

“Insubstituível e até pedagógico”, é dessa forma que Sérgio percebe a importância do jornal impresso dentro da comunidade acadêmica. Além da função que exerce na universidade de contar para si mesma o que produz, como na reportagem ‘dos Talentos’ relembrada pelo jornalista, o periódico em papel é também uma experiência.

“O sentimento que fica quando o jornal não sai é de um vazio. Acho que, mesmo com todos os avanços tecnológicos e as opções digitais existentes, o jornal impresso dialoga com as novas gerações, que talvez não tiveram a oportunidade de ter um periódico institucional em mãos. Na mão mesmo, sentir a textura, as cores e o cheiro do papel, folhear o material para ler – o que é uma experiência única e impossível de ter na tela ou pelo monitor” 

Sérgio Yunes

Após cortes orçamentários, Jornal da UFPel foi extinto em 2016

O papel resiste

“Estar à frente do Beira do Rio é uma maneira de honrar todos os profissionais que vieram antes de mim. O periódico é uma vitrine das pesquisas realizadas pela universidade, é fonte de consulta para pesquisadores, é banco de pauta para jornalistas, é espaço de treinamento em jornalismo científico. O Beira do Rio faz com que as pesquisas ultrapassem os muros. É uma espécie de prestação de contas de como os recursos públicos estão sendo utilizados pela universidade”, assim a editora Rosyane Rodrigues define a relação com e a admiração pelo jornal Beira do Rio. Com 35 anos de idade, o periódico da Universidade Federal do Pará conta com a colaboração de estudantes universitários e é impresso, tendo sua distribuição em papel interrompida apenas este ano devido à pandemia de covid-19. 

Uma das pautas feitas pela redação, que baseia suas escolhas nos projetos de ensino, pesquisa e extensão que apresentam resultados práticos ou que provoquem discussão sobre determinado tema, repercute até hoje. “É uma reportagem de 2013 que fala sobre a potencialidade do camapu [planta] como medicamento contra o Alzheimer”, relembra Rosyane. Ela adiciona outra reportagem importante: “Mais recentemente, em 2018, sobre a despatologização das vivências trans e a experiência do  Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais do Estado do Pará, fruto de uma dissertação do Programa de Pós-graduação em Direito”.

Criado em 2006 e migrado para o formato digital em 2018, o Jornal UFG ocupa-se especialmente de divulgação científica. Segundo Carolina Melo, editora do periódico goiano, as produções acadêmicas precisam chegar à sociedade como prestação de contas da universidade, mas também, e de forma primordial, como instrumento educativo e formativo. Nesse sentido, ela destaca que os jornais universitários cumprem papel importante ao abordar numa linguagem acessível as pesquisas desenvolvidas nas universidades.

“Em um país que enfrenta a falta de valorização da educação, os jornais universitários, como o da UFG, são fundamentais para a divulgação de informações sérias e de credibilidade sobre o universo acadêmico. Inclusive para aproximar os leitores da realidade do que é, de fato, uma universidade pública, que contribui para a melhoria da Saúde, do Transporte, da Educação, do Meio Ambiente e de todas essas áreas que de uma forma ou de outra fazem parte da nossa vida cotidiana,” enfatiza Carolina.

O Jornal da Universidade Federal do Ceará (UFC), antes chamado de Jornal Universitário, existe há pelo menos 17 anos, mas não há registro da data exata de sua criação.  Neste ano, por conta da pandemia de covid-19, o periódico mensal deixou de ser impresso, mas Hébely Rebouças, jornalista e assessora, e a equipe garantem que é necessário repensar “o formato, a distribuição, os objetivos e a dinâmica de produção”. Não há uma redação exclusiva para o periódico. De modo geral, não há também participação dos estudantes. A edição e a execução das pautas são divididas entre os profissionais da assessoria da Coordenadoria de Comunicação Social e Marketing Institucional da UFC. Ou seja, os jornalistas conciliam o trabalho no jornal com outras atividades do setor. 

Dois momentos  marcaram a equipe da publicação: o primeiro deles foi a história de um aluno da universidade cujo pai precisava de uma cirurgia oftalmológica. “Ele iniciou uma campanha na Internet para arrecadar recursos e, a partir de matéria do Jornal da UFC, teve a campanha impulsionada e conseguiu arrecadar o valor que tinha como meta.” Outro evento marcante diz respeito a uma matéria feita sobre os dez anos do SiSU na UFC. “Quando o jornal foi publicado, o pai da aluna nos procurou, muito orgulhoso, pedindo várias edições do jornal para distribuir, porque estava muito feliz pela filha ter saído na capa. Ficamos todos bem emocionados”, relembra a equipe. Para Hébely, o jornalismo universitário cumpre várias funções.

“Auxilia na gestão do fluxo de informações que circulam na instituição, presta contas do que é produzido na universidade à sociedade, dá visibilidade a serviços e a pesquisas científicas que impactam a população. Tudo isso em um formato que permite uma abordagem mais aprofundada, menos ligada ao factual, tocando em assuntos mais perenes e permitindo até mesmo a produção de reportagens e entrevistas mais longas”

Hébely Rebouças

Anna Ortega e Bárbara Lima são estudantes de Jornalismo da UFRGS.