Julia Marsiaj: vínculos e possibilidades do ambiente acadêmico

Câmpus do Vale | Estudante relembra o percurso na Universidade primeiro como aluna de Teatro e agora como graduanda de Letras 

*Foto: Flávio Dutra/JU

Quando prestou vestibular em 2008, Julia Marsiaj tinha 17 anos, havia acabado de sair do Ensino Médio e como opção de graduação escolheu Teatro. Diferente da maioria dos cursos, o Departamento de Artes Dramáticas (DAD) da UFRGS não compartilha o prédio com outras faculdades. Apesar de ser associado ao Instituto de Artes, os alunos frequentam as aulas na rua General Vitorino, no Centro Histórico, num edifício ocupado apenas pelo departamento. Foi nesse lugar que Julia ambientou memórias, construiu vínculos com colegas e professores e iniciou uma relação com a Universidade que duraria muito mais do que quatro anos.

Ela recorda o período com carinho, lembrando como os espaços protagonizaram muitas das memórias que ela tem da época. “Quando entrei no Teatro, fui muito acolhida. Lembro que a gente almoçava no RU do centro e até tinha um ritual de entrada. Íamos todo mundo junto cantando uma música que era o ‘hino do pessoal do teatro’. Tinha esse senso de comunidade muito legal entre os veteranos e os calouros”, lembra. 

Outro lugar de encontro fora das aulas era a sala de convívio do Diretório Acadêmico. “No início do ano, os calouros doavam elementos para aquela sala. Eu, inclusive, levei para lá um cachorro de pelúcia cor-de-rosa gigante, daqueles que tu ganha quando faz 15 anos. A sala era esse lugar onde todo mundo sentava, dormia, tomava café junto.”

Além da descontração, ela destaca que o local de convício representava uma possibilidade de conhecer pessoas de diferentes etapas do curso. Na época, recém-saída da escola, ela trocava experiências com quem cursava Teatro como segunda graduação, com quem estudava e trabalhava. Conta que essa troca é uma das saudades que sente desse período, mas que os vínculos atravessaram o tempo da Universidade – foram amizades para vida. 

Julia se formou em Artes Cênicas em fevereiro de 2013. Em março, já estava dentro do avião embarcando para a França, onde o plano era estudar cinema e seguir com a carreira de atriz. Ela, porém, em vez de se vincular mais à vida da atuação, foi se afastando e desenhando outro caminho. Voltou para Porto Alegre depois de um tempo fora e começou a dar aulas de francês, inglês e também karatê, esporte que pratica desde os treze anos – no ano passado tornou-se a primeira mulher gaúcha a conquistar o Terceiro Dan da faixa preta. 

 Formada pelo Departamento de Artes Dramáticas e estudando Letras, o caratê é outra das atividades em que Julia atua, hoje como faixa preta, terceiro dan (Foto: Flávio Dutra/ju)

Professores que inspiram (futuros) professores

Quando retornou da França, escolheu dar aulas de francês pelas circunstâncias – o mercado era um pouco mais bem remunerado e oferecia mais oportunidades, se comparado ao do teatro.

“Só que curiosamente eu me apaixonei. Dei aula também de inglês, de karatê e aí me dei conta: eu sou professora. Nasci para isso. O teatro foi um caminho que a vida me fez trilhar para entender isso.” A partir daí, surgiu a dúvida: faria uma pós ou um mestrado? Foi então que a agora graduanda em Letras percebeu que gostaria de vivenciar a experiência e o conhecimento que a faculdade de Licenciatura proporcionaria. “Percebi que queria fazer desde o início, fazer as cadeiras de sociologia da educação, de francês também.”

Julia Marsiaj

No primeiro semestre de 2020, através da modalidade de ingresso para diplomados, começou a cursar Licenciatura em Letras – Língua e Literatura de Língua Francesa. Quando passou no processo, a sensação era de “voltar para casa”. A estudante conta que foi emocionante receber a notícia de que seria acolhida pela segunda vez na Universidade, mas agora com tudo diferente: outro curso, outra fase da vida, outro câmpus.

Ela, até o início do semestre, antes de a pandemia começar, nunca tinha ido ao Câmpus do Vale. A primeira vez foi durante a única semana de aula presencial que teve. Julia lembra de ficar impressionada com o verde do local, com a experiência diferente que as pessoas tinham com o espaço. 

Além da relação de afeto com a Universidade, a admiração pelos professores do curso de Teatro também influenciou a escolha do novo curso.

“Quando penso nessa questão do ensino, de ser professora, eu lembro muito dos meus professores, porque eles eram absolutamente excelentes, eram pessoas que estavam lá no horário, que se esforçavam, que levavam a gente para experiências diferentes, que se importavam, que faziam parte da nossa vida. Me tornar professora me remete a toda essa experiência que tive com meus professores na UFRGS.”

Julia Marsiaj

Os muitos caminhos na Universidade

Apesar da improvável relação entre o primeiro curso e o segundo, ela relata que até hoje utiliza elementos do teatro nas aulas de francês, como a técnica vocal, a desenvoltura e a própria gestualidade. Para ela, as duas escolhas fazem parte de um mesmo percurso. 

Ansiosa para voltar ao Câmpus do Vale quando as aulas retornarem, ela conta que ainda não conseguiu estabelecer tantos vínculos como na época do Teatro. Além do formato virtual, que dificulta as trocas, Julia continua dando aulas de francês e não pode acompanhar de modo síncrono as atividades do semestre. Nesses momentos, sente falta do presencial, da sala de convivência e dos espaços físicos da UFRGS, mas espera poder vivenciar tudo assim que as aulas retornarem. 

Pensando na menina de 17 anos que escolheu Teatro, Julia reflete que o caminho não é uma linearidade. “Acho que eu diria para todas pessoas que estão começando agora que o curso que a gente faz não determina de forma alguma a nossa vida. É um caminho, não tem que ser um fim da linha.” A estudante recomenda um olhar atento às possibilidades do ambiente acadêmico, que vão muito além da própria graduação ou área de conhecimento escolhida.

“A UFRGS proporciona cursos especiais, que não são oferecidos em outras universidades, como Teatro, Música, licenciatura de francês, disciplinas de japonês. Todas essas coisas nos permitem sair do lógico, dos clássicos, e tentar expandir.”

Julia Marsiaj

“Eu diria para aproveitarem a multidisciplinaridade da faculdade. Se tem curiosidade de fazer uma disciplina, vai lá, pede, procura, te permite experimentar. Aproveita que a universidade tem tantos ramos. Porque o que tu colocou na matrícula, na inscrição do vestibular, foi uma escolha naquele dia. Não determina absolutamente nada que tu não queira.”


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto JU-UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: