Júlio Lucero e a carreira docente

Perfil | Licenciado em Física pela UFRGS, o professor do PEAC se mostra disposto a conviver com pessoas de idades e ideologias diferentes

“Vai dar trabalho e é cansativo, mas vale a pena, é muito gratificante” é a mensagem de Júlio Lucero, professor licenciado em Física pela UFRGS, para quem deseja seguir um caminho semelhante ao dele hoje. Seu primeiro contato mais aprofundado com a Física foi ainda no ensino médio, quando iniciou um curso técnico de eletroeletrônica. No entanto, apenas alguns anos depois, em 2015, que sua vontade de ser professor se manifestou.

Antes de ingressar na Universidade, Júlio foi aluno do PEAC (Projeto Educacional Alternativa Cidadã) – um curso pré-vestibular popular voltado a jovens em situação de vulnerabilidade socioeconômica –, no qual hoje trabalha. Foi neste ambiente, afirma, que percebeu o que queria seguir como carreira.

 “Em um primeiro momento, foi o PEAC que me inspirou a ser professor”

Júlio Lucero

Reconhecendo a importância do trabalho que encontrou no cursinho como aluno, sua ideia era de, assim que possível, retornar como monitor ao iniciar o curso de Física. Isso foi exatamente o que fez em 2017, um ano depois de entrar na UFRGS. Júlio relembra sua primeira experiência na monitoria, quando ele e outro colega precisaram encarar uma sala pequena transbordando de alunos que precisavam tirar dúvidas. “Eu não consegui falar uma palavra a aula toda”, recorda, contando também sobre a sorte que teve de estar em dupla. 

Hoje, Júlio já assume a sala de aula com naturalidade, atuando não apenas no PEAC, mas também na rede estadual como professor de ensino médio. Sua principal prioridade como professor é cativar os alunos propondo discussões, sejam elas leves ou mais carregadas, envolvendo questões sociais. Ao trabalhar o conteúdo de ondulatória, por exemplo, o professor já pediu a um de seus alunos que tocasse gaita em aula, o que acabou emocionando e envolvendo os demais colegas.

“Eu gosto de relacionar o assunto, qualquer que seja, com coisas que vão além da Física”

Júlio Lucero

Além disso, busca sempre manter uma relação de respeito com os alunos, algo que ele mesmo admirava em seus professores. “Acho que todos têm uma história com algum professor”, reflete. Uma das professoras que foi muito marcante em sua trajetória durante a graduação foi Sandra Prado, descrita por ele como alguém que estava sempre aberta e disposta a ajudar. “Acho que isso era uma parte muito importante dela e que eu tento levar para os meus alunos.” Júlio diz que conversa com seus alunos e tenta escutá-los sempre. Ele conta que se sente mais confortável para estabelecer essa comunicação com estudantes da faixa etária de ensino médio e cursinho com quem trabalha.

O professor considera que o mais gratificante na sua profissão é ver que seus alunos estão tentando acompanhar suas aulas e entender o assunto abordado. Destacando especificamente o PEAC, para ele é sempre muito importante o momento em que um aluno é aprovado, principalmente por ser um cursinho popular. A sensação de comemorar junto com o aluno a possibilidade de acesso a um curso superior depois de todo o seu esforço e suas dificuldades é muito emocionante, segundo ele.

“Vem toda a história dele ou dela naquele momento de ‘Meu deus, eu passei, apesar de tudo!’. É muito legal estar presente nesse momento”

Júlio Lucero

Essa é também sua fonte de maior orgulho como professor: ajudar de alguma forma, por menor que seja, a caminhada para a educação dos alunos. 

Momentos como esses foram justamente os que mais fizeram falta durante a pandemia. O professor conta que sentiu falta do olhar dos alunos, de sua participação e, evidentemente, da presença em sala de aula. Ele destaca a perda de uma sensação de pertencimento muito importante e característica no cursinho em que trabalha. “Uma coisa que é muito importante no PEAC mesmo é o contato, ver os estudantes, conversar. Aquele tempo antes e depois da aula.” Diante disso, ele relata que a volta à sala de aula foi uma sensação maravilhosa e indescritível. 

Em relação a alunos seus que já manifestaram interesse em ser professores, Júlio assume a posição de guiá-los e incentivar esse objetivo. Para isso, ele busca conversar com esses alunos e ajudar como pode. Sua ideia para o aluno que está pensando em cursar Física é mostrar os laboratórios da UFRGS. Segundo ele, para ser professor é preciso saber conversar e lidar com pessoas de outras idades e outras ideologias, é necessário estar disposto a conhecer pessoas diferentes com ideias diferentes. “Não consigo me imaginar fazendo outra coisa”, conclui.