Kanhanga: muita lembrança, pouca saudade

Câmpus Centro | Rapper angolano que se apresentou em sete edições da Semana da África relembra os momentos marcantes dessa história e fala sobre sua vivência durante a pandemia

Foto de capa: Kanhanga a partir de de sugestão de Flávio Dutra

Há 16 anos, desembarcava em Porto Alegre um sujeito chamado Geraldino Canhanga do Carmo da Silva, diretamente da cidade de Lobito, província de Benguela, em Angola. Bolsista do Centro Universitário Metodista, o jovem de 22 anos imigrava ao Brasil para estudar Administração de Negócios Internacionais, mas a vida lhe reservou outro destino – ou, como o próprio gosta de atribuir, sua missão divina: os palcos. Rebatizado como Kanhanga, o angolano destacou-se como músico por meio do hip-hop e soube capitalizar seu talento e criatividade em um canal do YouTube, que conta, no momento, com 498 mil inscritos.

“Eu não tinha uma relação estreita com a UFRGS, mas, por meio desse grupo de alunos angolanos do PEC-G, eu comecei a frequentar os espaços e acredito que a partir daí as pessoas começaram a conhecer meu trabalho”, conta o rapper, que cruzou o caminho da Universidade ao ser chamado para se apresentar da primeira Semana da África, em 2013. Depois disso, Kanhanga participou de todas as edições, com exceção de uma. 

Perguntado se sentia saudades de algo anterior à pandemia, Kanhanga respondeu, aos sorrisos, que não sente falta de nada. O músico diz estar em um outro momento da vida, fundamentado em reflexão: “Eu vim pro Brasil pela Igreja, só que depois que eu me formo eu saio da Igreja, vou viver minha vida, minha carreira, meu trabalho […] Então me afastei total, até que durante a pandemia Deus me chamou novamente”. 

Reconexão com a ancestralidade

Por ter tido a oportunidade de performar nos salões da UFRGS, o público de Kanhanga recebeu uma nova leva de seguidores: somaram-se, aos que conheciam o rapper “da rua e da internet”, acadêmicos, discentes, docentes e figuras ligadas às comunidades de imigrantes africanos no sul do Brasil. O grande catalisador desses encontros foi a Semana da África, evento realizado pelo Departamento de Educação e Desenvolvimento Social (Deds) que visa expor trabalhos relacionados às diversas culturas africanas.

“A Semana da África me proporcionou grandes coisas, tenho boas lembranças, sem falar que a partir daí tive oportunidade de conhecer outros artistas africanos que eu não tinha um vínculo muito forte, que só conhecia de oi” 

Para o rapper, um dos grandes aprendizados que a Semana da África lega aos participantes é a capacidade de se aprofundar na culturalidade que compreende o continente africano. “Eu me dei conta de que eu não sabia nada de África, de tão riquíssimo que os conteúdos e as temáticas que eram abordadas eram”, diz Kanhanga. Uma das recordações que lhe acalenta se passou em 2019, quando, durante o encerramento da edição, artistas africanos convidados compuseram e performaram uma canção temática que fez com que a plateia subisse ao palco para dançar junto. 

A pandemia como ponto de parada

Quando a emergência da covid-19 se instaurou de vez em solo brasileiro, Kanhanga fazia de três a quatro shows por semana, além de, no mesmo período de tempo, ter que escrever músicas para alimentar o canal no YouTube. A pandemia foi, de certa forma, um convite à reflexão para o rapper angolano, que se pôs a repensar o estilo de vida frenético que chamamos de normalidade. “Eu não ia ter, talvez, condições de parar e sentir que Deus tava me chamando para alguma coisa. A pandemia me trouxe isso”, discorre, fazendo referência às próprias elucidações espirituais durante período pandêmico.

Em uma fase diferente na carreira, Kanhanga reconhece a importância dos bons momentos que foram experienciados pela comunidade africana em ações da UFRGS e como esse laço serviu para fortalecer os alunos que migram para o Brasil em busca de oportunidades acadêmicas. “Só quem estuda num país que não é dele consegue entender as dificuldades”, afirma. Para além das recordações alegres, o músico também manifesta preocupação com a situação de imigrantes que foram drasticamente afetados pela crise sanitária, em especial a comunidade haitiana de Porto Alegre.


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto entre o JU e a UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo:


Especial | Semana da África

As imagens desta edição foram feitas por Leonardo Savaris, entre 2015 e 2019, mostrando aspectos da experiência e da vida de senegaleses em Porto Alegre. São manifestações culturais, festas religiosas e celebrações registradas pelo fotógrafo, documentando parte da cultura trazida por esses novos imigrantes do século XXI.

Leonardo Savaris é formado em Fotografia, pela Unisinos. Trabalha principalmente com questões sociais e documentação da vida cotidiana. Seus trabalhos podem ser vistos em leonardosavaris.com.br.