Kim Follador: troca de conhecimentos e experiências

Câmpus do Vale | Estudante de Agronomia fala sobre o papel da extensão, da universidade e, principalmente, da agronomia na busca por um futuro mais sustentável 

*Foto de capa: Kim Follador, a partir de sugestão de Flávio Dutra

Kimberlly usa um suéter verde e tem longos cabelos negros, fala de forma centrada e articulada. Metaforicamente falando, poderia dizer que seu jeito combina com seu curso: é uma pessoa “pé no chão”. Apesar de ter começado sua jornada na UFRGS no Curso de Licenciatura em História, não demorou muito para realizar uma mudança brusca e voltar-se aos estudos da agronomia. A pergunta que a motivou foi “como posso contribuir mais ativamente para a sociedade?”. O teor prático do curso e a oportunidade de estar envolvida diretamente nos processos de produção de alimentos foram os fatores que a motivaram a mudar de área. “Eu poderia colocar mais minha experiência, trabalhar juntamente com as pessoas.” 

A partir desses mesmos princípios, sua entrada na extensão veio por meio do professor Alberto Bracagioli. Desde seu ingresso no curso, encontraram-se conectados por conversas e discussões, especialmente sobre assentamentos na região metropolitana de Porto Alegre. A amizade resultou na participação de Kim Follador no projeto Nexus. Atualmente a estudante trabalha no assentamento agrário Filhos de Sepé, em Viamão, auxiliando os agricultores locais e trocando informações e experiências. O objetivo da ação é ajudar os produtores a estabelecerem um sistema mais sustentável de produção de hortaliças. 

Kim explica o auxílio que o projeto dá a partir de uma proposta de sistema de plantio direto de hortaliças. Visando a diminuição da necessidade de adubos e fertilizantes externos, esse modo de produção busca, também, amenizar a erosão da terra e priorizar o conforto das plantas. Cria-se, assim, um sistema mais sustentável de produção, com menos impactos no terreno e na saúde das hortaliças. 

“O projeto é uma proposta de cultivo em resposta ao modelo convencional de produção de alimentos”

Kim Follador

De acordo com a estudante, o atual modelo de horticultura (e a agricultura de modo geral) depende profundamente do revolvimento do terreno. Isso prejudica diversas características do solo, como a capacidade de retenção de água, podendo, inclusive, causar erosão. Todo esse processo força o agricultor a investir em adubos e agentes externos, gastando ainda mais recursos e prejudicando seu lucro. Assim, o sistema de plantio direto em hortaliças surge como um método alternativo, ainda na década de 1990, voltado para os tomaticultores de Santa Catarina.  

“Num contexto de mudanças climáticas e desmatamento, acredito que engenheiros e engenheiras agrônomas tenham de se voltar pra uma alternativa de modelo produtivo. O modelo vigente e hegemônico não tem contribuído pra erradicação da fome, como a gente vem falando por aí – muito pelo contrário.” 

De acordo com Kim, muitos profissionais em sua área acreditam que os técnicos deteriam todo o conhecimento e que aos agricultores caberia apenas adquirir esse conhecimento pronto. “Mas isso não é uma verdade”, e aponta, “a gente tem muito a aprender com eles; precisamos somar esses conhecimentos, construir juntos as alternativas.”

Não é estranho, portanto, que sua saudade na UFRGS dialogue diretamente com seu apreço pelo tipo de aprendizado que é proporcionado exclusivamente pela ampla troca de experiências e conhecimentos. 

“Nas atividades presenciais, o debate era muito mais fluído. Hoje em dia, no ensino remoto, é truncado. Até porque a Universidade é isso: um universo de possibilidades. E quando tu tá em casa tu tá ali no teu mundo” 

Kim Follador

Estando em um curso majoritariamente masculino, Kim não desconhece situações sexistas. Segundo ela, não é incomum que diálogos e discussões fiquem restritos aos homens do ambiente. “Mas a gente se coloca. Eu vejo várias meninas também se colocando. A gente precisa ser ouvida. A gente tem experiência, tem conhecimento. Assim como os homens, podemos ir atrás daquilo que ainda não conhecemos.” 

A estudante menciona que, no projeto de extensão, o grupo é majoritariamente composto por mulheres. “Se pressupõe, na sociedade patriarcal em que a gente vive, que o homem ‘vá dar conta do recado’. Na verdade, a gente também pode dar conta do recado, e a gente dá conta do recado. Temos provado isso cada vez mais!”, conclui.

A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto entre o JU e a UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: