Laboratório da UFRGS vai realizar testes para detectar coronavírus em profissionais da saúde

Pandemia | Iniciativa é uma parceria da Universidade com o Lacen e tem o objetivo de suprir a alta demanda estadual pelos diagnósticos

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

Para ajudar o Rio Grande do Sul a suprir a alta demanda por testes que identifiquem o coronavírus em profissionais de saúde, o Instituto de Ciências Básicas da Saúde (ICBS-UFRGS) vai realizar a testagem em parceria com o Laboratório Central de Saúde Pública do Rio Grande do Sul (Lacen). Com a testagem, apenas os profissionais que forem diagnosticados com o vírus serão afastados do trabalho nos hospitais públicos e privados – e não todos aqueles com sintomas ou suspeitas da doença.

O Sindicato dos Enfermeiros no Estado do RS (Sergs) entrou com liminar para os grandes hospitais – Grupo Hospitalar Conceição, Hospital de Clínicas de Porto Alegre e Santa Casa –, pedindo o afastamento dos profissionais em grupo de risco. Entretanto, a escassez de mão de obra impede que sejam dispensados de suas funções. A presidenta da entidade sindical, Cláudia Franco, enfatiza que, segundo as normas atuais, mesmo que o enfermeiro entre em contato com paciente contaminado, ele não será testado. “Temos negociado então que isso aconteça pelo menos nos lugares mais críticos, como UTI e Emergência”. E reforça: “Estamos pedindo que sejam dispensados os maiores de 60, as gestantes e as lactantes”.

De acordo com o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), o afastamento de profissionais não testados é um fator que tem prejudicado a assistência médica à população. Embora os trabalhadores da saúde integrem o grupo prioritário para a análise, atualmente não há testes suficientes no estado.

Por isso, todo o profissional de saúde que tenha algum dos sintomas do coronavírus (como febre alta, tosse seca e falta de ar) deve ser afastado do trabalho para cumprir uma quarentena de 14 dias. Entretanto, o Simers recebeu denúncias de que trabalhadores com suspeitas foram mantidos em suas escalas. “Se nós tivermos um número de testes suficiente, não perderemos profissionais por duas semanas. Testando negativo, eles podem retornar à linha de frente [do combate à pandemia]”, afirma Fernando Uberti, diretor de Interior do sindicato.  

Durante a parceria, o Lacen vai encaminhar as amostras dos profissionais da saúde à UFRGS, sem a necessidade de coleta no local. Já a Universidade realizará todo o processo de testagem, que vai desde a recepção do material à liberação dos resultados na plataforma da Secretaria Estadual da Saúde.

Universidade fará até 160 testes por dia
No Laboratório de Virologia do Instituto de Ciências Básicas da Saúde/UFRGS, a mestranda Lina Violet trabalha na extração de RNA viral para a produção de testes de Covid-19 (Foto: Flávio Dutra/JU)

Para o projeto, o ICBS recrutou mais de 100 voluntários e equipamentos de todos os laboratórios de pesquisa da UFRGS. Enquanto o processo for manual, será possível realizar até 160 testes por dia, mas a Universidade tenta conseguir um extrator automático de RNA – equipamento que poderia ampliar a capacidade para até mil testes diários. Outras doações também foram solicitadas pela internet, conforme a lista abaixo. “É praticamente uma organização de guerra. Um laboratório de alta escala com produção industrial”, comenta Ilma Brum da Silva, diretora do ICBS.

Veja o que pode ser doado para o laboratório:

A previsão é de que os testes para os profissionais da saúde sejam realizados a partir da próxima segunda-feira, dia 16, mas o laboratório ainda aguarda a chegada dos últimos reagentes, que são importados dos Estados Unidos. Já os kits para a testagem levam de 15 a 20 dias para chegar à Universidade. Para casos extremos, o ICBS está trabalhando com tentativas de padronizar outros protocolos com reagentes utilizados normalmente no laboratório. 

“Tendo a expertise e a estrutura que temos, é esse retorno que nós, enquanto servidores públicos, precisamos dar a nossa comunidade.”

Ilma Brum da Silva 

O problema é que, na área da saúde, inclusive para a pesquisa, a maioria dos reagentes depende da importação. Ilma lamenta a falta de incentivo ao desenvolvimento de indústrias da área de biotecnologia no país, que se mostram essenciais no combate à pandemia. “Condições humanas e pessoal técnico especializado para trabalhar, eu não tenho a menor dúvida que nós temos. O que precisamos é de investimento para a montagem dessas indústrias”, critica a diretora.

Ilma defende que a Universidade tem um papel de compromisso com a sociedade e não pode se omitir neste momento de pandemia. “Nós estamos passando por um período muito difícil de ataques às universidades públicas. Este é o momento de nós realmente mostrarmos para a comunidade o que nós fazemos há anos e anos a fio dentro dos laboratórios. É hora de tentar melhorar as condições da ciência e produzir conhecimento para poder atuar nessas questões”, completa.