Laís Dias Gomes: o pertencimento e a cultura popular

Câmpus Saúde | Estudante de Medicina fala sobre a presença do Carnaval na academia e a importância de ter sua cultura representada na Universidade

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

“Antes de eu me perceber como gente, eu já ouvia samba”, conta Laís Dias Gomes, estudante do 4.º semestre de Medicina na UFRGS, ao relatar sobre sua paixão pelo Carnaval. Laís é a rainha da escola de samba Unidos da Vila Mapa e também a primeira princesa do Carnaval de Porto Alegre em 2020.

A estudante salienta que, mais do que ser reconhecido pela Universidade, o Carnaval deve ser trazido para dentro do ambiente acadêmico. “Precisamos desse espaço para aproximar, para haver uma intersecção, porque a vida é assim. Não existem histórias únicas sobre pessoas carnavalescas ou da faculdade”, salienta.

O primeiro ponto de intersecção traçado na UFRGS aconteceu no dia da celebração do III Novembro Negro das faculdades de Medicina e Odontologia e do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva (PPGCol), em 2019. Laís estava envolvida com a organização do projeto e sugeriu que a escola de samba Unidos da Vila Mapa realizasse uma apresentação na abertura do evento. A estudante revela que a ideia surgiu quando ela percebeu que nunca havia visto manifestações culturais referentes ao Carnaval dentro da UFRGS.  “Eu já tinha visto dança afro, roupas afro, feira e música”, exemplifica, “mas nunca tinha visto nem ouvido falar nada a respeito do Carnaval.”

Olhando para trás, Laís relembra o momento com saudosismo e um carinho especial. “Foi muito emocionante pra mim. Quando entrei na faculdade, não imaginei que eu teria espaço para minha cultura dentro da UFRGS”, explica a aluna, que pontua a necessidade de intercâmbio entre a Universidade pública e a cultura popular.

Laís ressalta a importância de lembrar que, além de futuros profissionais, os estudantes são seres humanos e, sendo assim, isso amplifica a inevitabilidade da presença da cultura na academia.

“Eu acho que a cultura, de uma maneira geral, seja ela o Carnaval, a música ou a dança, faz a gente entender melhor o ser humano.”

Laís Dias Gomes

Agora sem as paredes físicas da Universidade e com a definição, por meio da União das Escolas de Samba de Porto Alegre, da suspensão do Carnaval 2021, Laís é tomada por saudades de dois de seus “vários mundos”. Da UFRGS, a falta dos colegas, dos professores, da biblioteca da Faculdade de Medicina e do contato olhos nos olhos. Da escola de samba, a fuga da rotina, os sambas-enredo e sua cultura. 

Nas suas idas ao Hospital de Clínicas de Porto Alegre para a Iniciação Científica ou em suas corridas diárias enquanto escuta samba, Laís se adapta à nova realidade e busca se aproximar um pouco da normalidade. A estudante, porém, admite que o ensino a distância é um desafio. 

“Dentro de casa o celular fica por perto e às vezes entra uma mensagem ou notificação. Então eu sinto que acaba sendo um ambiente mais dispersivo. tive que me adaptar para ter muito mais disciplina para estudar”, afirma.

O pertencimento

Antes de ingressar na Medicina, Laís se dedicou por dois anos a estudar em cursos pré-vestibulares. Nesse meio tempo, passou a questionar sua vocação para a profissão.

“A gente tem um pensamento automático, quando se é preto, de que a gente não merece as coisas. É um pensamento inconsciente de que você não merece algumas coisas e que a gente não pertence a alguns lugares. E na minha cabeça, durante um bom tempo, a Medicina foi uma dessas coisas.”

Laís Dias Gomes

Laís comenta que não costumava ver outras mulheres negras cursando Medicina e que o exemplo de outras meninas que puderam ingressar na Universidade a motivaram: “Colegas de colégio minhas que são pretas entraram em Medicina. E eu conseguia ver um espelho nessa situação”. Laís revela que agora vários vestibulandos entram em contato com ela pedindo ajuda, principalmente pessoas negras. 

“Eu acho que tem um grande valor a gente conhecer pessoas que já fizeram o que a gente quer fazer e que já trilharam o caminho que a gente quer trilhar. E acontece que, quando você é preto, esse número de pessoas é mais restrito”, acrescenta Laís, que também celebra o aumento no número de calouros negros a cada semestre – para ela, é uma reafirmação de seu pertencimento a esse espaço. “A UFRGS é a confirmação de que eu posso ter sonhos, querer grandes coisas e de que eu posso realizar isso.”

Nesse sentido, Laís ainda aponta mais uma de suas saudades. O Leituras Pretas, grupo da Faculdade de Medicina que propõe um espaço para estudantes conversarem acerca de suas vivências como jovens negros na Universidade. “A gente tem um espaço ali pra falar sobre coisas que a gente não falaria, falar sobre dor e sobre angústia”, relata.

A cultura popular

 “A gente deve se lembrar do lugar onde a gente vive. A gente vive em um estado no qual ainda é muito difícil ser uma pessoa preta. Então tudo que é relacionado à cultura, música ou religiosidade preta ainda é muito negligenciado”, alerta Laís.

Sua sensação de pertencimento foi reforçada ao ver sua cultura representada dentro da faculdade. Ela relata que, por muito tempo, escondeu sua paixão pelo Carnaval por medo de julgamentos.

“Se nossa cultura é negligenciada, assim como é o Carnaval em Porto Alegre, a gente não vai ter vontade de externar isso, de dizer pras pessoas que a gente faz parte dessa cultura.”

Laís Dias Gomes

Hoje Laís é referência para seus colegas quando o assunto é Carnaval. A estudante expõe sua felicidade em fazer com que pessoas da UFRGS que nunca tiveram contato com uma escola de samba se interessem e saibam mais sobre a cultura do Carnaval. “Apesar de a gente ter um sambódromo aqui em Porto Alegre, ter desfile de escolas de samba, muita gente nunca frequentou esses lugares”, analisa.

Para o futuro, sobram expectativas quanto ao retorno presencial e seu desejo de que, cada vez mais, a academia e a cultura popular possam se encontrar e formar intersecções.


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto JU-UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: