Lançamento de EP e documentário “Luiza Hellena: uma voz” provoca questionamentos sobre invisibilidade feminina no meio musical

Música | As produções, feitas pelo músico e pesquisador Paulinho Parada, estreiam no dia 20 de novembro nas principais plataformas digitais

Foto: Foto: Daniel De Bem

Ancorada em possibilitar momentos de reflexão acerca da invisibilidade de cantoras negras no Rio Grande do Sul, acontece a estreia do EP e documentário Luiza Hellena: uma voz, ambos produzidos pelo músico e pesquisador Paulinho Parada a partir do seu trabalho de campo no mestrado em Etnomusicologia na UFRGS. A atração visa dar espaço à cantora e compositora Luiza Hellena com o lançamento de canções inéditas escritas por ela. Com estreia no dia da Consciência Negra, o documentário estará disponível no YouTube, e o EP, nas plataformas digitais. 

Durante sua pesquisa de mestrado, Paulinho percebeu questões que causavam uma interseccionalidade entre violência de gênero, invisibilidade e marginalização dos negros na música em Porto Alegre – espaço em que a branquitude se faz presente. Foi a partir daí que ele resolveu visitar o Sindicato dos Músicos para conhecer a velha guarda musical gaúcha. “Ali eu conheci a dona Luiza Hellena”, afirma. “Eu realmente nunca tinha ouvido falar dela e me questionei por que isso acontecia.”

As dificuldades que uma mulher musicista negra enfrenta aqui no Sul sempre foram variadas. A trajetória de Luiza Hellena não foi diferente. A cantora de 76 anos nascida em São Lourenço do Sul começou a cantar em emissoras de rádio quando jovem na década de 1960; o trabalho com música, porém, não era visto com bons olhos – e fazia com que fosse considerada “uma menina malfalada”. Mesmo assim, seguiu cantando na noite, compôs e interpretou diversas canções em múltiplos bares e casas noturnas desde a década de 1970. A carreira musical acabou sendo deixada para trás em função de seu casamento, sendo retomada anos mais tarde, quando encontrou no Sindicato dos Músicos uma maneira de se estabelecer e lutar pela classe artística.  

“O jeito dela falar, de mostrar quem ela é, uma mulher de idade avançada, com todas essas questões que perpassam a vida dela. A dona Luiza Hellena simplesmente é”

Paulinho Parada
A cantora Luiza Hellena durante a gravação de seu EP “Luiza Hellena: uma voz” (Foto: Daniel De Bem)

Todas as composições lançadas no EP foram escritas por ela ao longo de sua vida – porém nunca foram gravadas -, a maioria inspiradas em desilusões amorosas, além de dialogarem com a MPB e o samba. Paulinho conta que a inversão das narrativas está muito presente nas composições da cantora. “Em ‘Aviso Prévio’, por exemplo, ela que manda o homem para fora de casa. Já em ‘Avante Povão’ ela faz um samba em homenagem ao Sport Clube Internacional, então é mais uma forma de ela se colocar.” 

“A dona Luiza sempre fez essas inversões de narrativas, mas infelizmente era invisível até hoje. É como se ela dissesse nas suas canções ‘Não é só o homem que tem esse poder e esse direito, eu também tenho!’”

Paulinho Parada

Além do EP, acontece também a estreia do documentário, que mostra dona Luiza cantando suas composições e falando sobre sua carreira. O documentário é como se fosse o audiovisual do EP, além dos bastidores, um encontro entre ela e Paulinho. Para a própria cantora, essa produção é algo muito gratificante. “Foi emocionante essa oportunidade”, relata. “Com a idade que estou receber esse carinho de um músico jovem, poder contar minha história, a minha saga e a minha luta pelo meu sonho que sempre foi cantar.” 

O lançamento das produções acontece no dia 20 de novembro – uma casualidade, sendo que Paulinho e dona Luiza nunca haviam combinado uma data de estreia. A única preocupação dos dois era a urgência e a necessidade de lançar esses trabalhos. 

“Foi uma feliz coincidência, pois sou negra e a data veio coroar minha história, o que me enche de orgulho. Agradeço muito por isso”

Luiza Hellena