Luana Kaingang: indígena não para no tempo

Câmpus Saúde | Estudante de Odontologia conta como se sente por estar na universidade e comenta o que apreendeu sobre os não indígenas 

*Foto: Arquivo pessoal

Para Luana Kaingang, estar na universidade significa poder ajudar seu povo, poder sobreviver hoje. Ela conheceu a UFRGS por conta do incentivo de sua família. Sua tia havia se formado no Centro Universitário Metodista (IPA) e lutou para que a geração de Luana tivesse direito a chegar ao ensino superior. A estudante conta que ingressar era um sonho e que sempre se interessou por buscar a universidade para dar algum retorno a sua comunidade.

 “Indígenas não param no tempo; a gente tem que estar evoluindo conforme as demandas de fora da aldeia estão evoluindo, até para poder estar sobrevivendo hoje”

Luana Kaingang

Em 2012, a estudante realizou um processo seletivo para indígenas e entrou para o curso de História. No entanto, ela relata que poder ajudar alguém que precisa é algo que encanta bastante os povos indígenas, o que a levou a trocar para a área da saúde, mais especificamente a Odontologia. 

ERE e dificuldades do nosso tempo

Em função dos tempos difíceis por que passamos, no sentido de direitos de minorias e demais direitos humanos, Luana conta que teve que trancar alguns semestres para poder ajudar sua aldeia em movimentos sociais. Algum tempo depois, começou o ensino remoto emergencial (ERE). Ela explica que no começo foi muito difícil frequentar as aulas em função da conexão, que era limitada nos territórios indígenas, o que a fez trancar novamente o curso. Após auxílio da Universidade para melhorar o acesso, conseguiu estudar no modelo ERE. “Mas ainda é bem complicado. Nós indígenas aprendemos olhando um no olho do outro, de forma bem pura. É muito difícil estar olhando para uma tela de celular e falar com alguém que a gente não sente, sabe?”, lamenta Luana.

A estudante, entretanto, afirma que esse período também tem trazido ensinamentos. Para ela, o afeto entre as pessoas tem crescido. Ela explica que em sua comunidade o contato físico e esses laços afetuosos são normais, mas acredita que para os não indígenas isso possa ser uma verdadeira lição. 

“O povo só pensa no dinheiro e não dá valor em casa para o filho, para ter esse contato com as pessoas que ama. A pandemia veio mostrando isto: que é preciso parar de pensar um pouco no dinheiro e se voltar para a questão da natureza e do afeto”

Luana Kaingang

Luana demonstra preocupação com o cenário político e as mudanças climáticas. Bastante envolvida com essas temáticas, ela diz que a questão da luta coletiva, muito comum em sua vida enquanto indígena, está fazendo falta para que a sociedade se torne sustentável, justa e igualitária. “O pior veneno hoje é o capitalismo; se pensar bem, as mudanças climáticas são por conta dele”, alerta a estudante. Ela também ressalta que, assim como seu povo, a população não indígena deveria ter mais coletividade para lutar pelo necessário. “A gente vê que as pessoas são muito individualistas. Eu acho que sozinho você não consegue nada hoje.”

Sobre o período em que esteve na UFRGS antes da pandemia, Luana se emociona e conta que sente muita falta de ver o rosto alegre de pessoas que ela ajudou. “Sinto falta de olhar para as pessoas e sentir o calor delas. Especificamente no meu curso, ver a alegria dos pacientes quando estou ajudando eles. Tem sido muito difícil por conta da ausência disso. Era muito gratificante”, relembra. 

Ela deseja muito que tudo volte ao normal logo e quer sentir que as pessoas tenham alcançado aprendizados com a pandemia, se tornando menos individualistas e mais humanas e afetuosas umas com as outras. “A gente tem que pensar isso daqui para a frente”, conclui.


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto entre o JU e a UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: